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O que os poloneses acham dessa capa de revista sobre 'O Islã estuprando a Europa'?

Uma popular revista polonesa de direita publicou uma capa comentando os estupros sofridos por mulheres alemãs no Ano Novo. Apesar de apenas três suspeitos presos serem refugiados, a mensagem foi clara: refugiados são uma ameaça para a segurança das...

A capa da revista de direita 'wSieci'. O texto diz 'O estupro islâmico da Europa'.

Semana passada, a popular revista polonesa de direita wSieci publicou uma capa que ofendeu muita gente. A imagem era de uma mulher sendo agarrada por vários braços peludos e o texto: "O estupro islâmico da Europa".

A fotografia — que se você tirar as mãos, parece mais uma foto de estoque para "mulher lembra que deixou o ferro ligado" — é um comentário sobre os ataques sexuais sofridos por mulheres alemãs em Colônia na noite de Ano Novo. Foram 58 queixas de violência sexual naquela noite, e apesar de apenas três suspeitos presos serem refugiados recentes, a mensagem subsequente da mídia de direita da Europa foi clara: refugiados são uma ameaça para a segurança das mulheres na União Europeia.

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Desde que a crise de migração começou, a Polônia vem seguindo uma linha bastante severa de imigração. Mais recentemente, numa cúpula da UE que aconteceu em Bruxelas, a Polônia — assim como República Checa, Eslováquia e Hungria — pediu que as fronteiras da Europa fossem fechadas para bloquear a principal rota usada pelos refugiados.

Considerando que o alvoroço até agora parece vir mais de outros países, e como não falo polonês (então não posso saber quais foram as reações pelo Twitter) decidi ligar para o editor da VICE Polônia Maciek Piasecki, para saber o que seus compatriotas acharam da capa.

VICE: Oi, Maciek. Qual foi sua reação inicial à capa?
Maciek Piasecki: Estou cada vez mais insensível a esse tipo de coisa; a mídia de direita faz isso o tempo todo. Eles retratam alguém de que não gostam apontando uma arma para sua cara. Eles não têm vergonha disso.

A maioria da mídia polonesa é de direita?
Sim, acho que sim. Algumas das revistas mais de esquerda fecharam nos últimos anos. Houve um crescimento de revistas como a wSieci — que se chamam de "revistas rebeldes". Elas surgiram com o governo neoliberal de centro na Polônia e eram abertamente contra o governo, mas agora são governistas porque o governo é conservador.

Simpatizantes do partido da situação, por exemplo, são donos do Polish Journal, então é um pouco como a situação na Hungria, onde o partido no poder é dono de meios de comunicação. Mas essas revistas ainda chamam a si mesmas de "rebeldes", mesmo sendo basicamente a mídia do partido.

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Você acha que a maioria da população polonesa concorda com a mensagem da capa?
Não há muitos refugiados sírios aqui na Polônia — as pessoas recebem informação sobre isso dessas revistas ou por páginas preconceituosas nas redes sociais. O tópico de refugiados islâmicos atacando mulheres europeias tem sido a principal fonte desse discurso nos últimos meses, principalmente depois de Colônia. Essa capa definitivamente joga com esse sentimento. Além disso, a matéria não é exclusivamente sobre os ataques a mulheres; também é sobre a União Europeia encobrindo esses casos, com a revista fingindo que está expondo uma teoria da conspiração.

O que você achou da capa esteticamente?
Eu queria que tivéssemos mais aulas de arte no currículo da Polônia.

A Polônia tem um problema com a UE no geral, ou apenas com imigração?
O partido no poder não é eurocético; eles nunca se opuseram abertamente à UE. A vida de muitos poloneses melhorou depois que o país entrou para a União Europeia. Mas a questão da imigração é algo que definitivamente preocupa os poloneses. Não acho que muitos migrantes querem ficar na Polônia de qualquer maneira, e são os poloneses que querem deixar o país. Todo mundo está tentando fugir. Os poloneses ficam muito felizes em emigrar, mas eles certamente não entendem as pessoas que querem vir para cá também.

Você acha que a capa terá um impacto forte na Polônia?
Acho que não; é só mais uma parte da retórica. Mas no geral, isso é perigoso, já que os poloneses podem achar que é normal publicar coisas assim, o que é preocupante.

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Houve alguma resposta contra isso? As pessoas ficaram ofendidas?
Sim, ficaram, mas apenas aquelas que têm consciência das questões raciais, não a maioria do público. Não acho que o editor da revista diria que eles são racistas; é algo que fica escondido. Os países mais antigos da UE são mais politicamente corretos. Na Polônia é difícil encontrar pessoas de outras etnias — todo mundo é basicamente uniforme. Não há muitas pessoas na Polônia que poderiam ser prejudicadas pela imagem, porque não veem os perpetradores como parte de suas comunidades — é esse o problema.

Obrigada, Maciek.

@ameliadimz

Tradução: Marina Schnoor

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