análise

Como viver noutro país afecta a tua própria percepção de quem és

Cientistas descobriram que morar fora durante algum tempo ajuda-te a estabelecer prioridades e a veres-te a ti mesmo com mais clareza.

Por Emma Young
24 Maio 2018, 10:09am

Crédito: Steven Lewis/Unsplash.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Tonic.

Aquela ideia de que viver noutro país permite que te “descubras a ti próprio” costuma ser subestimada. Mas, se passares um tempo a morar fora, pode ser que a venhas a entender como verdadeira. E, se puderes passar alguns anos fora, melhor ainda. Hajo Adam, da Universidade de Rice nos EUA, conduziu aquela a que a sua equipa chamou a primeira investigação empírica sobre os efeitos que pode ter o facto de viver num país estrangeiro na “clareza do auto-conhecimento” – ou seja, com que clareza e confiança uma pessoa define quem ela própria “é”.

Os investigadores recrutaram um total de mil 874 pessoas para uma série de estudos. O primeiro envolveu 296 pessoas recrutadas pela Internet, das quais metade já tinham morado noutro país em algum momento da vida. Todas elas preencheram um questionário de 12 itens sobre como elas próprias se definem, indicando até que ponto concordavam ou discordavam com afirmações como: “Em geral, tenho uma compreensão clara de quem sou e do que sou” e “Muitas vezes tenho conflitos entre diferentes aspectos da minha personalidade”. Os que já tinham vivido noutros países tinham uma noção mais clara de auto-conhecimento.


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Será que é porque essas pessoas estão mais propensas a procurar oportunidades no estrangeiro? Para descobrir, a equipa recrutou mais 261 pessoas, das quais 136 já tinham vivido noutro país. As demais ainda não tinham tido a experiência, mas tinham planos para o fazer; e a maioria pretendia fazê-lo nos próximos nove meses. Além do questionário quanto à clareza do seu auto-conhecimento, os participantes preencheram uma avaliação sobre as suas “reflexões de auto-discernimento”, tais como: “Percebi que os meus relacionamentos com as outras pessoas são motivados pelos meus próprios valores ou seguem os valores daqueles próximos a mim” e “Determinei que a minha personalidade é definida por quem sou verdadeiramente ou pela cultura na qual fui criado”.

Aqueles participantes que já tinham morado noutro país tinham um auto-conhecimento mais claro do que aqueles que partilhavam dos mesmos planos de morar fora, mas que nunca tinham viajado, o que pode ser explicado estatisticamente pela sua alta pontuação na reflexão de auto-discernimento (após realizar o controlo de variáveis demográficas e de personalidade). Esses resultados sugerem que o período vivido fora do país aumenta a reflexão de auto-discernimento que, por sua vez, leva a uma maior clareza e um auto-conhecimento mais firme.

Outros estudos conduzidos pelos investigadores, incluindo, em alguns casos, estudantes de dezenas de países diferentes, levaram-nos a concluir que é o tempo total passado fora – e não o número de países diferentes – que leva a uma maior clareza no auto-conhecimento (entre os participantes, a média de tempo vivida noutro país era de 3,3 anos). Uma clareza maior também tem uma vantagem prática: estudantes internacionais que passam mais tempo a viver noutro país reportaram sentir mais certezas sobre a sua futura direcção profissional, um desfecho mediado pelo aumento da clareza e do auto-conhecimento.

“O facto de encontrarmos suporte consistente para a nossa hipótese através de populações de participantes de investigações diferentes [...], métodos mistos [...] e métodos complementares de clareza no auto-conhecimento [...] destaca a importância da vivência noutro país para atingir maior clareza no auto-conhecimento”, escrevem os investigadores. “A presente pesquisa é a primeira a apresentar que morar noutro país pode alterar aspectos estruturais de como nos vemos a nós mesmos”.

Outra investigação decobriu que morar noutro país pode influenciar o conteúdo deste auto-conhecimento de uma pessoa – e palavras como “aventureiro(a)” foram acrescentadas às auto-descrições. Novas descobertas sugerem que viver noutro país, longe do ambiente cultural de origem, nos permite confrontar e, quem sabe, redefinir o que é realmente importante (ou não) para a vida que queremos levar - e também leva a uma maior confiança e clareza sobre quem nós próprios achamos que somos. Os investigadores escrevem que quanto mais tempo passas fora, mais reflexões de auto-discernimento serás capaz de ter.

O artigo termina com uma citação do livro Diários de Viagem de um Filósofo, do alemão Hermann von Keyserling: “O caminho mais curto para ti mesmo leva-te para o Mundo todo”. Os investigadores acrescentam: “Quase 100 anos mais tarde, a nossa investigação apresenta evidências empíricas que apoiam esta ideia”.

Este texto foi publicado inicialmente e num formado modificado, no British Psychological Society Research Digest . Lê o artigo original aqui.


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