As músicas mais poderosas e influentes de David Bowie

E algumas das maiores de todos os tempos.
14 January 2016, 8:00am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

O Thin White Duke morreu aos 69 anos e deixou-nos algumas das maiores músicas de todos os tempos. Alguns jornalistas e editores da VICE UK, VICE USA e das nossas plataformas Noisey, Thump e Broadly escolheram as suas favoritas e explicam porquê.

LET'S DANCE

"Let's Dance" não é necessariamente a minha música favorita de David Bowie (no entanto, acho que não é preciso dizer que é uma música do caraças), mas escolhi-a para recordá-lo, porque é a peça central de uma das suas grandes conquistas: a tour "Serious Moonlight". Com artistas como Bowie, cujo trabalho vai muito além da música e é dotado de tamanha visão, pensar em músicas individuais não é suficiente para se pensar realmente sobre o que ele estava a tentar fazer.

E enquanto a maioria das pessoas associa a grandeza de Bowie às criações de épocas relacionadas com as suas personagens mais andróginas, como Aladdin Sane e Ziggy Stardust, para mim o seu maior momento foi quando se tornou... David Bowie, o grande romântico. Foi por volta desse período, no começo dos anos 80, que Bowie finalmente se tornou uma estrela pop, ligeiramente mais velho, que cantava músicas de amor e usava fatos completos. Para mim, isso resume o seu trabalho e é, provavelmente, a coisa mais próxima do Bowie "verdadeiro".

Com o cabelo descolorado e os fatos zoot meio gastos, parecia um detective particular fashionista, a cantar sobre amores perdidos e luxúria em estádios esgotados e arenas de espectáculos internacionais. As calças eram óptimas, a dança era óptima e as músicas eram óptimas. A coisa mais cool, original, brilhante, honesta, estranha e sexy que vi na vida. Que é o que me entristece na morte de Bowie: o facto de que ser estranho, cool, sexy e original ainda seja, hoje, tão inviável como quando ele começou. Clive Martin, jornalista

ALWAYS CRASHING IN THE SAME CAR

Não sei se esta música é realmente sobre Bowie a bater com o carro repetidamente no seu traficante de cocaína, mas esse é, de facto, o mito à volta dela. Claro que o período de Berlim significa muito para todos nós. Foi uma época incrível, daquilo que me consigo lembrar. Alex Miller, director global de conteúdos

MODERN LOVE

Loving the Alien II

São tantas músicas. Tantos estilos. Quando tens um artista tão belo e brilhante como David Bowie, como é que podes escolher apenas uma? A melancolia de "Where Are We Now", a grandeza de "Heroes", o seu plano de vida em "Sweet Thing/Candidate/Sweet Thing (Reprise)": "We'll buy some drugs / and watch a band / and jump in the river holding hands".

Mas, escolho "Modern Love", porque combina uma observação cultural, com uma batida infecciosa e a voz inimitável de Bowie. E também tem outro plano de vida: "I know when to go out / and when to stay in / get things done". Ele sabia quando ir. Ele sabia quando ficar. Ele fez tanta coisa. – Oscar Rickett, jornalista

CHINA GIRL

Podia escrever aqui uns disparates sobre gostar de "China Girl" porque aborda o orientalismo de forma brilhante, ou porque o tele-disco tão anos 80 repete todos os estereótipos sobre os asiáticos (incluindo Bowie a fazer o número dos "olhos puxados"). Mas, honestamente? Quando era menina, rock e pop não eram feitos para pessoas como eu.

Era cantado sobre e para garotas brancas bonitinhas, com cabelos compridos e peitos avantajados. Adolescentes asiáticas queer esquisitas não eram as raparigas bonitas sobre as quais os rapazes cantavam. "China Girl" – e David Bowie em toda a sua glória ligeiramente bissexual – mostrou-me que podes ser as duas coisas. Zing Tseng, editora Broadly Reino Unido

MOONAGE DAYDREAM

"I'm the space invader / I'll be a rock and rollin' bitch for you". Existirão no mundo frases melhores que estas duas, do terceiro tema de "The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars", para condensar o conceito de um disco inteiro? Não.

A resposta é sempre não. Porque quando aquelas teclas delicadas de piano entram a dançar e Bowie grita sobre armas de raios e rostos espaciais e a guitarra de Mick Ronson corta tudo ao meio como uma motosserra numa floresta vazia, nesse momento – exactamente aos 30 segundos – não existe mais nada, só "Moonage Daydream". Joe Zadeh, editor Noisey Reino Unido

V-2 SCHNEIDER

Agora a sério, não sou só um idiota da VICE a tentar desesperadamente hastear a bandeira do "sou mais cool que tu" depois da morte de um dos ícones culturais mais importantes que esta pequena ilha de merda já produziu. A minha favorita de David Bowie é realmente essa música estranha, difícil, chorosa e cheia de zumbidos, "V-2 Schneider", de "Heroes".

Mesmo que a voz de Bowie quase não apareça, fora as entoações do título e gritos. "V-2 Schneider" parece, bom, um V-2 a descolar, o que significa que se parece um bocado com "Here Come the Warm Jets", de Brian Eno, que, basicamente, é a melhor música da história. É uma explosão propulsora que ainda, 38 anos depois, soa como tudo o que pensavas que o futuro seria. Ah, e aquele sax! Aquele sax indecente, lascivo e francamente sujo, cortesia do próprio Bowie. É um testemunho alienígena da genialidade alienígena do gajo. – Josh Baines, editor Thump Reino Unido

WHERE ARE WE NOW?

Algumas melodias são criadas, outras são descobertas, e David Bowie tinha um dom sobrenatural para este último género. Não há melhor exemplo disso, para mim, que "Where Are We Now?", de 2013. Uma música que soava estranhamente como se existisse desde sempre, tanto em tom como em sentimento. Apesar de "Lazarus" e muitos outros momentos do disco mais recente oferecerem, provavelmente, muito mais na forma de comoção óbvia, a meu ver, "Where Are We Now?" é um testemunho muito mais triste.

A letra, especialmente as referências aos dias em Berlim, são uma lembrança estranhamente enlutada dos anos de revolução que ele ajudou a moldar. No geral, com o simples emparelhamento "As long as there's me / As long as there's you", evocou uma ideia que ainda me faz sentir muito triste quando a ouço nos momentos certos. Que todo o tempo que passamos a olhar para as glórias do passado não faz sentido se o fazemos sozinhos. Angus Harrison, redacção Thump Reino Unido

MAGIC DANCE

O legado de Bowie é ricamente diverso, sobrenatural e incomparável, mas para mim ficou cristalizado na minha primeira impressão visual do artista: salmonete arrepiado, sombra cintilante, calça colada com o volume saliente. Esse pantomineiro Jareth, o Rei Goblin, um sorriso maléfico para os seus comparsas fantoches, que corriam à volta dos seus tornozelos em botas de pirata.

"Magic Dance" é uma música perversa para ter como favorita – meio bimba, ridícula e ancorada naquelas facadas de sintetizador que, agora, parecem fantasticamente datadas. Claro, há várias outras músicas mais emocionantes e definidoras, mas esse é o Bowie mais brincalhão, uma música e uma dança cheia de alegria, firmemente irónica.

E que ponto de partida incrível para tantas crianças que viram "The Labyrinth" em VHS. É Bowie como ele sempre foi: a fazer exactamente o que queria e a surpreender-nos a cada passo. Kim Taylor-Bennett, editora e produtora Noisey EUA

ROCK 'N' ROLL SUICIDE

Podia repetir a clássica lenga-lenga do jornalista musical sobre como esta música é o momento em que Bowie transformou Ziggy Stardust num cliché do rock 'n' roll, e o que isso significa... Mas adoro-a, porque é a banda sonora de todas as manhãs depois da cada grande noite da minha vida.

É uma música que fala sobre fragilidade depois do excesso, quando estás de ressaca, falida, perdida e perguntas a ti própria porque é que o fazes e se valerá mesmo a pena. Aquele momento quando, de repente, percebes que não és imortal. Ou, nas palavras do grande homem: "Time takes a cigarette, puts it in your mouth". Jenny Stevens, editora geral VICE Reino Unido

HEROES

"Heroes" é uma escolha óbvia, e isso porque é, inegavelmente, a maior música de Bowie. Dentro das suas paredes glamorosas há um acumulado imortal de algo dourado, a ferver, algo que todas as grandes músicas tentam alcançar: uma sensação de possibilidade total e absolutamente selvagem. É como se o amor da minha vida estivesse ali na esquina e se ao virar essa esquina caíssemos nos braços um do outro.

"Heroes" faz-me sentir vivo, enche-me de promessas. Faz-me ansiar por momentos que ainda não vivi e reviver carinhosamente os que já passei. É uma destilação da beleza da vida, que toca as cordas do coração. Aquelas que unem momentos breves demais na nossa jornada sem fim para entendermos o que significa, afinal, ser humano. Obrigado por esse sentimento, Bowie. Ryan Bassil, redacção Noisey Reino Unido


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