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Uma Trégua Frágil Começou em Kiev

O presidente Yanukovych aceitou um acordo que inclui a concessão de eleições presidenciais antes do fim de 2014 e isso deu uma trégua na situação caótica do país. Ainda assim, a mídia local reporta pelo menos 75 mortos.
21.2.14

Barricadas em chamas durante a trégua estabelecida em Kiev na noite passada. Foto por Phil Caller.

A crise na Ucrânia está avançando num ritmo rápido. Um novo recorde de derramamento de sangue foi estabelecido ontem, quando um cessar-fogo entre manifestantes e a polícia acabou num caos regado a tiros e coquetéis molotov. Tivemos informações de mais tiroteios hoje, por outro lado, as negociações entre os líderes da oposição e o presidente em perigo Viktor Yanukovych finalmente parecem estar dando resultados. A BBC informou esta manhã que Yanukovych aceitou um acordo que inclui a concessão de eleições presidenciais antes do fim de 2014. Outros termos do acordo incluem formar um governo de coalizão e mudanças na constituição que limitarão os poderes presidenciais.

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No entanto, oficiais da União Europeia têm pedido cautela e mostram que as negociações ainda estão em andamento. Conversamos com nosso editor de notícias, Henry Langston, que está nas ruas de Kiev observando essa frágil trégua.

VICE: Oi, Henry. O número de mortes aumentou durante o dia de ontem. O que você viu por aí?
Henry Langston, editor de notícias da VICE Reino Unido: Infelizmente, isso é verdade. A mídia local reporta agora pelo menos 75 mortos. E ainda temos os milhares de feridos. Pelo que vi, alguns feridos não resistiram.

E o que você fez por aí desde que conversamos pela última vez?
Depois que conversamos, eu e o Phill [Caller, da VICE News] voltamos para o hotel para recarregar nossas baterias e comer alguma coisa. Depois, fomos para a Igreja de São Miguel, que fica atrás da Praça da Independência. O lugar foi transformado num hospital de campo e há um necrotério improvisado, assim como no Hotel Ukraine. Os corpos são transportados para lá e mantidos nos jardins para que possam ser identificados por outros manifestantes ou paramédicos.

Corpos de manifestantes no necrotério improvisado. Foto por Henry Langston.

Imagino que deve ter sido uma situação bem caótica.
Foi mesmo. Alguns manifestantes vêm para a praça com suas informações pessoais escritas num papel colocado no bolso — nomes da família, endereço, números de telefone e tudo mais. Assim, se alguma coisa acontecer com eles, as pessoas podem contatar a família. Infelizmente, nem todo mundo tem esse cuidado, então, demora mais para identificá-los. Conversamos com um médico que estava lá desde a manhã tratando os feridos. Ele disse que várias pessoas tinham morrido em sua mesa de operação. No começo, eles não tinham o equipamento para lidar com as hemorragias que estavam chegando. Mas, conforme o dia foi passando, cada vez mais pessoas trouxeram equipamentos e suprimentos, inclusive equipamento especializado. Os médicos não perguntam de onde essas coisas estão vindo, mas elas permitem que eles tratem os feridos seriamente até que eles possam ser transportadas para o hospital.

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Os enfrentamentos continuaram o dia todo?
Não, eles pararam por volta das três da tarde.

E o que aconteceu? Outro impasse tenso?
Sim, agora os manifestantes estão mantendo todo o território que perderam nos dias anteriores. Hoje de manhã, as barricadas pareciam bem maiores do que antes. Há um suprimento constante de coquetéis molotov, comida, água e material para tornar as barricadas mais fortes, além de um monte de caras perto delas para defender o lugar.

Manifestantes fazem explosivos improvisados. Foto por Henry Langston.

A violência piorou novamente ontem. Como as pessoas responderam?
Estávamos andando pela Praça da Independência e havia um grupo de mulheres e alguns caras enchendo galões de água com pedaços de isopor e gasolina. Depois eles colocam um pavio nos galões e têm coquetéis molotov tamanho grande. O isopor age como um espessante, fazendo isso queimar de forma parecida com o napalm. Isso gruda na pele e nas roupas. Bom, foi o que explicaram para mim. Não sei bem como eles pretendiam jogar isso, já que os galões são bem leves de qualquer maneira. É a última coisa que eu gostaria que me acertasse, fora uma bala, se eu fosse um policial.

Caramba.
É. Bom, uns caras ontem nos disseram que a polícia também estava fazendo explosivos improvisados — que eles enrolavam pregos e parafusos por cima de bombas de efeito moral. As bombas cegam as pessoas e os estilhaços podem ferir os manifestantes. As pessoas sempre me mostram pregos e parafusos que encontram nesses explosivos improvisados. Então, você tem o uso casual de armas de fogo dos dois lados além dessas bombas estranhas.

Manifestantes em Kiev. Foto por Henry Langston.

Então, as coisas estão bastante violentas dos dois lados.
É, conversamos com um médico ontem e ele contou sobre um garoto que morreu em sua mesa de operação. Uma bala tinha entrado pelas costas e atravessados um dos órgãos principais. Ele levava algumas informações de contato consigo e o médico pôde ligar para sua mãe, que afirmou que ele tinha sido pago por alguém do governo para viajar para Kiev. O médico achava que ele podia ser um titushki – um dos capangas contratados pelo governo, que acabou levando um tiro nas costas. Isso levanta questões sobre que armas de fogo os manifestantes têm; já alguns policiais foram baleados e mortos também, mas foram poucos. Os manifestantes certamente não estão armados no mesmo nível que a polícia, que tem AKs-47 e rifles de longa distância. De trechos de vídeos e fotos que vi, os manifestantes parecem ter alguns rifles de caça e uma espingarda ou pistola ocasionais.

OK, Henry. Cuidado.

Siga o Henry no Twitter para mais atualizações: @Henry_Langston