Ilustração de um homem andando na direção contrária de uma placa que diz "sexo"
Sexo

Os millennials que estão abraçando uma vida sem sexo

Assim como outras pessoas jovens, sou um homem de 29 anos que aceitou voluntariamente o celibato.
TS
ilustração por Thomas Slater
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
MS
Traduzido por Marina Schnoor
15.2.19

Quando foi a última vez que você fez sexo? Uma pergunta delicada, sim, mas que você provavelmente vai conseguir responder em segundos. Hoje de manhã? Sexta passada? Talvez quase um mês atrás? Faz tanto tempo que você já nem lembra? E se a decisão de renunciar ao sexo foi totalmente voluntária?

Bem-vindo ao mundo dos millennials celibatários.

E, mais pertinente, bem-vindo ao meu mundo: sou um homem de 29 anos que decidiu voluntariamente aceitar o celibato. Sei que para você, a palavra “celibato” provavelmente conjura imagens de monges tímidos, virgens raivosos do Reddit ou aquele tipo bem específico de suburbano que usa sandália que você costuma ver nos cafés do centro, olhando estranhamente para o aquário e lendo uma edição velha de revista. A ideia de ser um millennial celibatário voluntário – especialmente um agnóstico – para muitos é incompreensivelmente triste. Mas eu diria que não é uma realidade tão distante assim de você.

Anos atrás, meu último relacionamento romântico perdeu o gás do jeito que essas coisas costumam acontecer. Duas pessoas tristes e estressadas que só podem fazer a outra feliz por um certo tempo, e a menos que vocês sejam equipados com aquele mojo que acorda a vizinhança quase toda noite, sexo é uma das primeiras coisas que desaparece.

À noite, na frente do brilho da tela do notebook, vocês silenciosamente se separam do abraço e viram cada um pro seu lado da cama. Pela manhã, um de vocês vai tomar banho enquanto o outro lê e-mails, começando o dia já no limite, transformando a vida em algo que parece incontrolável e sem volta. E aí vocês trocam.

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Acabamos terminando. Ela se mudou, depois eu me mudei e aí nós dois tentamos seguir em frente.

Por muito tempo depois, fiquei imaginando se o desejo – uma palavra que nunca apliquei a mim mesmo com nenhuma seriedade antes – bateria na minha porta de novo. No começo, isso me encheu de uma sensação tensa de preocupação. Mas aí me vi começando a abraçar isso. Percebi que, depois de alguns meses do que pareceu uma abstinência imposta externamente, fora do contexto de um relacionamento, sexo não era uma parte importante da minha vida.

Seja lá quanto esteja transando, você com certeza percebeu que estamos vivendo uma mudança sísmica em como amor, sexo e relacionamentos funcionam. Os dates – que deveriam ser divertidos, lembre-se – cada vez mais não são. Os aplicativos sempre presentes que abrimos no ônibus ou no banheiro do bar nos empurram para trocas de mensagens vazias, constantemente nos estimulando a criar versões mais interessantes de nós mesmos para oferecer no mercado romântico. Encontros se tornaram um trabalho, e nossos perfis no Tinder, Grindr e Hinge viraram nossos CVs, fotos que publicamos online enquanto tentamos negociar digitalmente nosso caminho para fechar um negócio que só vagamente lembra intimidade humana de verdade. Há metas de produtividade para cumprir, encontros para combinar, uma papelada infinita e relatórios para serem entregues nos grupos de fofoca do Zap.

Encontros românticos – que, afinal de contas, é como a maioria das pessoas chega ao sexo – param de ser divertidos, na verdade se tornando uma fonte de ansiedade extrema, aí o próprio desejo é sobrecarregado por um sentimento similar de tensão paralisadora. Enquanto o desejo se torna uma fonte de ansiedade, gradualmente, a mera ideia do desejo, ou de ser desejado, também acaba nisso. Logo, o sexo em si deixa de ser uma opção atraente.

Todo mundo sabe que os millennials supostamente estão fazendo menos sexo do que qualquer outra geração da história – mesmo seu tátara, tátara, tátara, tataravô, que vivia numa cabana de pau-a-pique no meio do nada, via mais ação que você. E todo mundo sabe que a ansiedade, o flagelo da condição moderna, tem um papel cada vez maior nisso.

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A ansiedade é, acho, a principal razão para me ver aos 29 anos alegremente abandonando a luta com o desejo e ser desejado. Luxúria e amor não parecem mais conforto e escapismo para mim. Em vez disso, parece que essas coisas estão cedendo, como tudo mais, à onda de neuroses transacionais que constituem a vida na era digital.

Jack é um modelo de 26 anos que atualmente mora em Londres. Logo depois do Natal do ano passado, ele fez um juramento de celibato voluntário, apesar dos motivos dele serem um tanto diferentes dos meus. “Recentemente sofri uma série de decepções amorosas e fiquei devastado por causa de um homem com quem tive uma transa incrível – fazer sexo medíocre ou até adequado com outras pessoas depois disso não tornava a dor dessa perda menos aparente”, ele me conta. “Senti que estava me agarrando desesperadamente em alguma coisa, então decidi deletar todos os aplicativos e não fazer sexo por pelo menos um mês.”

O que começou como um experimento gradualmente se tornou algo continuado indefinidamente. Quando pergunto se ele considera isso um sucesso, Jack faz que sim com a cabeça e diz “Muito – aprendi que em vez de tentar satisfazer essa necessidade terrível de sexo e intimidade, eu podia diminuir isso, reduzir até um nível tolerável, e até prazeroso, de anseio”. O resultado, diz Jack, é que agora ela passa mais tempo com amigos, ou sozinho na academia. Não que entrar voluntariamente num período de abstinência resulta automaticamente numa diminuição total – ou mesmo parcial – do desejo. “Só voltei a assistir pornô e me masturbar muito”, admite. “E tudo bem! É o suficiente.”

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Outra amiga, Monica, uma executiva de marketing que mora e trabalha em Manchester, atualmente está num programa de reabilitação de 12 passos. Parte desse programa envolve uma decisão de se abster de relacionamentos íntimos do tipo sexual e romântico. Pergunto se ela sente que o conceito de “celibato voluntário” é válido – como aparelho linguístico usado para descrever uma seca sexual, como Jack usa, e como uma escolha de estilo de vida, como eu uso o termo. “Tem pessoas que se identificam como celibatários voluntários e se beneficiam de escolher não se envolver em atividade sexual”, ela diz. “Mas às vezes me pego imaginando se isso não é um jeito de evitar intimidade e todos os pensamentos, cenários e vulnerabilidade indutores de ansiedade que vêm com isso.”

Isso é algo em que eu, e sem dúvida outros celibatários jovens, pensam muito. Amigos com frequência, e por bons motivos, questionam quanto realmente quero ser celibatário, e quanto decidi aproveitar uma variedade de medos (medo da rejeição, medo do fracasso, medo de simplesmente não ser bom de cama e não saber como lidar com isso) num papel facilmente adotável, perfeito para desculpar o fato de que meus esforços para me reintegrar à comunidade romântica e sexual são praticamente inexistentes.

Não é só uma desculpa?, perguntam os amigos. Um jeito de mascarar ansiedade cercando o sexo e o que significa gostar de sexo, querer sexo, pensar em sexo e ser considerado por outros no contexto sexual?

Bom, sim e não. Claro, algumas noites (ou manhãs, geralmente, sendo honesto, manhãs onde acordo de ressaca e percebo que na noite passada eu estava cercado de casais e agora estou sozinho, só com um livro e um celular do meu lado; as manhãs onde me arrasto até o centro recreativo no fim da rua e sento da sauna com outros homens tristes e perdidos, homens que não gostam dos fatos de suas vidas nem da textura da vida, homens que sentam com os punhos fechados e a cabeça baixa) quando sou obrigado a considerar quão voluntária minha decisão de sair do mundo do sexo realmente é.

Sinto falta da intimidade, isso é inegável, e sinto falta de uma proximidade essencial que só o sexo com alguém que você realmente ama é capaz de oferecer. Mas não sinto falta o suficiente dessas coisas para me obrigar a renegociar meu relacionamento com como as coisas funcionam no presente. Fundamentalmente, e talvez estranhamente para alguns, não sinto falta do sexo em si mais do que sinto falta da chance de negar à vida outro jeito de inundar minhas redes neurais com ansiedade e um senso de fracasso.

Então, enquanto você provavelmente está alegremente descabelando o palhaço, me permita ter o melhor desses dois mundos.

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