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Animais Preveem Terremotos Pela Mesma Razão que Cantamos no Banho

Pesquisadores afirmam que os humores dos animais mudam com a alteração de íons no ambiente. É tipo você no banho.
8.5.15
Humanos são as maiores vítimas de terremotos como o que aconteceu no fim de abril no Nepal. Crédito: Facebook/Kishor Rana

Ao contrário de furacões, tornados e tsunamis, terremotos não podem ser previstos. E, assim como esses eventos climáticos, tremores de terra carregam uma poderosa força catastrófica. A última vítima desse imprevisível fenômeno foi o Nepal. O país registra mais de 7,5 mil mortes causadas pelo abalo sísmico do fim de abril. Em vários vídeos da tragédia espalhados pela internet, pássaros em revoada surgem entre construções em queda. A cena tem ares de filme apocalíptico.

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O que não sabíamos até então é que o número de aves e outros animais no Nepal devia ser muito maior dias antes do terremoto. Isso porque, segundo um estudo recente, algumas espécies podem prever a catástrofe e debandar para outros lugares com quase um mês de antecedência. A razão disso também explica por que cantamos debaixo do chuveiro: nossos corpos e humores reagem às alterações de íons no ambiente.

"Nosso estudo confirma que os animais preveem e mudam de comportamento dias antes do seu terremoto", me disse o físico Jean Pierre Raulin, vinculado ao Centro de Rádio Astronomia e Astrofísica Mackenzie. Francês radicado no Brasil, ele é um dos autores da pesquisa publicada na revista Physics and Chemistry of the Earth. Segundo o estudo, o magma sob a placa tectônica libera uma quantidade elevada de partículas energizadas — os íons — quando as placas se movimentam. Nós, humanos, não nos damos conta dessa variação, mas alguns animais como faisões e antas reagem à alteração se dirigindo para lugares mais tranquilos.

O objeto de análise de Raulin foi a placa de Nazca, no Peru — país que sofre com constantes abalos sísmicos. Nazca está embaixo da placa continental Sul-Americana. O estresse entre placas dias antes de um terremoto cria uma emissão de partículas energizadas vindas do magma abaixo da crosta. Isso é chamado pelos pesquisadores de buraco positivo. Essa carga positiva, afirma o físico, migra para a superfície e ioniza as moléculas do ar. "A mudança nos animais acontece no nível do solo. Quando o buraco positivo sai do chão, ele produz íons negativos. Isso altera a produção de serotonina." Essa alteração modifica o ritmo circadiano de alguns seres vivos. Algumas espécies então perdem a hora do seu relógio biológico e, aflitos, migram para outro lugar.

"Essa mudança no comportamento era conhecida, mas muitas vezes a forma das observações influenciava os animais", explicou o cientista. "Os estudos com equipes de campo, por exemplo, espantavam os bichos por si só." Nesse seu trabalho, Raulin e seus colegas usaram câmeras camufladas em pontos elevados do Parque Nacional de Yanachaga, no Peru. A partir dos vídeos, os cientistas verificaram redução gradativa na presença de animais nos trinta dias que antecederam o terremoto que atingiu a região em 24 de agosto de 2011. Há uma semana do sismo, os roedores não aparecem uma vez sequer nas imagens. No dia do abalo, nenhum animal foi captado pelas câmeras.

Os cientistas acreditam que, nesses casos, os bichos se refugiam em regiões menos elevadas em uma busca inconsciente de menos íons — e mais calma, claro.

Embora não tenhamos o impulso inconsciente de fugir de cidades que terão terremotos, também somos afetados pelos princípios de diferenças elétricas. Corre nas páginas de curiosidades científicas que os íons criados pela água do chuveiro são uma das causas de cantarmos no chuveiro. A liberação de íons no banho, diz a teoria, nos deixa mais felizes. Jean Pierre acredita na tese. E lembra de outras alterações elétricas da atmosfera. "Os fótons do sol produzem distúrbios ionosféricos", diz ele enquanto me recordo de outros passarinhos desorientados.

Além das câmeras, os pesquisadores instalaram antenas de rádio na altura da ionosfera, que também captaram mudanças. "As cargas do buraco positivo atraem os elétrons e, então, modulam a altura da ionosfera", afirmou Jean Pierre. "Se a gente observar isso 15 dias antes de um terremoto, a gente pode supor que a produção acentuada de íons positivos pode ser devido a um aumento do estresse subterrâneo."

Reconhecendo que dessa maneira a previsão seria pouco assertiva, o cientista afirmou que pretende expandir o estudo para chegar, entre outras conclusões, em um método de prever terremotos. "Claramente a pesquisa vai ajudar nisso. Estamos fazendo medições na Argentina, no Brasil e no Peru. A nossa ideia é colocar essa instrumentação em lugares específicos, como uma falha tectônica. Se a tese estiver certa, teríamos uma previsão na ordem de 15 a 20 dias", disse ele.