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Drogas

As 10 histórias mais alucinantes contadas no julgamento de El Chapo

Fugir nu, comida envenenada e 20 toneladas de cocaína no fundo do mar são só um pequeno teaser.

Por Keegan Hamilton; Traduzido por Madalena Maltez
04 Fevereiro 2019, 5:11pm

Foto sem data de El Chapo com um homem não-identificado. (Foto fornecida pela Promotoria dos EUA)

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma VICE News.

Brooklyn, Nova Iorque - 35 dias e 56 testemunhas depois, o julgamento de Joaquín “El Chapo” Guzmán está perto do fim. Promotores federais de Brooklyn encerraram o caso na segunda-feira, 28 de Janeiro e a defesa fez o mesmo na terça, 29.

A única testemunha da defesa – que depôs menos de meia hora – foi um agente do FBI, que foi questionado sobre o facto de ter tomado notas durante uma entrevista com um chefe do tráfico colombiano que testemunhou contra El Chapo no começo do julgamento. Quanto ao próprio El Chapo, apesar dos rumores de que poderia vir a testemunhar, acabou por invocar ao juiz Brian Cogan o seu direito de permanecer em silêncio. “Señor juiz, eu e os meus advogados falámos sobre isto e eu vou reservar-me”, disse Chapo no único momento em que teve permissão de se dirigir ao tribunal durante o julgamento. “Reservar?”, perguntou Cogan. “Sim, não vou testemunhar”, respondeu Chapo.


Vê: "O legado de violência que Escobar deixou aos actuais cartéis criminosos (Parte 1)"


Um veredicto de culpado, que pode significar uma sentença de prisão perpétua obrigatória no caso de Chapo, parece certo. O governo obliterou, metodicamente, qualquer dúvida razoável sobre o status dele enquanto líder implacável de um “empreendimento criminoso” conhecido como Cartel de Sinaloa.

Chapo pode ter recusado a sua oportunidade de ter a última palavra, mas, mesmo sem o seu testemunho, o julgamento já foi praticamente um drama shakespeariano. Cada dia havia novos contos insanos de subornos, assassinatos e traições. A um nível de melodrama de novela mexicana, por exemplo quando Chapo e a esposa usaram blazers de veludo vermelho a combinar para mostrar solidariedade contra a amante dele, que ficou sentada no banco das testemunhas enquanto os promotores liam em voz alta as mensagens de texto picantes do chefe do narcotráfico.

Lucero Guadalupe Sanchez Lopez — Chapo's mistress. (Photo: U.S. Attorneys Office for the Eastern District of New York)
Lucero Guadalupe Sanchez Lopez — ex-amante de Chapo. (Foto fornecida pela Promotoria dos EUA.)

E houve até comédia, como quando, por um momento, a luz foi abaixo no tribunal, criando alguns segundos de tensão no escuro. Quando as luzes voltaram, um repórter veterano do tribunal de Nova Iorque gritou um “Ele desapareceu!”. Chapo, conhecido pelas suas fugas mirabolantes, continuava sentado na mesa da defesa, o que fez toda a gente rir - menos os guardas do tribunal, que olharam preocupados para a mesa e, sem dúvida, suspiraram de alívio ao vê-lo.

O verdadeiro espetáculo, claro, foi das testemunhas, particularmente de 13 “testemunhas cooperantes” que fizeram parte da organização de Chapo, mas mudaram de lado em troca de penas mais leves nos seus próprios casos. Aqui vão as 10 histórias mais bizarras do julgamento.

10) A Arepa Envenenada

Antes de ser um dos principais fornecedores de cocaína de El Chapo, o traficante Jorge Cifuentes era só um puto punk trancado numa prisão colombiana. Ele queria ascender aos altos escalões do Cartel de Medellín, portanto concordou em assassinar outro preso que tinha um conflito com o sócio de Pablo Escobar, José Gonzalo Rodríguez Gancha, aka El Mexicano.

Segundo Cifuentes, o cartel deu-lhe três métodos para realizar o ataque: uma faca, uma granada e cianeto. Escolheu colocar o veneno numa arepa na cozinha da prisão que chegou até ao prato do alvo. O plano correu mal, porque o tipo perdeu o apetite. Cifuentes acabou por desistir depois de tentar com a granada (nunca chegou a tentar usar a faca). Apesar do seu fracasso como assassino, Cifuentes chegou a ser responsável por enviar centenas de toneladas de cocaína para os EUA através do México.

9) A Caixa de Viagra

Num esforço para corroborar testemunhos entre os cooperadores, a promotoria pediu a várias testemunhas para descreverem o seu primeiro encontro com El Chapo. A maioria começava da mesma maneira: o convidado embarcava num velho Cessna de Culiacán, Sinaloa, para um esconderijo nas montanhas. Aterravam depois numa pista clandestina, que era bastante inclinada para desacelerar o avião. Parece uma experiência aflitiva mas, para Pedro Flores, o que aconteceu a seguir foi ainda mais assustador.

Flores e o seu irmão gémeo, Margarito, de Chicago, eram dois dos principais distribuidores de Chapo nos EUA. No caminho para a sua primeira reunião de negócios com Chapo, Pedro contou que passou por um homem nu e acorrentado num poste, provavelmente como tortura por ter irritado Chapo de alguma maneira. Pedro estava vestido como um "gringo" – de calções de ganga – e lembra-se que Chapo o recebeu com uma piada, perguntando-lhe porque “é que não tinha conseguido comprar o resto das calças”. Numa outra visita a Chapo, Pedro comprou-lhe um presente na brincadeira: “Uns calções de ganga e uma grande caixa de Viagra”. Flores riu por último uma vez mais quando se tornou informador da DEA e gravou Chapo a discutir uma compra de heroína.

8) O Acidente de Helicóptero na Quinta de Avestruzes

Jorge Cifuentes ficou tão abalado depois do seu voo no Cessna para as montanhas que disse a Chapo que lhe ia comprar um helicóptero novo, “para que ele pudesse voar de forma mais civilizada”. Cifuentes cumpriu a promessa, dando ao sócio um helicóptero de um milhão de dólares, próprio para manobras em espaços estreitos. O irmão de Cifuentes, Alex, encorajou Chapo a tirar aulas de pilotagem para poder fugir a voar no caso de um ataque surpresa.

Chopper
Foto de um helicóptero semelhante ao oferecido a El Chapo por Jorge Cifuentes. (Foto fornecida pela Promotoria dos EUA)

Chapo nunca aprendeu a pilotar, mas talvez se tenha arrependido: um dos pilotos do cartel caiu com o helicóptero ao tentar voar dentro de um hangar numa quinta de avestruzes nos arredores de Culiacán (não ficou claro se alguma avestruz se feriu no acidente). Cifuentes e Chapo, mais tarde, conspiraram para atirar o helicóptero de um penhasco como parte de uma fraude de seguro.

7) O Hacker Que Ajudou Chapo a Espiar a Esposa e as Amantes

Christian Rodriguez tinha apenas 21 anos quando foi contratado para ser o gajo de IT do Cartel de Sinaloa. Na época, segundo a defesa, Rodriguez já usava as suas habilidades de hacker para “invadir a rede de energia eléctrica dos EUA, só por diversão”. Criou uma rede criptografada de telemóveis para o cartel, depois tornou-se informador do FBI, permitindo que os federais acedessem A centenas de chamadas incriminatórias.

Rodriguez apresentou o spyware a Chapo, que instalou nos telemóveis da esposa e das amantes do chefe. Ele usava a tecnologia para rastrear-lhes os movimentos, ler as suas mensagens e activar o microfone remotamente para ouvir as conversas. Rodriguez tinha os seus próprios problemas amorosos na época que, juntamente com o stress do seu trabalho como informador, lhe provocaram um colapso nervoso. Passou por “eletroconvulsoterapia”, que lhe causou perda da memória de curto prazo, mas isso não prejudicou as suas memórias suficientemente para o impedir de testemunhar em tribunal.

6) As 20 Toneladas de Cocaína Afundadas

Witness
Juan Carlos Ramírez Abadía antes e depois das cirurgias plásticas. (Foto fornecida pela Promotoria os EUA.)

Juan Carlos Ramírez Abadía – mais conhecido como Chupeta – foi uma testemunha inesquecível. Líder do Cartel Norte del Valle da Colômbia, Chupeta fez tantas cirurgias plásticas durante o seu tempo como fugitivo, que agora parece um Nosferatu narco. Apesar da sua aparência medonha, foi um narrador incrível, particularmente quando chegou a hora de contar o que aconteceu a 20 toneladas de cocaína que se afundaram na costa mexicana.

Chupeta disse que o capitão mexicano do navio experimentou demasiada mercadoria e “começou a ver fantasmas” que pareciam navios da Guarda Costeira norte-americana e acabou por afundar o barco com toda a droga a bordo. Teve, no entanto, a lucidez de anotar as coordenadas do naufrágio, mas quando Chupeta e um dos sócios do Cartel de Sinaloa sobrevoaram o local, depararam-se com “nada para além de mar – só mar”. Mergulhadores do cartel encontraram o tesouro afundado depois de mais de um ano à procura e Chupeta mandou um químico colombiano para salvar a cocaína ensopada. Chupeta nunca mencionou o que aconteceu ao capitão, mas, provavelmente, acabou a "dormir" com os peixes.

5) Um Punhado de Terra

Miguel Angel Martinez foi o braço-direito de Chapo do final dos anos 80 até meio dos 90 e testemunhou sobre os dias de glória quando Chapo tinha uma frota de jactos particulares, casas na praia por todo o México e até um jardim zoológico particular, com um comboio que levava os convidados a ver tigres, leões, panteras e veados. Mas, Martinez – conhecido como El Gordo – acabou preso e Chapo suspeitava que ele se tivesse convertido em informador, por isso a amizade entre ambos acabou de forma dramática.

Depois de três tentativas de esfaqueamento, Martinez ficou sob custódia protectora numa prisão da Cidade do México. Numa manhã, ouviu uma banda a tocar a música “Un Puño de Tierra” sem parar. A letra diz ao ouvinte para aproveitar a vida, porque não se pode levar nada consigo quando se morre, nem um punhado de terra. Aparentemente, essa era uma das músicas favoritas de Chapo e usava-a para mandar uma mensagem. Quando a banda parou de tocar, um assassino atirou uma granada para a cela de Martinez. Ele protegeu-se da explosão ao esconder-se atrás da retrete. O advogado de Chapo foi, mais tarde, repreendido pelo juiz por publicar um tweet com um link para a música no YouTube, depois de Martinez ter terminado o seu testemunho.

4) O Suborno de 100 milhões de dólares

Alex Cifuentes tinha muitas histórias loucas do seu tempo como secretário pessoal de Chapo, como quando viveu com ele nas montanhas, ou o plano de mandar os Hell's Angels assassinarem alguém no Canadá, ou a vez em que Chapo disse a um produtor de cinema que o exército mexicano o tinha pendurado de cabeça para baixo de um helicóptero. Mas, a grande bomba foi a alegação de que Chapo pagou um suborno de 100 milhões de dólares ao ex-presidente mexicano Enrique Peña Nieto, em 2012.

Cifuentes testemunhou sobre ver fotos de “malas cheias de dinheiro” num avião que pertencia a um consultor político que trabalhou na campanha de 2012 de Peña Nieto. Disse também que o presidente inicialmente pediu 250 milhões de dólares a Chapo (um porta-voz do ex-presidente negou as alegações.) Cifuentes acusou ainda o ex-presidente Felipe Calderon de estar na folha de pagamentos de um cartel rival e o actual presidente, Andrés Manuel López Obrador, foi implicado quando documentos do tribunal revelaram a alegação de que um oficial da sua campanha fracassada de 2006 recebeu pagamentos de um cartel.

3) O Túnel de Fuga de 1,6 km com uma Mota Lá Dentro

A fuga de Chapo de uma prisão de segurança máxima perto da Cidade do México já era lendária antes do julgamento, mas a testemunha Dámaso Lópex ofereceu novos detalhes que a tornam ainda mais espetacular. Segundo López, o braço-direito de Chapo nos anos 2000, o túnel foi pensado pelos filhos de Chapo – com a ajuda crucial da sua esposa, Emma Coronel. Ela supostamente passava mensagens de Chapo depois de o visitar na prisão e pode ter contrabandeado um relógio com GPS, que López diz ter sido usado para traçar o caminho do túnel de 1.400 metros que ligava um barraco fora da prisão até ao ralo da casa-de-banho da cela de Chapo.

Quando chegou a hora de escapar, por volta das 21h30 de 11 de Julho de 2015, Chapo entrou no buraco e encontrou o cunhado à sua espera de mota, que estava montada em trilhos. Chapo foi transportado para um armazém próximo, onde o esperava um piloto para voar com ele até às montanhas. Estava de volta à sua cidade natal e deu uma festa com a família e sócios, uma semana depois. López disse que, depois de Chapo ter sido recapturado em 2016, pagou um suborno de dois milhões de dólares ao chefe do sistema prisional do México e estava a planear outro túnel antes de ser extraditado para o julgamento em Nova Iorque.

2) Fugir Nu

Uma testemunha disse que El Chapo tinha uma rede de alerta nos seus esconderijos nas montanhas de Sinaloa e, supostamente, ordenou que os seus vigias “ligassem cinco minutos antes do exército se aproximar e avisou: "Mesmo se estiver nu vou fugir”. E parece que não estava a brincar, apesar da sua fuga au naturel ter acontecido numa das suas casas seguras, em Culiacán.

A amante de Chapo, uma ex-política de Sinaloa chamada Lucero Sanchez, testemunhou que a porta reforçada lhe deu tempo suficiente, durante uma rusga de madrugada da DEA e soldados mexicanos, para activar um interruptor secreto na casa-de-banho, fazendo pistões hidráulicos levantarem a banheira e revelarem um túnel. Com a pressa, segundo Sanchez, Chapo não teve tempo para se vestir. Estava completamente nu enquanto fugia pelo túnel, que estava ligado ao sistema de esgotos. Já estive dentro daquele túnel e é bastante nojento, até mesmo se estiveres vestido.

Chapo deixou para trás provas da sua rede de casas seguras, incluindo um lança rockets, uma arma com as suas iniciais encrustadas em diamantes na coronha, mais de 2.800 tijolos de metanfetamina e um monte de bananas de plástico cheias de cocaína. Foi capturado alguns dias depois num hotel de praia com a esposa. O agente da DEA que orquestrou a rusga não especificou se Chapo foi apanhado com as calças na mão da segunda vez.

1) A Tortura

A maioria das descrições de assassinatos durante os primeiros dois meses e meio do julgamento de El Chapo não mencionavam sangue, mas a promotoria guardou os detalhes mais pesados para o grand finale. Isaias Valdez Rios, um ex-membro das forças especiais que se tornou um sicário de Chapo, foi a última testemunha chamada pelo governo. Valdez, conhecido pelo apelido Memín, descreveu a rotina de um assassinato de aluguer, que incluía detalhes fortes sobre como ele viu Chapo, pessoalmente, a torturar e a assassinar pelo menos três pessoas.

Memín contou como uma das vítimas, um membro do Cartel rival, Arellano-Felix, que foi queimado por todo o corpo com um ferro de engomar antes de cair nas mãos de Chapo. Chapo, alegadamente, manteve-o preso numa estrutura estilo galinheiro até que o cheiro a pele queimada se tornou insuportável, depois ordenou que os seus homens cavassem um buraco num cemitério próximo. Memín contou que Chapo começou a interrogar o homem, mas depois disparou sobre ele com uma pistola calibre 25 e enterrou-o enquanto ainda “lutava para respirar”.

Chapo's person handgun. (Photo: U.S. Attorneys Office for the Eastern District of New York)
A arma pessoal de Chapo. (Foto fornecida pela Promotoria dos EUA)

Num outro incidente, Memín contou que Chapo passou duas ou três horas a espancar dois membros capturados do cartel rival Los Zetas com um galho de árvore, até eles “parecerem bonecas de trapos”. Memín disse ainda que, depois, Chapo mandou os seus homens cavarem um grande buraco e fez uma fogueira. Chapo e outro sicário amarraram os Zetas atrás de quadriciclos e transportaram-nos para a fogueira. Memín recordou como Chapo “não disse muita coisa”, só carregou a arma e gritou “Chinga tu madre” antes de dar um tiro na cabeça dos Zetas. Segundo Mermín, os corpos foram atirados à fogueira e queimados até só restarem cinzas.


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