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Leilões de Virgens e Circuncisões de Emergência: Minha Vida como Jornalista Infiltrado

Antonio Salas, um pseudônimo, já viveu muitas vidas. O jornalista investigativo já se infiltrou entre torcedores de futebol neonazistas, círculos de tráfico humano e células jihadistas, e veio aqui dar um sinal de vida pra gente.
10.4.14

Este artigo foi publicado originalmente na VICE Portugal em fevereiro de 2013.

Antonio Salas já viveu muitas vidas. Para uma história sobre torcedores de futebol neonazistas, o jornalista investigativo se infiltrou num grupo de ultras de extrema-direita do Real Madrid, raspou a cabeça e foi a shows de bandas white power.

Depois disso, ele entrou disfarçado em um dos círculos de tráfico humano de Madrid, que leiloa virgens de 13 anos – experiência que foi uma das mais difíceis segundo ele, tanto física quando emocional. Mais recentemente, ele passou seis anos com várias células jihadistas para escrever El Palestino, seu livro sobre terrorismo islâmico, mas só depois de fazer uma circuncisão de emergência (no caso de acabar num banho público com os terroristas) e escrever o Corão inteiro em árabe.

Claro, “Antonio Salas” é um pseudônimo, porque as investigações que ele faz em geral envolvem o tipo de pessoa de quem você prefere manter distância. Mas não foi tão difícil entrar em contato com ele, então telefonei para Salas e conversamos sobre ele ser, talvez, o jornalista investigativo mais corajoso da atualidade.

VICE: Oi, Antonio, tudo bem?
Antonio Salas: Oi, Rui. Tudo bem; continuo vivo.

Resposta engraçada.
Nem um pouco. Recentemente, o Chino Carias, líder do Movimento Revolucionário Tupac Amaru, anunciou minha morte. A pior parte de ser um jornalista disfarçado é que você não pode aproveitar as coisas boas do sucesso. A melhor parte é que você continua vivo e continua investigando.

Você escreveu que quando estava infiltrado no movimento skinhead do Real Madrid, você se pegava se divertindo às vezes. Mas também houve momentos em que você queria dizer: “Olhem, sou um rato. Estou traindo vocês”.
Quando trabalho disfarçado, sou um deles. Vivo, durmo e como com o único propósito de investigar, 24 horas por dia, para entender os motivos das pessoas. E isso requer o desenvolvimento de laços emocionais com neonazistas e terroristas. Todos fazemos o que achamos certo. As pessoas que investigo também. Muitas vezes, é difícil lembrar que sou um jornalista disfarçado, não parte deles.

Isso também aconteceu quando você estava infiltrado no negócio de tráfico humano, certo?
Apesar de não ter sido a situação mais perigosa em que já estive, a investigação foi, de longe, a mais traumática e psicologicamente cara que já experimentei. Comecei a investigação com um punhado de clichês na cabeça e vi uma realidade muito mais difícil.

Quando você decidiu ganhar a vida assim?
Sempre pensei que ser médico ou motorista eram as melhores coisas que alguém podia ser. Não consigo imaginar um trabalho melhor. Mas sou muito rebelde e indisciplinado para essas coisas. Ser jornalista era minha terceira opção. Acredito que procurar pela verdade e mostrá-la, assim como ela é, é um jeito muito nobre de ganhar a vida.

Sua credibilidade é prejudicada porque as pessoas não sabem quem você é realmente? Como os jornalistas espanhóis te tratam?
Com algumas exceções, meus colegas me tratam com uma gentileza que não mereço. Quanto à credibilidade, eu entendo o ceticismo. Se um colega meu me dissesse que negociou virgens para prostituição em um restaurante de Madrid, eu também não acreditaria nele. Mas essa é a beleza das câmeras escondidas: você não precisa acreditar. É só assistir aos vídeos. Está tudo lá.

Por que você escolheu o nome “Antonio Salas”? Isso significa alguma coisa em particular?
Não há um significado especial. Antonio, ou Toni, é um nome comum na Espanha. É fácil de esquecer e quando você faz o que eu faço, é importante não atrair muita atenção. O nome Toni também é usado em outras línguas. Salas é um nome vulgar. Ele não se destaca.

Você pensa em revelar sua identidade um dia?
Não sei. Tenho que admitir que, às vezes, fico triste por não poder aceitar prêmios e convites para conferências. Eu adoraria autografar meus livros, como todo autor. Todo mundo tem uma certa vaidade em si. Mas o dia em que eu revelar quem sou, claro, vai ser meu último dia como jornalista investigativo. E acredito que o tipo de jornalismo que faço é útil para a sociedade, então, vou continuar fazendo isso pelo maior tempo possível. Não sou tão corajoso quanto Roberto Saviano, Günter Wallraff ou Hunter S. Thompson, mas sou mais ambicioso.

No começo de Diário de um Skin, você conta que a pessoa que te denunciou era um policial.
Foi terrível. Se não fosse por David Madrid, que me alertou que seu superior tinha me entregado para os Ultras Sur [torcedores hardcore do Real Madrid], naquela tarde eu teria ido ao estádio e, muito provavelmente, não estaríamos tendo esta conversa.

Infelizmente, no momento, a corrupção policial é mais real do que se vê nos filmes. A crise econômica e as restrições que todos estão enfrentando criam um caminho fácil para isso. Em algumas investigações, como uma sobre o crime organizado e aquela sobre o tráfico de mulheres, descobri que muitos policiais, advogados e juízes estavam envolvidos.

E no caso dos skinheads?
É diferente. Meus camaradas skinheads têm uma ideologia ligada à direita. Eles gostam de disciplina, uniformes. Eles são tradicionais, adoram a hierarquia militar e isso se encaixa no perfil do policial comum. Muitos skinheads com quem lidei eram filhos de policiais.

Interessante como você ainda os chama de “camaradas”. Eles ainda são seus camaradas?
A verdade é que foi muito difícil deixar o movimento. Se você não se integra completamente, você é descoberto, mas, se faz do jeito certo, você corre o risco de se tornar um deles. É por isso que espiões e policiais trabalham juntos; assim, há uma figura de controle que não deixa a outra pessoa se tornar o personagem que ela está interpretando. Mas eu trabalho sozinho. Quando publiquei Diário de um Skin, passei por uma espécie de síndrome de Estocolmo. Eu me senti mal por trair meus camaradas. Mas um amigo psicólogo me ajudou muito. Ele me explicou que, na verdade, eles não eram amigos do Antonio. Eles eram amigos do Tiger88; que era o personagem que eu estava interpretando. Ainda assim, todo “infiltrado” sente isso de forma intensa e sempre fica alguma cicatriz emocional.

Por último, como é sua vida pessoal? O que seus pais ou sua namorada acham do que você faz? Você é capaz de viver uma vida normal?
Trabalho arduamente para separar minha vida pessoal de meu trabalho. Meus pais vivem sob proteção da polícia desde o dia em que “negociei” mulheres. Minha mãe, em particular, lida um pouco mal com isso. Só alguns de meus amigos sabem quem eu realmente sou. A maioria deles não suspeita de nada. Às vezes, eles falam sobre Antonio Salas e os filmes baseados em meus livros, e eu estou sentado bem ali. Ouvir os outros falando sobre você sem saber de nada é uma sensação muito estranha. Mas é a única maneira de saber o que eles pensam realmente do meu trabalho. Na minha vida profissional, a morte está sempre presente.

Como você lida com isso?
Não tenho mais medo. Ainda carrego uma corrente com a bala 9mm que quase me acertou durante a investigação sobre o tráfico de mulheres. Até aquele dia, eu não fazia ideia de como era o som de um tiro. Durante as investigações para o El Palestino, eu me familiarizei com armas e com a ideia da morte. Minha consciência está limpa e, mesmo se eles me pegarem, terei vivido minha vida plenamente. Aprendi tudo que pude e tentei ser algo útil. O que me assusta é que a morte possa ser dolorosa. Mas acho que todo mundo tem esse medo.