reportagem

Que homem anda com navalha no bolso? Elementar: um cavalheiro

Carlos Norte, responsável da oficina Lombo do Ferreiro, acredita que a classe da navalha define o cavalheiro, como no tempo em que nenhum homem saía de casa sem lenço e canivete no bolso.

Por Cláudio Garcia
04 Março 2019, 4:36pm

Cresceu na fábrica do pai, cercado pelo negócio da cutelaria. Licenciado em Engenharia Mecânica, Carlos Norte 
é filho, neto e bisneto de artesãos especializados em navalhas 
e facas de trabalho, na aldeia de Relvas, concelho de Caldas da Rainha. É lá que está instalada a oficina Lombo do Ferreiro, onde organiza workshops e recupera métodos manuais e tradicionais para produzir objectos únicos, com lâminas e cabos personalizados, que combinam os melhores aços com as madeiras mais nobres. Muitos deles inspirados em modelos portugueses cuja origem 
se perde no tempo. Foto por Ricardo Graça/Jornal de Leiria

Este artigo foi originalmente publicado no JORNAL DE LEIRIA e a sua partilha resulta de uma parceria com a VICE Portugal.

Carlos Norte acredita que a classe da navalha define o cavalheiro, como no tempo em que nenhum homem saía de casa sem lenço e canivete no bolso. A história do canivete português, conta ao JORNAL DE LEIRIA, é também a história de quem lhe deu uso: o escrivão, na lapela, com mecanismo para retirar o lacre das cartas; o canivete alentejano, de lâmina alta, para andar sempre afiado; a navalha bandido, que aparece num livro sobre o estripador de Lisboa como arma do crime; o canivete de marinheiro, sem bico, para não furar o bote, mas com acessório para desatar cordas.

Mesmo hoje, "quem tem um canivete safa-se melhor", garante o engenheiro mecânico, filho, neto e bisneto de artesãos da cutelaria, que se dedica à produção de navalhas, facas e espadas de autor por métodos manuais e tradicionais na oficina Lombo do Ferreiro, na aldeia de Relvas, freguesia de Santa Catarina e concelho de Caldas da Rainha, onde a família está instalada há várias gerações, sempre no mesmo ofício. Os clientes são chefs de cozinha, coleccionadores, caçadores e pessoas que estão preparadas para tudo. Até para o fim do Mundo. Segundo Carlos Norte, o canivete "voltou a usar-se como ferramenta essencial, se existir uma catástrofe" e está a regressar "a moda do gentleman".


Vê: "MMA com armaduras medievais e armas afiadas em Portugal"


A muitos apaixonados pela magia da forja, interessam as réplicas de armas antigas: a espada dos templários, a sax viking, a gladius romana, a adaga medieval para desferir o golpe de misericórdia no campo de batalha e a icónica falcata, de raiz céltica, provavelmente utilizada por Viriato para defender a Lusitânia da invasão romana, com ponto de equilíbrio muito à frente, lâmina curta, pesada, escultura de água ou cavalo no cabo, perfeita para a luta corpo a corpo. Todas estas já ganharam forma no ateliê de Carlos Norte, que vai buscar o nome, Lombo do Ferreiro, ao sítio arqueológico do período romano e Idade Média, no concelho de Alcobaça, que se julga ligado à actividade metalúrgica.

Na aldeia de Relvas não faltaram, até meados do século XX, artesãos da cutelaria: eram dezenas, cenário muito diferente do que se verifica hoje, tanto ali, como na freguesia vizinha da Benedita. "O artesanato praticamente morreu aqui, há um ou dois artesãos velhotes", explica Carlos Norte. E acrescenta: "Nesta zona que tem mil e tal pessoas a trabalhar em cutelaria, se calhar vais encontrar três ou quatro que sabem fazer uma faca do princípio ao fim".

Paradoxalmente, a cutelaria de autor tem cada vez mais procura e o mercado externo paga bem – centenas de euros – por modelos artesanais. O segredo está em elevar a arte ao detalhe da joalharia: os melhores aços, as madeiras mais nobres, os acabamentos mais originais, numa combinação de qualidade e durabilidade, com o objectivo de criar peças únicas, que espelham o carácter de quem as faz e de quem as compra. As origens da cutelaria nas freguesias de Santa Catarina e Benedita remontam pelo menos ao século XVIII e o cluster industrial na região é actualmente o quinto maior do sector na Europa, com índices de exportação superiores a 80 por cento.

Caneças, o mais português dos canivetes

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Canivete Caneças. Foto por Ricardo Graça/Jornal de Leiria

Corneto, relvas, cuchila, cabritera, bandido: todos canivetes típicos de Portugal, repetidos ao longo de séculos no calor da forja. Neste caso, o cliente é um coleccionador particular, português, actualmente a residir em Itália. Vai pagar 250 euros pelo canivete caneças produzido por métodos artesanais na oficina Lombo do Ferreiro (na foto acima) – lâmina em aço damasco, com 320 dobras, mola moldada a martelo e cabo em madeira de plátano estabilizada com resina.

O modelo caneças é considerado o mais português dos canivetes portugueses de bolso e é também um exemplo da tradição da cutelaria na aldeia de Relvas.

"Alguns historiadores dizem que o nome vem da forma, que era muito usada pelos romanos, na decoração", explica Carlos Norte.


Cláudio Garcia é jornalista do JORNAL DE LEIRIA.

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