análise

Como viver em outro país afeta sua percepção de quem você é

Cientistas descobriram que morar fora por um tempo te ajuda a estabelecer prioridades e a se enxergar com mais clareza.
23.5.18
Crédito: Steven Lewis/Unsplash.

Aquela ideia de que morar em outro país permite que você “descubra a si mesmo” costuma ser subestimada. Mas se você passa um tempo morando fora, isso pode ser verdade. E se você puder passar alguns anos, melhor ainda.

Hajo Adam, da Universidade de Rice, nos EUA, conduziu o que sua equipe chama de a primeira investigação empírica dos efeitos de morar em um país estrangeiro na “clareza do autoconceito” – ou seja, com que clareza e confiança uma pessoa define quem ela “é”.

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Os pesquisadores recrutaram um total de 1.874 pessoas para uma série de estudos. O primeiro envolveu 296 pessoas recrutadas pela internet. A metade já tinha morado em outro país em certo momento da vida. Todas elas preencheram um questionário de 12 itens de clareza do autoconceito, indicando até que ponto elas concordavam ou discordavam de afirmações como: “Em geral, tenho uma compreensão clara de quem eu sou e do que eu sou” e “Muitas vezes tenho conflitos entre diferentes aspectos de minha personalidade”. Os que viveram em outros países tinham autoconceito mais claro.

Será que é porque essas pessoas estão mais propensas a buscar oportunidades no estrangeiro? Para descobrir, a equipe recrutou mais 261 pessoas, das quais 136 já tinham morado em outro país. As demais ainda não tinham a experiência, mas tinham planos de sair do país; e a maioria pretendia fazer isso nos próximos nove meses. Além do questionário sobre clareza de autoconceito, os participantes preencheram uma avaliação sobre suas “reflexões de autodiscernimento” – como: “Percebi que meus relacionamentos com as outras pessoas são motivadas por meus próprios valores ou seguem os valores daqueles próximos a mim” e “Determinei que minha personalidade é definida por quem sou verdadeiramente ou pela cultura na qual eu fui criado”.

Aqueles participantes que já haviam morado em outro país tinham autoconceitos mais claros do que aqueles que compartilhavam dos mesmos planos de morar fora, mas que nunca haviam viajado, e isso pode ser explicado estatisticamente por sua pontuação alta na reflexão de autodiscernimento (após realizar o controle de variáveis demográficas e de personalidade). Esses resultados sugerem que o período vivido fora do país aumenta a reflexão de autodiscernimento que, por sua vez, leva a uma maior clareza de autoconceito.

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Outros estudos conduzidos pelos pesquisadores, incluindo, em alguns casos, estudantes de dezenas de países diferentes, os levaram a concluir que é o tempo total passado fora – em vez de o número de países diferentes – conta para uma maior clareza do autoconceito. (Entre os participantes, a média de tempo vivida em outro país era de 3,3 anos.) Uma clareza maior também tem uma vantagem prática: estudantes internacionais que passam mais tempo vivendo em outro país reportaram sentir mais clareza sobre sua direção profissional futura, um desfecho mediado pelo aumento da clareza do autoconceito.

“O fato de que encontramos suporte consistente para nossa hipótese através de populações de participantes de pesquisa diferentes […], métodos mistos […] e métodos complementares de clareza de autoconceito […] destaca a importância da vivência em outro país para a clareza de autoconceito”, escrevem os pesquisadores. “A presente pesquisa é a primeira a apresentar que morar em outro país pode alterar aspectos estruturais do autoconceito.”

Outra pesquisa encontrou que morar em outro país pode influenciar o conteúdo do autoconceito de uma pessoa – e palavras como “aventureiro(a)” foram acrescentadas às autodescrições. Contanto, novos achados sugerem que viver em outro país, longe de seu ambiente cultural usual, permite que você confronte e, quem sabe, redefina o que é realmente importante, ou não, para sua vida, e também leva a uma maior confiança e clareza sobre quem você é. Os pesquisadores escrevem que quanto mais tempo você passa fora, mais reflexões de autodiscernimento você será capaz de ter.

O artigo conclui com uma citação do livro Diários de Viagem de um Filósofo, do alemão Hermann von Keyserling: “O caminho mais curto para si mesmo o leva para o mundo todo”. Os pesquisadores acrescentaram: “Quase cem anos mais tarde, nossa pesquisa apresenta evidências empíricas que apoiam essa ideia”.

Este texto foi publicado inicialmente, e em um formado modificado, no British Psychological Society Research Digest . Leia o artigo original aqui .

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