Publicidade
Ambiente

Este artigo sobre alterações climáticas é tão deprimente que está a mandar gente para a terapia

Em média, três pessoas lêem um artigo académico. Pelo menos 100 mil leram este – e muitas não estão a conseguir lidar.

Por Zing Tsjeng
07 Março 2019, 6:49pm

A autora com o artigo "Deep Adaptation". Foto: VICE.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

E se eu te disser que há um artigo académico sobre as alterações climáticas tão unicamente catastrófico que está a fazer com que pessoas procurem grupos de apoio e se sintam encorajadas a largar os empregos e a mudarem-se para zonas rurais? Boa notícia: este artigo existe. Chama-se “Deep Adaptation: A Map for Navegating Climate Tragedy”. Fui introduzida ao trabalho através de uma fonte improvável – um tipo que trabalhava em publicidade e despediu-se para se tornar activista ambiental a tempo inteiro. “Estamos fodidos”, disse-me. “As alterações climáticas vão-nos foder. Lembro-me de pensar, 'devo simplesmente aceitar o artigo e mudar-me para o interior da Escócia à espera do apocalipse?'”.

“Deep Adaptation” é diferente dos outros artigos académicos. Tem a linguagem (“estamos prestes a jogar à roleta russa com toda a humanidade e com duas balas na pistola”). Tem humor negro (“Estava só parcialmente a brincar quando questionei a razão pela qual estou a escrever este artigo”). Mas, principalmente, tem a conclusão triste que ele desenha sobre o futuro: é demasiado tarde para impedir as alterações climáticas de devastarem o nosso Mundo – e esse “colapso social induzido pelo clima agora é inevitável a curto prazo”.

Quão curto? Cerca de uma década.


Vê o primeiro episódio de "Jungletown"


O professor Jem Bendell, académico da University of Cumbria, no Reino Unido, escreveu o artigo depois de tirar um período sabático no final de 2017 para rever e entender as últimas descobertas científicas sobre o clima, “da forma certa – deixando de estar apenas em cima do muro a espreitar para o outro lado", como me explica ao telefone.

O que descobriu deixou-o apavorado. “A evidência diante de nós sugere que estamos a caminhar para níveis perturbadores e incontroláveis de alterações climáticas, que vão trazer fome, destruição, migração, doença e guerra”, escreve no artigo. E acrescenta: “As nossas normas de comportamento – o que chamamos de a nossa 'civilização' – também se vão degradar. Está na altura de ter em conta as implicações de estarmos hoje muito atrasados para evitar uma catástrofe ambiental global durante o nosso tempo de vida".

Até uma tonta como eu está familiarizada com as evidências apontadas por Bendell para provar o seu ponto. Basta que tenhas saído de casa durante a onda de calor que bateu recordes no ano passado [no Reino Unido] para reconhecer que 17 dos 18 anos mais quentes do Planeta ocorreram desde 2000. Cientistas acreditam que não tarda veremos um Ártico sem gelo, o que só vai acelerar o aquecimento global. Em 2017, até a Fox News relatou os alertas dos cientistas de que a sexta extinção em massa da Terra está a caminho.

Erik Buitenhuis, investigador sénior do Tyndall Centre for Climate Change Research, diz-me que as conclusões de Bendell podem parecer extremas, mas concorda com a avaliação geral do relatório. “Acho que o colapso social é mesmo inevitável”, salienta, apesar de acrescentar que “o processo provavelmente levará entre décadas a séculos”. Uma coisa importante, realça Buitenhuis, é perceber que os efeitos negativos das alterações climáticas já cá estão há algum tempo: “Mais deterioração gradual vai, provavelmente, causar um desastre dentro dos próximos 10 anos, que será tão grande que toda a gente vai concordar que o status quo está condenado”.

“O artigo de Jem é o mais bem pesquisado e apoiado por ciência climática relativamente mainstream”, diz, por sua vez, o professor Rupert Read, presidente do think-tank Green House e académico de filosofia da Universidade de East Anglia. E reforça: “Por isso, estou com ele nos fundamentos. Eu e também cada vez mais pessoas”.

Quando falei com Bendell, ele disse-me que acha que “Deep Adaptation” é mais um enquadramento ético e filosófico, do que uma profecia sobre o futuro do Planeta. “Quanto mais tempo nos recusarmos a falar sobre as alterações climáticas como algo que já está aqui e a perturbar o nosso modo de vida – porque não queremos pensar assim, porque é muito assustador ou pode desmotivar as pessoas – menos tempo teremos para reduzir os danos”, assegura.

O que quer ele dizer com danos? “Fome é o primeiro”, responde, apontando para a queda nas colheitas de grãos na Europa em 2018 devido a secas, que fez com que na União Europeia se colhessem menos seis milhões de toneladas de trigo. E acrescenta: “De momento, na comunidade científica, a coisa apropriada para dizer é que 2018 foi uma anomalia. Mas, olhando para o que está a acontecer nos últimos anos, não é uma anomalia. Há a possibilidade de que 2018 seja o cenário no melhor dos casos”. Na visão de Bendell, isto significa que os governos têm de começar a planear respostas de emergência para as alterações climáticas, incluindo cultivo e stock de alimentos.

No artigo ele mede ainda menos as palavras: “Quando digo fome, destruição, migração, doenças e guerras, quero dizer no teu próprio tempo de vida. Sem energia eléctrica, não tardará a que não haja água a sair da tua torneira. Vais depender dos vizinhos para ter comida e algum aquecimento. Vais ficar desnutrido. Não vais saber para onde ir. Vais ter medo de ser morto violentamente antes de morreres de fome”.

Então, devem as pessoas começar a construir bunkers e a comprar coletes à prova de balas? “Não há como evitar isto a menos que trabalhemos juntos”, diz. E justifica: “Temos de ajudar as pessoas a continuar alimentadas e hidratadas nos locais onde já habitam, para, no máximo que pudermos, tentar reduzir problemas e inquietação civil”. Sobre os financiadores de Silicon Valley que se estão a preparar para o apocalipse na Nova Zelândia, ele diz: “Quando o dinheiro deixar de importar e quando os guardas armados estiverem a tentar alimentar os seus filhos famintos, o que achas que eles vão fazer? Os multimilionários que estão a fazer isso estão iludidos”.



Bendell nem sempre foi tão pessimista sobre o estado do Mundo. Ele já trabalhou com a WWF, uma das maiores ONGs ambientais do Planeta e, em 2012, fundou o Institute For Leadership and Sustainability (IFLAS) na University of Cumbria. O Fórum Económico Mundial nomeou-o Jovem Líder Global pelo seu trabalho. Então, como é ele acabou a escrever um artigo que determina que a civilização – e a sustentabilidade ambiental como a entendemos actualmente – está condenada?

“Sou ambientalista desde os 15 anos de idade. Entreguei a minha vida a isto, profissional e pessoal. Sou um workaholic e era tudo uma questão de sustentabilidade”, explica. Mas, quando se sentou com os dados, percebeu que o seu campo estava rapidamente a tornar-se irrelevante perante a catástrofe climática que se aproxima. “Não fico empolgado com a expansão do programa de reciclagem de uma grande multinacional, por exemplo”, salienta. E garante: “Temos que olhar para um paradigma completamente diferente”.

O que ele não esperava era que o artigo se tornasse viral online. “Era algo voltado para as pessoas da minha comunidade profissional, porque estamos em negação. Quando coloquei o artigo na Internet não esperava que miúdos de 15 anos da Indonésia lessem o estudo aos seus professores na escola”, refere. Bendell diz que “Deep Adaptation” já foi descarregado mais de 110 mil vezes depois de divulgado pelo IFLAS. “Alguém numa discussão sobre economias alternativas e bitcoin disse-me 'ah, anda toda a gente a falar sobre Deep Adaptation nas festas de Londres'”, recorda entre risos.

Investigadores do Institute for Public Policy Research (IPPR), um think-tank com pergaminhos, consultaram o artigo de Bendell durante o processo de produção do seu próprio relatório. “This is crisis: Facing up to the age of environmental breakdown”. Laurie Laybourn-Langton, autora-chefe do estudo, diz-me por e-mail: “Apreciei a franqueza do artigo ao encarar as questões que tanta gente nas comunidades de investigação e políticas parece não querer admitir. Mas, não concordamos com a visão de que o colapso social é inevitável”.

Ela explica: “Parcialmente, porque é muito difícil prever os resultados do processo complexo e incerto de choques ambientais a interagirem com sistemas sociais e económicos. Simplesmente não sabemos. Dito isto, isso não deve ser ignorado como um resultado em potencial, portanto estamos a pedir níveis mais altos de preparação para esses choques".

1551200609387-JFC8HA
O efeito da seca nas vacas da Etiópia. Foto: TheImage / Alamy Stock Photo

Mas, nem toda a gente ficou tão abalado com o artigo. Bendell enviou-o a vários jornais académicos respeitados para publicação, com pouco sucesso. O Sustainability Accounting, Management and Policy Journal (SAMPJ) diz-me que o artigo precisa de “grandes revisões” antes de estar pronto para publicação. Bendell acabou por publicá-lo através do IFLAS e no seu blog. “O processo académico é tão complicado que considero essa posição do SAMPJ como uma rejeição”, explica, justificando que, fundamentalmente, os revisores querem que ele altere as suas conclusões. “Não posso reescrever completamente o artigo para dizer que não acho que o colapso é inevitável. Eles querem um artigo diferente”, assegura.

A Emerald, editora académica dona do SAMPJ, diz que o problema é a forma como Bendell enquadra a recepção do artigo no seu blog: “O estudo sobre o colapso que eles não querem que leias – ainda”. Um porta-voz da editora afirma: “A decisão foi baseada no mérito do artigo submetido e o processo de avaliação integral para a academia e o avanço do conhecimento. O SAMPJ, e [a editora Carol Adams] são membros orgulhosos do Committee on Publications Ethics (COPE) e aderem aos padrões éticos mais altos em publicação. Não vemos evidências de que a decisão dos revisores tenha sido politicamente motivada. A Emerald exigiu que o autor corrigisse o seu post no blog para reflectir os factos. Esse pedido infelizmente foi ignorado. O post continua a implicar que o artigo foi rejeitado por ser demasiado controverso. O artigo não foi rejeitado e foi alvo de uma revisão devido aos padrões rigorosos dos trabalhos académicos do jornal”.

Bendell, por sua vez, assegura que respondeu ao pedido da Emerald para corrigir o post – mas só se eles considerassem revelar-lhe as decisões daqueles que reviram o artigo (sob este tipo de revisão, as decisões dos revisores são anónimas.) “Aquele título pode ser lido de várias maneiras”, adianta, “este é um artigo que os revisores não querem que leias. Eles não queriam que fosse publicado”.

O pessimismo climático não é novidade – há décadas que os preppers do apocalipse guardam comida enlatada. Mas, o artigo de Bendell parece ter atingido um nervo único, especialmente tendo em conta que, segundo estimativas, um artigo científico médio é lido por apenas umas três pessoas. Rupert Read diz que o artigo lhe foi enviado simultaneamente por outros três académicos quando foi publicado. Mas, ainda não aparece nas tendências do Twitter. Não foi divulgado por uma celebridade. E foi apenas brevemente mencionado num artigo do Bloomberg Businessweek.

“Deep Adaptation” é um fenómeno social único: um artigo académico que viralizou através do boca a boca. Nathan Savelli, um life coach de 31 anos de Hamilton, no Canadá, recebeu a dica sobre o artigo de um ambientalista local. A leitura fez com que entrasse em depressão. “Acho que, de certa forma, senti-me como se tivesse sido diagnosticado com cancro”, revela. E justifica: “Para ser honesto, foi uma mistura de tristeza e raiva extremas”. Saveli ficou tão em baixo que procurou um grupo de apoio para enlutados do clima, organizado pela 350.org, um movimento de clima global de base. “Já tinha feito terapia por outras questões, mas nunca numa sessão em grupo e achei que poderia ser algo útil para mim”, sublinha. E ajudou mesmo? “Não acho que tenha aliviado o meu luto, mas foi muito reconfortante estar rodeado de pessoas que entendiam a maneira como eu me estava a sentir”.

E aí está o problema com “Deep Adaptation”: se aceitas que o artigo é inteiramente correcto nas suas previsões de colapso, como é que segues com a tua vida? Como é que te levantas da cama de manhã? “Estou consciente das emoções difíceis que o artigo desencadeia”, reconhece Bendell. E afirma: “Acredito que se te cruzas com o artigo, o luto e o desespero são consequências muito naturais. Porque é que isso não há-de ser normal? No final, vamos todos morrer. A vida não é permanente”. No seu blog, ele lista várias fontes de apoio psicológico, incluindo grupos no Facebook e LinkedIn que discutem o colapso e oferecem ajuda para quem está a sofrer para aceitar as conclusões do seu artigo.

Mas, Bendell acrescenta, ler o artigo foi “transformador” para alguns. “As pessoas encontram uma nova ousadia de viverem nos seus próprios termos – conectando-se realmente com os desejos do seu coração. E porque não viver assim em vez de andares a adiar?”.

Num caso em particular, o artigo ajudou mesmo a convencer uma académica a largar o trabalho e a sair da cidade. Em Dezembro de 2017, Alison Green deixou seu posto como vice-reitora da Arden University. Leu o relatório do IPCC a alertar para o facto de que o Mundo não está sequer perto de evitar os aumentos globais de temperatura, além do National Climate Assessment de 1.656 páginas sobre como as alterações climática já estão a afectar dramaticamente as nossas vidas – depois leu o artigo de Bendell.

Tudo isso colocou-a num caminho para uma mudança drástica de vida. “O meu desejo é sair da academia e da cidade. Digo às pessoas que estou a fugir para os montes”, explica-me ao telefone. E acrescenta: “O meu plano é comprar uma pequena propriedade e viver mais perto da Natureza”. Ler o artigo, garante, ajudou-a a cristalizar o seu crescente desconforto com o ritmo e a escala das alterações climáticas. “O que é realmente impressionante nesse artigo é que é um cientista social - não é um qualquer alarmista louco, é um professor de uma instituição estabelecida – que está a dizer que acredita que o colapso é inevitável. Isso teve um efeito profundo em mim”, conclui.

E ela não é a única. O próprio Bendell diz que ainda está a trabalhar na forma como conciliar o seu trabalho enquanto académico, com as suas conclusões sobre o estado do nosso futuro. “Acho que a razão para o meu artigo ter descolado é que talvez seja a primeira vez que um cientista social está a dizer estas coisas categoricamente. Parece que estamos em negação. É hora de quebrar esse tabu e ter uma conversa séria sobre o que vamos fazer agora”, remata.


@misszing

Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.