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Vi Ativistas Antiausteridade Começarem uma Ocupação num Pub de Londres

No Reino Unido, não é incomum que ativistas radicais ocupem um prédio como quartel-general antes de uma grande manifestação.
23 June 2015, 8:30pm

Na madrugada de quinta-feira da semana passada, ativistas pela moradia e educação ocuparam um pub de Londres em preparação para a manifestação "Acabe Com a Austeridade", marcada para o sábado. O pub Elephant and Castle ficou nas mãos dos ativistas, que planejam usar o lugar como um centro social – um espaço para palestras, reuniões, eventos e organização política, além de um centro comunitário para os moradores da área. No Reino Unido, não é incomum que ativistas radicais ocupem um prédio como quartel-general antes de uma grande manifestação.

Vi o prédio ser ocupado na semana passada. Cheguei a uma rua tranquila de South London logo depois da meia-noite. Tudo que eu sabia naquele momento é que algum ativismo aconteceria envolvendo um prédio "no coração do programa de gentrificação de Londres" e que fui convidado para acompanhar o processo.

Chegando à rua que me foi indicada, me vi sozinho. Deram-me um número para ligar quando chegasse, mas ninguém estava atendendo. Antes que eu ficasse paranoico demais, achando que aquilo era alguma pegadinha elaborada ou uma armadilha da polícia, a porta da frente da casa do outro lado da rua abriu e fui conduzido para dentro.

Eu esperava ser recebido pelos estereótipos de ocupas crust punks usuais, mas me vi cercado principalmente por estudantes encorajados por um surto de ocupações pela cidade desde o começo do ano.

Eles estavam discutindo como deviam anunciar a abertura do centro social para o mundo. "A diferença entre esse espaço e uma ocupação comum é que queremos que as pessoas saibam sobre ele", disse um dos ativistas, que queria anunciar a abertura ao público o quanto antes. "Ocupas frequentemente preferem manter um lugar abaixo do radar para poderem morar ali mais tempo, mas queremos abrir as portas e ter pessoas lá dentro."

Enquanto a reunião prosseguia, o objetivo da ação se tornou claro. Por que o Elephant and Castle? "Porque o lugar era um pub há, tipo, 250 anos, mas agora vão abrir uma imobiliária Foxtons. E foda-se a Foxtons", alguém respondeu. Deve ser chato para o pessoal de relações públicas da Foxtons que a marca tenha se tornado sinônimo de gentrificação brega. Num protesto recente em Brixton, ativistas destruíram a fachada do escritório local deles. Agora, uma nova franquia estava sendo ocupada antes mesmo de ser construída. Esses caras não têm descanso.

Uma tradicional área de Londres, Elephant and Castle fica no centro de um projeto de renovação de US$ 2,3 bilhões, criticado por transformar o lugar num parque temático da gentrificação e expulsar os moradores locais no processo.

Como muitos lugares no Reino Unido, o Elephant and Castle anotou seus últimos pedidos. Trinta e um pubs fecharam toda semana no ano passado no Reino Unido, arrancando o coração de muitas comunidades. Diferentemente de muitos desses, que fecharam devido à ascensão dos "pubcos", os pubs de rede, ou porque foram comprados por especuladores imobiliários, o Elephant and Castle perdeu sua licença em março depois que um cliente teve uma caneta fincada na cabeça.

Uma faixa dentro do pub diz "Greve do Aluguel Agora".

O grupo se separou para decidir quem faria o quê. Pelo que entendi, cada time tinha de fazer a segurança de uma entrada do pub. "Eles podem ter censores de movimento lá dentro", um dos caras explicou. "Se eles dispararem, não entrem em pânico."

Eles passaram um número para enviar mensagens no caso de problemas, e cópias de uma notificação legal – explicando aos policiais e oficiais de justiça que os ocupas têm algum direito legal de ficar no prédio depois que estiverem lá dentro – foram distribuídas.

Antes de irmos, alguém pronunciou algumas palavras finais: "O que estamos fazendo não é um crime, só um pouco ilegal". Não sei se isso era para dar alguma segurança ou não. Desde setembro de 2012, ocupar propriedade residencial se tornou uma ofensa criminal, mas ocupar prédios comerciais ainda é uma ofensa civil. A polícia não pode te prender por isso, mas ainda pode tentar te acusar de invasão com agravante, danos criminais, uso de violência para entrar e mais um monte de ofensas de Ordem Pública.

Era bem mais de 1h30 da manhã quando finalmente partimos até o Elephant. Depois de uns 20 minutos esperando na frente de um Nandos, com sacos de dormir a tiracolo, a equipe se separou, e eu fiquei com alguns estudantes que deviam ficar de olho na polícia.

Enquanto esperávamos, perguntei para um cara que estava varrendo a rua, e que por acaso morava ali perto, o que ele achava das mudanças na área. Ele, como muitos antigos fregueses do pub fechado, não estava nada contente.

"Sabe de uma coisa? Isso não me surpreende mais", ele comentou. "Eles me expulsaram da minha casa, sabe, e dizem que o lugar precisa ser renovado. São as mesmas pessoas que pagam meu salário, mas não o suficiente para que eu possa morar aqui. É uma mudança ativa: eles não dão a mínima para quanto isso custa para as pessoas ou [o que isso representa] em dinheiro."

O tempo foi passando, e a gente relaxou. Um carro parou perto, e os ativistas pensaram que fosse a polícia. Em vez disso, um cara de short vermelho abriu a porta do carro, vomitou perto de nós e foi embora.

Lá pelas 3 da manhã, era hora de se mexer. Dois caras pularam uma cerca de bambu. Todo mundo esperou do lado de fora por um sinal. Ouvimos alguns barulhos vindo de dentro. O pub foi invadido, mas inicialmente não houve o chamado para entrarmos.

Decidi ver o que estava acontecendo; então, escalei a cerca e entrei no jardim. Alguém acenou para mim através da escuridão, e, depois de pular outra cerca, cheguei a uma porta lateral. Eu me preparei para entrar, mas um cara de colete gritou de uma janela no prédio vizinho. "Vou dar dez segundos para vocês darem o fora daí ou vou chamar a polícia!"

Fugi, voltando por um estacionamento particular e me juntando aos outros ativistas que esperavam.

A polícia não apareceu; depois de uns 20 minutos, um grito de dentro veio por cima da cerca. Dessa vez, fomos por um portão diferente, passamos rapidamente por ele e entramos no pub.

Assim que entramos, as pessoas começaram a colocar cadeados de bicicleta nas portas e colar as notificações legais nas janelas. Descobrimos que a água estava ligada, para alívio de uma moça que precisava muito ir ao banheiro, e as luzes, que ainda estavam funcionando, foram diminuídas.

Logo depois das 4 da manhã, a polícia chegou: uma van e um carro. Eles olharam pela vitrine, conversaram com alguém que apareceu lá fora e foram embora, aparentemente dizendo que os donos teriam de levar os ocupas ao tribunal antes que eles pudessem fazer qualquer coisa, comentando que "isso poderia levar meses".

Antes de ir embora, perguntei a uma das ativistas qual era o objetivo da ocupação. "Uma grande manifestação antiausteridade vai acontecer no sábado, mas não somos do tipo que trata uma marcha assim como o começo e o fim de nossas atividades", ela explicou. "Abrir um espaço paralelamente à marcha deve gerar alguns interesse por formas alternativas de resistência."

Até agora, essas formas alternativas de resistência incluem uma reunião sobre débito estudantil, palestras com acadêmicos de esquerda de Londres, uma festa e uma tarde de oficinas.

Com parte da esquerda da Grã-Bretanha realizando o que o Daily Mail chamou de um "verão de vandalismo" para resistir ao governo, parece que muitas táticas serão usadas para suplementar eventos maiores, como a marcha antiausteridade do sábado. Posso pensar em alternativas bem piores do que passar os dias num pub.

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Tradução: Marina Schnoor