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A Nação Digital Para Quem Está Puto por Morar com os Pais

“Cortar os laços é o primeiro passo para o sucesso”.
1.6.15
Crédito: Daniela Gilsanz

Assim como o trampo de graça para fazer portifólio, ser forçado a morar com os pais depois da faculdade faz parte da rotina de merda de muitos humanos da nossa geração. E, caso você se sinta constrangido por devorar a comida de seus progenitores enquanto curte a TV a cabo deles, você pode sempre voltar para o seu território, aquele lugar em que ninguém lhe julgará, uma terra ideal para o livre pensamento, a sua própria porção de terra dissidente: o seu quarto.

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Lah Lah Land é uma micronação que deseja agregar todos os jovens falidos que moram em um pequeno quarto sob o teto dos seus criadores. A exemplo do Liberland e o Reino de Enclava na Croácia, trata-se de um país inventado, composto de pouco mais que uma bandeira e um site. A peculiaridade da Lah Lah Land é não querer ser reconhecida como estado soberano. Sua única meta é trazer uma noção de unidade e cidadania aos recém-formados e desempregados que voltaram para debaixo da saia da mãe.

Leia também: Como a Internet Ajudou as Pessoas a Fundarem seus Próprios Países

"Participar desse país é um jeito de superar a vergonha e dizer que está tudo bem e que podemos superar isso", diz Daniela Gilsanz, que criou o Lah Lah Land e se refere a si mesma como "Princesa D". "Podemos encontrar todas essas pessoas, nos juntarmos a elas e dizer que elas não estão sozinhas, que há muitas pessoas na mesma situação'."

O objetivo da Lah Lah Land, de acordo com Gilsanz, é oferecer um pouco de dignidade às pessoas que trocam o orgulho por aluguel de graça. Eis como: solicitando a cidadania e imprimindo uma bandeira para ser grudada na porta do quarto. O slogan do país é "cortar os laços é o primeiro passo para o sucesso".

Gilsanz — quer dizer, ahm, Princesa D — acabou de se formar na Rhode Island School of Design e me falou que está prestes a voltar a morar com seus pais. A ideia dela pinta o bom e velho individualismo autossuficiente com um verniz brilhoso de startup do Vale do Silício e termina com um montão de autoajuda. Mas, em termos de micronações da internet, a Lah Lah Land não é assim tão nova: muitas das nações que estão aí há tempos, como o

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Aerican Empire

, fundada em 1987, começou dentro de um quarto de criança — mas com crianças de verdade dentro dele — e um website. Se as micronações são pequenas comunidades com seus próprios direitos, então a internet é a cola que

junta tudo isso

.

O vídeo de apresentação de Lah Lah Land

Apesar do otimismo empolgante de Gilsanz, é difícil negar que há algo bastante deprimente no que a iniciativa virou: reivindicações falsas e irreverentes de independência territorial, porque, sabe, a independência de verdade está longe de acontecer. Dados do censo norte-americano do ano passado indicam que pouco mais de 50% dos jovens de 18 a 24 anos e algo perto de 15% de indivíduos de 25 a 34 anos vivem na casa dos pais.

Os motivos são bastante discutidos, mas as dívidas esmagadoras são, por certo, um fator significativo. A coisa ficou tão ruim que alguns estudantes estão fazendo "greve da dívida" ou se recusando a pagar seus empréstimos a um sistema que parece tê-los enganado. Organizações como a Strike Debt (Greve da Dívida, em tradução livre), uma ramificação do Occupy Wall Street, surgiu para encorajar as pessoas a resistir aos credores e se recusar a pagar os empréstimos. A Strike Debt compra pacotes de dívidas anônimas dos bancos que as vendem por centavos de dólar e as revoga.

Tudo é uma merda

"Talvez seja menos deprimente do que imaginamos", Gilsanz afirmou quando perguntei a respeito do lado obscuro, o motivo pelo qual a Lah Lah Land existe. "Voltar a morar com os pais faz sentido, financeiramente falando. Sou de Nova York, então, para mim, é óbvio, porque não pago aluguel em um lugar nobre. Deveríamos fazer piada de nós mesmos em vez de dizer 'moro com meus pais, não me julgue!'."

A Lah Lah Land tem no momento sete cidadãos. Gilsanz conhece a maioria pessoalmente. É um número pequeno, mas é bastante incomum quando se trata de micronações — mesmo as antigas — que são, em geral, compostas de amigos e parentes de alguém e sediadas na internet.

Gilsanz me disse que espera que a Lah Lah Land tenha, um dia, muito mais cidadãos porque isso seria benéfico para sua missão pessoal de sair da casa dos pais. "Talvez eu até apareça em um cenário profissional", Gilsanz afirmou, "não é o objetivo final, mas estou interessada em marcas e comunidade, é para onde eu gostaria de ir".

Acho que isso é tudo a dizer: seja bem-vindo a 2015, o ano em que você pode participar de um país de mentirinha na internet para se sentir melhor por ter voltado a dormir no quarto em que você costumava fazer xixi na cama porque tudo é uma merda.

Tradução: Amanda Guizzo Zampieri