Onde Vão Parar as Antiguidades Saqueadas pelo Estado Islâmico?
Alguns dos "objetos culturais em risco" sírios, de acordo com a Lista Vermelha do Conselho internacional de Museus.

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Onde Vão Parar as Antiguidades Saqueadas pelo Estado Islâmico?

É bem provável que o destino seja o porão de alguém. Por muito tempo.

O Estado Islâmico (ou ISIS, na sigla mais popular) está lucrando milhões com a venda de antiguidades saqueadas na Síria.

A situação ficou tão feia este mês que as Nações Unidas alertaram que o grupo jihadista está destruindo e saqueando patrimônio cultural "em escala industrial". Algumas semanas atrás, o FBI chegou a enviar memorandos a museus e vendedores de antiguidades dos Estados Unidos para "impedir o comércio de artefatos roubados e saqueados da Síria e Iraque".

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Esses terríveis lembretes fazem parecer que os objetos roubados cairão direto nas casas de leilões ou na loja de antiguidades da vizinhança. Não é bem assim. Os especialistas sabem por causa de experiências prévias – do Khmer Vermelho à Alemanha nazista – que os tesouros podem levar décadas para ressurgirem do mercado negro internacional. Se é que reaparecerão um dia.

"É cedo demais para essas antiguidades chegarem ao público em casas de leilão", afirma Lynda Albertson, diretora da Associação para Pesquisa em Crimes Contra a Arte, a ARCA.

"Não passou tempo o bastante para que esses itens possam ser vendidos na Christie's ou qualquer outra grande leiloeira."

"Creio que o mercado de arte ocidental lucrará muito mais com a venda e revenda de antiguidades ilícitas do que seus traficantes armados jamais ganhará."

A cadeia de suprimentos para objetos saqueados é variada. Depois dos itens serem retirados, contrabandistas os retiram do país e largam nas mãos de compradores privados, vendedores de antiguidades e colecionadores que podem ou não se importar com suas origens.

Os traficantes mudam suas rotas e métodos bem rápido para evitar a detecção, afirma Albertson. Os artigos viajam o mundo em porta-malas de carros, bolsos, contêineres e demais meios de transporte usados. O processo inclui declarações forjadas, suborno, documentos falsos e demais métodos que podem ser utilizados para tirar carga do país em conflito.

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Quase todos os países têm regras para estipular que tipos de objetos podem ser retirados legalmente. Acontece que, muitas vezes, tal papelada pode ser falsificada com facilidade. Além disso, quando os contrabandistas são pegos, a punição costuma ser das mais brandas. E por mais que alguns legisladores tenham anunciado medidas mais restritivas, ainda parece ser uma boa traficar estes objetos.

"Colecionadores e vendedores sabem que é quase impossível para as autoridades provarem que algo acaba de ser escavado, sem nenhum histórico prévio ou registro", afirma Lynda. "É isso que torna o apelo de comprar tudo 'novo' tão forte."

Os vendedores colocam suas mãos nos artefatos enquanto ainda estão "quentinhos", com planos para vendê-los assim que a atenção pública se volte para outra coisa. Aí os itens podem parar nos tais "mercados lícitos".

No Camboja, durante a guerra entre o governo e o Khmer Vermelho, milhares de itens foram pilhados de sítios históricos do país. Entre 1998 e 2005, por volta de 348 artefatos do Khmer foram vendidos na Sotheby's em Nova York por preços de até 27.000 dólares, de acordo com um relatório de Tess Davis, pesquisadora afiliada ao Centro Escocês de Pesquisa em Crime Justiça da Universidade de Glasgow.

"Creio que o mercado de arte ocidental lucrará muito mais com a venda e revenda de antiguidades ilícitas do que seus traficantes armados jamais ganhará", afirma Albertson.

Para ajudar a combater o problema, organizações como o Conselho Internacional de Museus cria "listas vermelhas" de antiguidades que museus e comerciantes devem ficar de olho. Uma lista para o Camboja foi criada em 2009 e existem outras para o Egito, Haiti, Colômbia, China, América Central e Peru e Afeganistão. Uma "lista emergencial" síria foi criada em 2013.

"Museus, casas de leilões, comerciantes de arte e colecionadores são encorajados a não adquirirem as peças sem terem pesquisado por completo suas origens e todas as documentações legais relevantes", alerta a lista.

Por mais que a lista seja útil, talvez perca a relevância pelos próximos anos ou décadas; os artefatos, por sua vez, seguem perdidos nas profundezas dos mercados negros, onde nem mesmo o melhor dos arqueólogos conseguiria escavá-los.

Tradução: Thiago "Índio" Silva