Identidade

Passei uma semana com unhas iguais às da Rosalía

Como é que se limpa o rabo? E a cena da masturbação?

Por Pol Rodellar; Traduzido por Madalena Maltez
28 Março 2019, 6:39pm

Todas as fotografias por VICE.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Espanha.

Nunca fui o melhor exemplo do que ao longo da história da humanidade se tem entendido como uma "pessoa masculina". Nunca fui forte, choro à noite, sou baixo e magro e quando era pequeno gostava de vestir a roupa interior da minha mãe quando ela não estava em casa. Sim, é certo que vivemos tempos de mudança, em que os limites entre géneros estão cada vez mais difusos, mas é inquestionável que continuam a existir muitos preconceitos à volta dos conceitos "masculino" e "feminino".

Digo isto porque a semana passada deparei-me com a circunstância de ter que usar umas unhas de três centímetros de comprimento, coisa que me levou a repensar certas questões de género. Tudo começou como uma piada, um comentário engraçado na redação da VICE, "Eh pá e se eu andasse uma semana com umas unhas iguais às da Rosalía?".


Vê: "A YouTuber sérvia que consegue fazer-se desaparecer"


Isto não foi um comentário aleatório, porque a verdade é que, ultimamente, o tema unhas está bastante presente, tendo-se tornado popular através das grandes estrelas do trap e da música urbana nacionais e internacionais e consolidado graças ao activismo queer de figuras da socialite moderna espanhola, como King Jedet, Oto Vans, Milo Hammid ou Cariatydes, ou pela forma como todas essas festas de temática queer se estão a espalhar pelo território espanhol. É por isso que, certamente, já devem ter descoberto entre as vossas amizades alguém com as unhas compridas e decoradas com complementos exagerados [Nota do editor: lá como cá, o tema nails não passa despercebido a ninguém].

Invejoso de toda esta tendência e com a cabeça cheia de perguntas - do tipo "como é que esta gente limpa o rabo? ou "e o tema sexo, como é?" -, decidi pôr umas unhas bem compridas para 1) responder a todas estas perguntas e 2) colocar-me na pele de todos aqueles que diferem minimamente dos cânones genéricos binários tão estabelecidos para evidenciar os privilégios de que desfruto.

Debora Figueras

Contactei a Debora Figueras, que já trabalhou com a Rosalía, La Zowi e Cindy Kimberly - aquela miúda que foi perseguida pelo Justin Bieber -, para que me fizesse umas boas unhas em acrílico, com as quais teria de conviver durante uma semana. Pedi-lhe que as decorasse com um computador - ao fim e ao cabo passo a minha via à frentes desses artefactos, seja a escrever ou a tentar masturbar-me - e com alguma coisa relacionada com música, umas notas ou assim porque, foda-se, gosto de vídeos do Youtube que tenham um bom “(Full Album)” no título. Este foi o resultado:

Uñas Debora Figueras

A primeira sensação com as unhas foi de extrema insegurança, eram demasiado compridas e tinha a sensação de que podiam prender-se a qualquer coisa, fazer de alavanca e arrancar as minhas unhas reais muito facilmente, ou que durante a noite me ia esquecer que as tinha e fazer o movimento impulsivo de coçar a cara e, como são tão compridas, arrancar os olhos sem querer. Só problemas. É que as unhas estavam MUITO presas, era como ter algo estranho no meu corpo, algo invasivo que apenas estava ali para me matar. A normativa a tentar convencer-me de que isto era uma má ideia.

Apenas uns minutos depois de fazer as unhas, dei por mim a ser ultrapassado pelas circunstâncias: tinha que ir à casa-de-banho e não sabia como desapertar o botão das calças. É algo realmente complicado quando tens unhas de três centímetros e tive que pedir ajuda a um amigo para que mas desapertasse. Isso sim, ao mijar tive uma agradável surpresa, nunca tinha visto umas mãos com umas unhas tão compridas a segurar-me no pénis, coisa que, inevitavelmente, me levou a pensar que uma pessoa absolutamente erótica - uma actriz porno, uma dominatrix ou até a personagem vampira de Plan 9 from Outer Space - me estavam a segurar a pila, coisa que me excitou profundamente. Muito profundamente. Nunca antes umas unhas tão grandes se tinham aproximado tanto do meu pirilau e, apesar de serem as minhas próprias mãos, era uma maravilha. Enfim, a cruzada para recuperar a decência acabava de começar.

uñas en el metro

Durante a primeira viagem de metro senti-me incomodado. Notava que as pessoas olhavam para mim, viam as minhas unhas estranhas e imediatamente desviavam os olhos, como se a tentarem normalizar o assunto, como se não se passasse nada e fosse normal que um tipo como eu usasse umas unhas tão obscuras de três centímetros. Aqui somos todos muito queer e respeitadores, mas nessa tentativa de aceitação via uma certa hipocrisia, uma espécie de tolerância insultuosa. Que merda é essa da tolerância? Estavam a tolerar que eu use estas unhas? Estão a dar-me permissão? E se não ma dessem? Partiam-me a cara ou chamavam a polícia? Enfim, sempre odiei esta palavra, "tolerância".

Entre todas as pessoas com as quais me cruzava, as únicas que mostravam sem problemas a estranheza que sentiam quanto às minhas unhas eram as crianças. Essas criaturas incapazes de compreender as nuances do protocolo social não conseguiam evitar gritar para os seus progenitores "Olha as unhas!" e os pais, envergonhados, tentavam silenciá-los e emitir discursos morais de tolerância, diversidade e respeito.

Tarefas simples, como apertar os atacadores, vestir umas calças ou cozinhar tornaram-se profundamente complicadas. Com o passar dos dias, fui desenvolvendo uma certa resiliência e consegui empreender todas estas funções com êxito, mas sempre dedicando-lhes muito mais tempo do que lhes dedicava antes das unhas e, muitas vezes, recorrendo a novas técnicas para fazer acções antigas. Ir fazer um xixi, uma tarefa que posso fazer normalmente em menos de um minuto, passou a demorar cerca de três minutos e só a ideia desse esforço extra fez com que limitasse brutalmente as minhas idas à casa-de-banho. A preguiça e a falta de esforço levam sempre o corpo a limites imprevisíveis: cheguei a passar jornadas laborais inteiras sem mijar para evitar esse processo incómodo.

E bem, para o caso de se estarem a perguntar, o tema cagar - mais concretamente da higienização posterior à gestão fecal - não foi problema nenhum. Quando me estavam a instalar as unhas, não conseguia parar de pensar nesse momento concreto, imaginava que aceder ali - ao ânus - seria impossível. Era fácil pensar que estas extensões seriam um problema, sobretudo tendo em conta o afiadas que estavam, mas, curiosamente, não.

O meu primeiro encontro com essa situação resolveu-se sem nenhum tipo de demora ou acidente, coloquei a minha mão de forma instintiva de tal maneira que as unhas não me fizeram feridas nem se sujaram de matéria fecal. O truque, amigos, é o perfil da mão, a qual fica totalmente liberta e pode recolher toda essa auto-estrada necessária para pasteurizar o reto. Tema controlado.

Na hora de me alimentar também tive uns problemas. Cortar frutas e vegetais tornou-se muito complicado, alargando de forma exacerbada o tempo dedicado a preparar e a consumir a comida. Ainda assim, devo dizer, toda essa dificuldade valia a pena, porque com o tempo aprendi a desfrutar da minha nova estética.

Qualquer actividade, por mais folclórica que fosse, convertia-se numa experiência espetacular, cheia de luzes e fantasia. Porque - que diabos, vou ser sincero - sentia-me uma diva enquanto empreendia todas essas tarefas com as minhas novas unhas de acrílico desenhadas por Debora Figueras.

uñas en la cocina

Sentia-me a estrela do meu próprio programa de televisão, como se houvesse câmaras instaladas por toda a casa ou estivesse a viver uma vida de luxo e glamour realista. A panar o frango e a fritá-lo com essas unhas de sonho; um simples acto alcançava quotas de formosura e espectacularidade tremendamente elevadas.

E chegou o momento de me masturbar. Para muitos, um acto de prazer; para mim, um mero processo que utilizo para me desprender da minha própria testosterona, a fonte de todas as guerras e misérias da humanidade. Não tive nenhum problema na hora de sujeitar o meu membro, porque, como já é sabido, no imaginário pornográfico existem incontáveis vídeos de actrizes com unhas super compridas a baterem punhetas a homens.

Tal como tinha acontecido quando tinha ido à casa-de-banho, ver o meu pénis rodeado por essas unhas de lobo intensificou, de alguma forma, a minha fantasia sexual. Essas mãos - com essas unhas - não podiam ser minhas, ou seja, tinham que ser de outrém e um acto masturbatório é sempre melhor se levado a cabo por outra pessoa.

Este desdobramento existencial, sumado ao imaginário erótico associado a este tipo de unhas - as femme fatale, as estrelas do porno, as bruxas ou os seres lovecraftianos que habitam nas profundezas do oceano - concederam uma nova magnitude à habitual punheta. Durante essa semana desfrutei de umas boas sessões, mas não há dúvida de que, como com todo o exercício erótico, o tempo e o hábito acabariam por converter esta nova maravilha numa rotina cinzenta e carente de alma.

No trabalho custou-me bastante mais do que me tinha custado masturbar-me em casa - no fundo, isto é verdade para qualquer um. Como bem sabem, a minha tarefa diária consiste em escrever. Mais concretamente, escrever letras com um teclado para que apareçam num documento de Word. É assim que, pouco a pouco, se vão formando os artigos que vocês lêem - como este que estão a ler agora mesmo.

Bom, pois a questão é que estas unhas não permitiam que os meus dedos pudessem pulsar com precisão as teclas do teclado. Simplesmente não podia aceder-lhes, porque as unhas, que se apoiavam sobre outras teclas que não me interessavam, impediam que pudesse pressionar a letra desejada. Podia forçar e pressionar, mas o efeito alavanca fazia com que as unhas se levantassem um pouco e, para além disso, acabavam por carregar noutras teclas, gerando um texto ilegível.

Uma solução podia ser cravar as minhas unhas directamente em cima das teclas, mas elas escorregavam para os buracos inúteis e vazios do teclado, criando impactos bastante incómodos para os dedos, para além de ficarem presas, dificultando a escrita em geral. A única coisa que consegui fazer foi pegar num par de canetas, empunhá-las e usá-las como instrumento para tocar nas teclas.

Era um método lento, ruidoso e que distraía a minha mente do conteúdo do texto, mas era a única coisa que podia fazer. Passei cinco dias a escrever com canetas, a golpear o teclado, numa espécie de metáfora surrealista sobre o avanço tecnológicoe a caducidade real de todas as ferramentas analógicas.

Uñas y teclados

Durante um tempo voltei a escrever com canetas, apesar de indirectamente. Ainda assim, no fim da semana não pude evitar desesperar e exclamar: "Estou farto de escrever com palitos, quero voltar aos meus dedos!". O desejo era real, talvez o mais real que senti nestes últimos cinco anos - sem contar com aquela vez em que abracei a minha ex quando me devolveu os 50 euros que me devia há anos.

Ao longo da minha semana com unhas não senti qualquer medo verdadeiro ao andar sozinho na rua de noite, mas não pude deixar de pensar que, caraças, havia a possibilidade de dar de caras com uns gajos loucos que podiam começar a gritar-me e a quem lhes podia passar pela cabeça dar-me um soco em plena rua, pelo simples facto de porem em causa a minha masculinidade.

Não aconteceu nada disto, nem o mais pequeno atrito, mas pela minha cabeça corria essa possibilidade, a de poder apanhar só por ter umas unhas que faziam com que a minha aparência se afastasse minimamente do conceito de homem arcaico. Sim, sentia-me constantemente observado e devo dizer que, de cada vez que um desconhecido olhava para as unhas (no metro, na rua, no super...), não conseguia olhar para essa pessoa directamente nos olhos, como se sentisse algum tipo irracional de culpa, uma vergonha injustificada e lamentável.

Tirá-las foi um alívio. Pude finalmente voltar a fazer tudo com normalidade, as acções do dia-a-dia voltaram a demorar o pouco tempo que é suposto demorarem, já não era preciso reaprender a fazer as coisas que sempre tinha feito. A sensação de espectacularidade desapareceu da minha vida, assim como os olhares furtivos e esse medo estranho que às vezes me atravessava o cérebro.

De qualquer forma, nos últimos dias as unhas já não eram um complemento estranho em mim, já eram parte de mim e já as manejava sem medos, cravando-as em cartões e comida sem nenhum tipo de receio.

Ao terminar esta experiência, não pude deixar de pensar que tudo isto foi, para mim, uma situação excepcional, uma espécie de brincadeira, uma curiosidade para um artigo. Mas, ao fazê-lo, estaria a normalizar uma nova tendência (homens com unhas muito compridas) ou estaria, simplesmente, a parodiar e ridicularizar todo um colectivo? Isto passou-me muitas vezes pela cabeça e ainda tenho as minhas dúvidas, mas é verdade que senti na pele o incómodo de certos complementos exagerados e esse medo de que me partissem a cara só por sair um bocadinho fora dos limites desta sociedade podre.


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