A nomofobia é o medo de não conseguires ver o que se passa no teu telemóvel

Não estamos "desenhados"para fazer multitasking, mas os nossos aparelhos exigem que o façamos.
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
27 September 2018, 2:38pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Na conferência mundial de desenvolvedores da Apple realizada em Junho último, em San José, Califórnia, EUA, Craig Federighi, vice-presidente sénior de engenharia de software, disse que a utilização dos nossos telemóveis “se tornou um hábito tal, que não conseguimos reconhecer o quanto ficamos distraídos ao fazê-lo”. Esta afirmação surgiu a acompanhar o anúncio dos novos recursos que a Apple está a desenvolver para diminuir esses efeitos, como uma função “Não Perturbar” durante o sono, para que o telemóvel não receba notificações enquanto estiveres a dormir, ou ainda uma função de ajuste de um limite de tempo para aplicações como o Instagram ou Facebook (apesar de que podes muito bem ignorar esse limite se quiseres).

Por mais irónico que pareça, ter de programar o telefone para parar de usar o telefone faz todo o sentido. Olhei para o meu mais de 30 vezes só enquanto escrevia este artigo. Vi os meus e-mails mais de 10 vezes, conversei com os meus colegas pelo Slack e espreitei o Twitter. Nada disto é fora do comum. Quando o ecrã do meu telefone se acende, eu olho. Quando recebo um e-mail novo, tiro os olhos da minha página do Word e vou responder.


Vê: "O inventor do primeiro telemóvel"


É assim que usamos os nossos aparelhos hoje, não é? Já em 2015, 46 por cento dos norte-americanos afirmavam que não conseguiam viver sem os seus smartphones. E existe até um termo para o medo de não poder verificar o telefone constantemente: nomofobia, que vem do inglês “No Mobile Phone Phobia” [fobia de ausência do telefone, em tradução livre]. Podes consultar o teu próprio nível de nomofobia num questionário desenvolvido por investigadores; quando eu o fiz, a minha pontuação foi a mais alta: nomofobia severa.

Enquanto jornalista, que precisa de responder a e-mails nos horários mais inconvenientes, não fiquei totalmente surpreendida. Todavia, fiquei um pouco preocupada. Há provas acumuladas de que este relacionamento que temos com os nossos telefones não é nada bom para a saúde. Existem estudos que mostram que a super exposição à luz dos ecrãs dos aparelhos pode estar a prejudicar o nosso ritmo circadiano. E, mais preocupantes são as evidências de que isso pode estar a afectar as nossas mentes: um estudo de 2015 revelou que, quando as pessoas ficavam impossibilitadas de atender um iPhone que tocava enquanto elas resolviam palavras-cruzadas, sentiam-se ansiosas e incomodadas e a sua capacidade de resolver a actividade ficava comprometida. Em 2011, um outro estudo descobriu que o modo como a nossa memória funciona pode estar a mudar, já que agora temos o Google para nos apresentar imediatamente quaisquer informações de que precisemos (porquê memorizar qualquer coisa, quando podes procurar na internet?).

E um pequeno estudo da Universidade da Coreia do Sul, apresentado na Sociedade Radiológica da América do Norte, contudo, não avaliado pelos pares, observou o cérebro de 19 rapazes adolescentes diagnosticados com vício na Internet ou telemóvel e descobriu que os rapazes diagnosticados apresentavam níveis mais altos de GABA, um neurotransmissor inibitório do cérebro, que diminui os sinais cerebrais, semelhantes a controlos. Isto pode indicar que os objectos de estudo têm problemas em prestar atenção e manter a concentração, porém, são necessários mais estudos.

E será que um recurso do tipo “Não Perturbar” será suficiente? Como podemos fazer para usar os nossos telemóveis — e também desenvolver os telemóveis — de um modo que seja bom para o nosso cérebro?

Antes de, simplesmente, mandar o meu iPhone para o lixo, reconheço que existem algumas opções disponíveis para combater os efeitos negativos dos telemóveis. Há o Night Shift, que transforma a luz de LED azul num tom mais alaranjado à noite quando não há luz do sol e os recursos já mencionados para monitorizar o tempo de utilização das aplicações mais usadas.

E o nosso comportamento, em geral, também merece ser examinado: que generalizações podem ser feitas sobre o uso que fazemos dos nossos telemóveis? Earl Miller, professor de neurociência do Instituto Picower, no MIT, afirma que os smartphones forçam-nos a multitasking, ou a desenvolver multitarefas. Os nossos telemóveis estão constantemente a acender-se, mostrando-nos que temos e-mails, reposts no Twitter e mensagens dos amigos a avisar que vão chegar tarde - e essas notificações interrompem tudo o que estamos a fazer (o que, quase sempre, é algum tipo de trabalho).

Podemos armazenar uma vida inteira de informações no cérebro, mas elas ficam em segundo plano na nossa memória de longo prazo, para que possamos recorrer a ela. Não pensamos activa ou conscientemente sobre todo o conhecimento o tempo todo. Quando pensamos de modo consciente, Miller afirma que temos uma capacidade limitada da quantidade de coisas nas quais podemos pensar. “Os seres humanos só conseguem pensar numa coisa de cada vez”, afirma.

Espera lá, deves estar tu a dizer para ti mesmo, eu passo a vida a fazer multitasking. E sou realmente bom(a) nisso, juro (esta foi minha resposta). “As pessoas estão erradas sobre isso”, explica Miller. E justifica: “E, se há uma coisa na qual o cérebro é muito bom, é na capacidade de se iludir”.

Isto é importante, porque cada vez que o nosso cérebro alterna entre as tarefas, desacelera um pouco. “Precisa de voltar atrás”, afirma Miller. E sublinha: “Comete erros. Isso tem um impacto enorme na sua produtividade e por vários motivos. Em vez de passares todo o tempo de qualidade a pensar e a processar informações no cérebro, perdes tempo a alternar entre tarefas e a reconfigurar o teu cérebro”. Miller acredita que isso pode impactar a criatividade, porque o cérebro não dispõe de tempo para “serpentear” entre as memórias, fazer novas associações e brincar com ideias e conceitos novos.

De acordo com Miller, os nossos telemóveis estão a pedir que o cérebro faça multitasking a níveis que não somos capazes de acompanhar e isso afecta a nossa produtividade e a qualidade geral dos nossos pensamentos. Então, se o meu cérebro não consegue fazer multitasking, porque é que sou compelida a conseguir fazê-lo? Porque é que a nomofobia existe e porque é que fico tão ansiosa por ver uma notificação nova a aparecer no telemóvel ao meu lado?

Miller afirma que isso pode ser explicado pelo funcionamento do cérebro, que evoluiu ao longo de centenas de milhares de anos num ambiente completamente diferente, em que não havia muitas informações a serem processadas todos os dias. Se algo de novo entrava em cena, poderia tanto ser um predador como uma fonte de alimento, portanto "afiámos" o cérebro de forma a prestar a máxima atenção ao que é novo. Isso, juntamente com a nossa capacidade de pensar apenas numa coisa de cada vez, é uma receita muito má para a actual e diária interacção com os telemóveis. É por isso que, aparentemente, não podemos evitar olhar quando uma notificação nova chega, nem evitar procurar os nossos telemóveis quando estão longe.

“Estamos constantemente à procura, a verificar todas as fontes de informação ao nosso redor, em busca de dados novos, mesmo quando a maioria deles é irrelevante e inútil”, salienta Miller. E acrescenta: “Acontece que não conseguimos desligar a vontade do nosso cérebro de ansiar por estímulos, porque o nosso cérebro evoluiu de modo a ansiar pelas informações novas”. Eu e Miller conversámos sobre como o telemóvel poderia ser projectado de modo a diminuir essa busca, essa ânsia. Como evitar a nomofobia e ajudar o cérebro a desempenhar o seu melhor. Miller afirma que, a um nível muito básico, o telemóvel ideal forneceria menos informações: sem e-mails, sem mensagens de texto, sem Internet.

Como não há hipótese de que o próximo iPhone seja poupado de todos esses componentes, existem alguns telefones nos quais esses recursos já não estão disponíveis. O Galaxy J2 Pro da Samsung é um telefone “burrinho”, que não pode conectar-se à Internet nem descarregar aplicações. Testei um telefone projectado de forma minimal, chamado Light Phone, que apenas faz e recebe chamadas. O desejo de andar com ele por aí - um aparelho parecido com um cartão de crédito fininho - era também ele minimal. Deixei-o em casa e saí sem ele. Como não me dava nenhuma informação interessante, a minha vontade de ficar a olhar para a coisa dissipou-se (ao mesmo tempo, precisava de lidar com a ansiedade de quem sabe que está a perder algum e-mail importante, ou que o meu chefe pudesse estar à minha procura).

Ainda assim, Miller afirma que esse seria um grande conceito a ser introduzido nos nossos smartphones: que pudéssemos reaprender o facto de que não precisamos de estar sempre disponíveis se estivermos focados noutras coisas. “Deverias [ser capaz de] colocar o telemóvel em modo ‘burro’ por um longo período de tempo enquanto estás a trabalhar”, realça. Algo muito parecido com a função de Não Perturbar. Ou, se o teu telefone estiver vinculado a um wearable de actividade física, evitar aceder até que saias para uma caminhada de 10 minutos. “Não irias querer facilitar tanto regressar a ele”, justifica. Outro recurso pode ser permitir que o aparelho abra somente uma aplicação de cada vez e por um período de tempo mínimo ou máximo. Então, se estiveres a ver os teus e-mails, não poderás ser interrompido por outra aplicação - podes estar focado nos e-mails e colocar toda a tua atenção nisso.

Gloria Mark não acha que toda a toda a tecnologia seja má. Ela tem formação em psicologia, mas mudou para a área da tecnologia e, agora, trabalha no departamento de informática da Universidade Irvine da Califórnia. Mark cria o que ela chama de "laboratórios de vivência", onde as pessoas que utilizam tecnologia são monitorizadas como no mundo real e não dentro de um laboratório. Ela regista a actividade no computador e insere-lhes vários sensores para verificar como os níveis de stress coincidem com o que estão a fazer na Internet.

Sim, estamos constantemente colados aos nossos telefones, diz a especialista e isso é uma distracção. Um estudo recente da sua autoria confirmou muito do que Miller me contou: que estamos demasiado em modo “multitasking”. Ela descobriu que a média de tempo máximo que uma pessoa olha para o ecrã é de cerca de 40 segundos antes de mudar e olhar para outra aplicação ou janela.


Vê: "Como as selfies modificaram as nossas vidas"


Mark concorda com Miller no ponto em que, num mundo perfeito, ela gostaria que o seu telemóvel soubesse quando ela está focada em algo e desligasse as notificações até que tenha terminado o que está a fazer. Também acredita que o telefone devia permanecer desligado até que termines - sem que se pudesse ignorar alguns minutos depois. “Assim, aprenderia rapidamente que, se tentar aceder alguma coisa, isso não vai correr bem, por isso precisaria de reaprender o meu comportamento habitual”, afirma.

No entanto, ela também não tem muita certeza de que resolver um problema matemático seja a melhor forma de fazer log-in. A partir do seu trabalho, ela sabe que as pessoas andam muito stressadas e a matemática poderia piorar tal situação. Talvez um telemóvel perfeito não nos impeça nem nos previna de agirmos em “multitasking”, mas, quem sabe, nos possa ajudar a aliviar um pouco as causas do stress provocado pelo nosso mundo frenético.

“Isto pode só acontecer no futuro, mas, se o telefone através das suas câmaras puder observar as cores no meu rosto e determinar se estou stressada, ele também poderia dizer-me que é hora de descansar”, diz Mark. E acrescenta: “Podia dizer algo como, ‘Gloria, estás um pouco sobrecarregada, é hora de um intervalo, dá uma volta lá fora’”. Alguns wearables, como o Fitbit Ionic e o Apple Watch Series 3 estão a tentar incluir recursos deste género, através da capacidade de detectar a frequência cardíaca e orientar exercícios de respiração. Um auricular de ouvido wearable chamado Muse pode, inclusive, ajudar a manter a mente limpa por via de sensores de ECG no couro cabeludo, a fim de interpretar a tua actividade cerebral em tempo real. Quando estiveres calmo, ouves som ambiente calmo e, quando a tua mente divaga, o som ambiente será intensificado e “guia-te gentilmente de volta a um estado de calmaria”.

Contudo, Mark acredita que, de todas as coisas que nos distraem num telemóvel, algumas até são aceitáveis, já que também nos proporcionam formas de comunicar com outras pessoas. “Se estiveres muito stressado e o teu aparelho detecta isso, quem sabe também te possa ajudar a telefonar a alguém da tua rede de contactos com quem possas conversar”, justifica.

Nas poucas vezes em que usei o meu Light Phone, senti a falta de trocar mensagens com alguns dos meus amigos mais próximos que, por causa dos seus horários frenéticos, não consigo ver com tanta frequência quanto gostaria. Eu e a minha irmã (que é adolescente) comunicamos praticamente só por mensagens, em conversas extremamente divertidas sobre as calhandrices da escola dela e o último episódio de Riverdale.

Com sorte, ainda vamos descobrir novas formas de manter os aspectos positivos dos nossos telemóveis - as ligações pessoais, a capacidade de planear encontrares-te com as pessoas - enquanto lidamos com as más. Até que um iPhone com bloqueio para aliviar o stress não seja uma realidade, tentarei utilizar uma aplicação de cada vez para dar ao meu cérebro a oportunidade de funcionar da melhor maneira possível. Podemos tentar mudar a tecnologia para que ela sirva os nossos cérebros, porque o contrário não vai acontecer.

“A nossa capacidade limitada parece ser fundamental no modo como o cérebro funciona”, afirma Miller. E conclui: “Costumo ouvir das crianças da Geração Z: ‘somos melhores em multitasking, porque crescemos com todas essas coisas e estamos acostumados a isso’. Isso não é verdade. Trata-se de outra ilusão. Isso varia um pouco de pessoa para pessoa, mas toda a gente tem uma limitação na sua capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo”.


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