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Drogas

Como é participar num torneio de curling canábico

"Bongspiel" é a cena mais canadiana que possas imaginar.

Por Manisha Krishnan; Traduzido por Marina Schnoor
11 Abril 2019, 2:50pm

Screenshot via VICE.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Já escrevi muito sobre o facto de, às vezes, me sentir deslocada no Canadá e também sobre mergulhar de cabeça no consumo de erva numa tentativa de remediar esse sentimento. Não curto céu aberto, portanto juntei-me a uma comuna na floresta tropical; odeio casas-de-banho portáteis e acampar, portanto fui experimentar as vicissitudes de um festival de música; fui a um concerto dos Nickelback e converti-me.

A minha última aventura “canadiana de raiz” foi participar num “bongspiel”, ou seja, um torneio de curling dedicado ao tema canábis, realizado em Wiarton, Ontário – uma cidadezinha de cerca de dois mil habitantes –, em pleno Inverno. Wiarton, para os não-iniciados (como eu) é famosa pelo Wiarton Willy, uma marmota que faz a sua cena especial no Dia da Marmota, numa cerimónia anual que, aparentemente, é o grande orgulho da cidade. Honestamente, eu nem acreditava que as marmotas eram reais até visitar a cidade.

A minha experiência com curling limita-se a uma vez, em 2010, em que participei numa dinâmica de grupo quando trabalhava para um jornal comunitário em North Vancouver, Colúmbia Britânica. Tiraram umas fotos minhas com uma cara muito séria e feia, a usar um barrete gigante e ridículo, enquanto alinhava uma pedra (ainda não controlo muito as mecânicas do curling).

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A primeira vez que joguei curling. Foto cortesia da autora.

Sempre achei o curling meio chato – não muito diferente do próprio Canadá. Talvez por isso não seja surpreendente que o desporto seja uma fonte de orgulho nacional, algo que dominamos nas Olimpíadas de Inverno. Outra coisa muito canadiana no curling é que anda de mãos dadas com... copos – uma equipa canadiana medalhada foi expulsa de um bonspiel em Red Deer, Alberta, no Outono passado, por partirem tacos e por se portarem mal em geral, porque estavam todos mamados.



Portanto, não sabia exactamente o que esperar deste torneio. No início não estava com muita vontade de ir e tinha dúvidas se o evento não seria só mais um golpe publicitário a tentar capitalizar sobre a legalização da erva.

Ainda assim, achámos que podia valer um bom vídeo (espreita acima), portanto enchemos uma SUV e quase que morremos a conduzir três horas de Toronto até Wiarton durante um nevão. Estava tanto frio que quando chegámos ao nosso motel, a água da retrete do quarto de um dos produtores tinha congelado.

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Água do autoclismo congelada. Foto por Taylor Rivers.

Depois, fomos até ao Wiarton & District Curling Club onde encontrámos Ted Ratcliffe, de 38 anos, um dos organizadores do evento. Ratcliffe explicou-nos que um "Bongspiel" é só um bonspiel (torneio de curling), mas “canábico”.

No final de um bonspiel, a tradição é pagar bebidas às outras equipas, mas no caso do "Bongspiel", podes substituir o copo por um charro. Ou ambos. O evento começou às nove da manhã e durou o dia inteiro.

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Uma das muitas marmotas que vimos durante o fim-de-semana - esta está a segurar uma ganza. Foto por Taylor Rivers.

Chegámos lá na noite de sexta-feira, um dia antes do "Bongspiel" e que era também a noite de curling misto do clube. Havia montes de jovens e pessoas mais velhas, homens e mulheres, alguns pareciam meio reservados em relação a nós – ouvimos até alguém a referir-se à equipa como “fake news”, na brincadeira.

O presidente do clube, Gord Ironmonger, ficou encantado. Ele é aquele tio clássico canadiano de bigode que, secretamente, toda a gente sempre quis ter. Ironmonger conta-nos que o curling é a sua forma de continuar ligado aos filhos. Ele conversa sobre a vida deles enquanto conduz para e de volta ao ringue. Ironmonger não curte fumar, mas diz-nos que não vê problema nos bongspiels, desde que toda a gente siga as regras. “É um evento inovador”, salienta na sua voz calma e cantada que nunca varia de tom ou volume.

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O presidente do clube de curling de Wiarton, Gord Ironmonger, é um dos grandes. Screenshot via VICE

Tendo em conta que estávamos numa cidadezinha conservadora e que muitos praticantes do curling são mais velhos, pensei que os membros do clube não estariam muito receptivos ao "Bongspiel". Na verdade, Ironmonger avisou-nos que havia “muitos idosos a da cidade que não gostam de mudanças”. Aparentemente, a sua sogra é uma dessas pessoas e desaprova toda a ideia.

Estava à espera que aparecessem poucos idosos no dia do "Bongspiel". Mas, ao chegar ao recinto na manhã de sábado, vi que estava enganada. A geração mais velha de curlers estava lá, a trabalhar com a lista de convidados, a entregar termómetros grátis para cultivar canábis, a vender (e usar) t-shirts feitas para o "Bongspiel", a preparar sanduíches de salada de ovo e outros acepipes para as massas. A vibe era de missa de igreja, se a missa de igreja incluísse gente a fumar ganzas abertamente.

Como é proibido consumir canábis em centros recreativos, toda a gente tinha que ir para uma pequena barraca lá fora para fumar. E foi aí que encontrei a Shed Crew – baptizada com o nome do sítio favorito deles para apanhar mocas e beber: um barracão. Dylan McMullin, que estava a usar aqueles chapéus de rabo de guaxinim e Andy Elliot pareciam saídos do elenco de Fubar (imagino – já que nunca vi os filmes). Estou a falar de um sotaque canadiano pesado.

Não são curlers. Mas, são entusiastas da canábis.

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A equipa Shed Crew. Screenshot via VICE.

“É assim: curtimos erva, mas foi a comunidade do curling que abraçou a canábis primeiro, desde a legalização. Portanto, vamos lá jogar curling”, explica McMullin que, no entanto, admite que não participaria num concurso de soletrar, mesmo que os participantes fumassem erva.

Originalmente, planeava apenas observar, mas os tipos da Shed Crew, sendo também eles totalmente leigos no curling, convenceram-me a juntar-me à equipa. Senti que não ia atrapalhar toda a gente se jogasse mal, o que seguramente iria acontecer.

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O chapéu de rabo de guaxinim. Screenshot via VICE.

Os nossos adversários incluíam equipas como os Three Buds and a Spud, The Rolling Stoners, Stoned Cold Rocks e um grupo de gajos brancos de Brampton que se apelidavam de Curry Hard.

Eu e os outros jogadores da Shed Crew fumámos umas e avançámos para o ringue, que foi onde encontrei Doug. Ele também era da nossa equipa e um dos dois únicos jogadores decentes do grupo. Não parava de me dar ordens, mas de maneira simpática e engraçada. Não se considera um grande charrado, mas gosta de fumar. Muito.

A certo ponto, perguntou-me se eu queria ir lá fora fumar um vaporizador com ele. Recusei, porque estava a trabalhar, não é - e porque fico sempre na merda quando uso erva dessa forma. Doug parecia chocado com o conceito de poder comprar erva ao governo. “Cinquenta anos a comprar drogas nas ruas. A comprar erva que tinha que esconder de toda a gente. Agora, é uma indústria enorme”, reflecte.

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Bong. Screenshot via VICE
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Não lancei muito bem, não. Screenshot via VICE.

Quanto ao curling em si, tentei arremessar a pedra e dar a varridela algumas vezes, mas desisti depois de tropeçar numa pedra e cair, enquanto McMullin gritava comigo.

Ainda acabei a ficar com um dos bongs de prémio, que na verdade alguém me deu, porque disse que não precisava de um bong. É uma coisa comovente quando um completo estranho te dá o seu cachimbo novinho em folha. Foi outro gesto simpático de uma série de gestos simpáticos que recebi e testemunhei no fim-de-semana. Disse a mim mesma que não ia realmente usar o bong, mas para ser sincera uso-o todos os dias agora.

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Vim-me embora com um bong.

À conversa com o pessoal mais jovem que lá estava, descobri algumas coisas: as pessoas das cidades pequenas de Ontário adoram cultivar a própria erva, o curling constrói comunidades e os curlers são selvagens. O bar abriu às 11h00, mas toda a gente ainda estava de pé quando fomos embora por volta das 18h00.

O evento culminou com a apresentação da banda de McMullin, The Great Canadian Swampstompers e um baile com uma DJ que foi a única mulher não-branca que vi naquele final de semana. Por incrível que pareça, ninguém vomitou nem passou mal por misturar álcool e erva.

Às vezes as pessoas surpreendem-te.


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