Ativistas da aceitação do corpo explicam como é ser gordo
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Ativistas da aceitação do corpo explicam como é ser gordo

E como você pode ser um aliado da causa.
10.5.17

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US.

Positividade corporal é a mais nova tendência do marketing consciente. Se você quer que sua marca vire notícia, é só trocar as modelos convencionais por pessoas "reais" e esperar os elogios. Mas por trás de toda a propaganda positiva da Arie, Dove e ModCloth, há um exército de ativista da aceitação do próprio corpo: mulheres e homens que estão trabalhando há décadas para se libertar do estigma social que vem ao viver num corpo gordo.

Leia também: "Como aceitar o fato de que você se sente atraído por gordas"

Falamos com algumas das estrelas internacionais em ascensão no movimento da aceitação do corpo sobre suas implicâncias com a indústria da moda, o ódio que recebem de estranhos na internet e a maneira como os aliados da causa podem dar apoio sem dominar o diálogo.

Jessica Hinkle: Dona da Proud Mary , um site de moda plus size; blogueira; stylist e fotógrafa da Fat Fashion

VICE: O que te inspirou a entrar na cena da moda plus size?
Jessica Hinkle: Eu sempre quis trabalhar com moda mas não busquei isso desde cedo porque sentia que não seria bem-vinda. Eu enchia meus cadernos com desenhos de roupas e depois os jogava fora. Quando tinha uns 20 anos, topei com um fanzine com fotos nuas da Beth Ditto, da banda Gossip. Foi a primeira vez que senti minha gordofobia internalizada ser desafiada, e comecei a desaprender toda a merda que a sociedade nos diz sobre nosso valor ser determinado pelo nosso tamanho.

Sendo uma pessoa pública, que tipo de coisas costumam te dizer que te irrita? E como você lida com isso?
Recebo um monte de mensagens de gente me dizendo que sou nojenta e/ou deveria me matar. Eles dizem que glorifico a obesidade quando só estou glorificando o amor-próprio. Não entendo por que as pessoas se sentem tão ameaçadas por isso. As ofensas online costumavam me afetar muito, mas agora só fico triste por essas pessoas, gente tão cheia de ódio que sente a necessidade de se dirigir assim a alguém que nunca viu antes.

"Eles dizem que glorifico a obesidade quando só estou glorificando o amor-próprio."

Recebo olhares e comentários no mundo real só por usar algumas peças. As pessoas sentem que você tem que se esconder quando tem meu tamanho — que você deveria ter vergonha por existir e que não tem direito de ser estilosa e feliz. Muitos homens também entram em contato comigo porque acham que uma mulher gorda visível na internet está desesperada pela atenção deles. É isso que mais me incomoda hoje. Fico puta que minha mera existência seja um convite para mensagens sexualmente explícitas na cabeça desses caras.

Você já escreveu sobre a ligação entre perda de peso intencional e gordofobia. Você pode falar sobre essa aura ligeiramente velada de gordofobia que você vê pairando em espaços "saudáveis" e de perda de peso?
Claro, todo mundo deveria ter autonomia sobre si mesmo, e não julgo as pessoas pelas escolhas que elas fazem sobre seus corpos. Parte dessa questão é que a indústria de emagrecimento faz muito dinheiro com a gordofobia. Nos disseram a vida inteira que ser gordo é uma das piores coisas do mundo, que "não é saudável". Preocupações com saúde são sempre usadas para justificar a gordofobia. As pessoas escondem sua gordofobia como uma "preocupação" com a nossa saúde.

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Se você quer malhar o dia inteiro e só comer salada, vá em frente. Faça o que te faz sentir bem. O problema é quando as pessoas postam imagens de "antes e depois", que inerentemente defendem que quanto menor melhor. Se é assim que você se sente, ótimo, mas não chame isso de positividade corporal. Para isso você tem que reconhecer realmente que as pessoas merecem respeito e autonomia sobre seus corpos, sem julgamento. Gente gorda naõ se resume a fotos de "antes". Precisamos parar de centrar nossas conversas sobre positividade corporal em saúde em geral.

Ariel Woodson e KC Slack: apresentadoras do Bad Fat Broads, um podcast que aborda "a perspectiva das bad bitches gordas em tudo que seja importante"

VICE: O que positividade corporal significa para vocês, e como vocês praticam isso no dia a dia?
Ariel Woodson: Esse termo não significa nada para mim. Ele foi tão desvalorizado que não carrega mais nenhum peso. Mas respondendo à pergunta como se espera, positividade corporal séria significa uma abordagem interseccional dos corpos. Priorizar os corpos mais oprimidos pela nossa sociedade e garantir que haja igualdade para todos. Significa lidar com as implicações reais de viver num corpo que as pessoas não gostam.

KC Slack: Penso no nosso trabalho mais como liberação gorda do que sobre positividade corporal. Não que eu não tenha uma atitude positiva com qualquer corpo, mas minha visão é que quando os corpos mais marginalizados forem liberados, todo mundo vai poder ter uma relação mais livre com o próprio corpo. Para mim, positividade corporal significa se sentir bem sobre o presente incrível e estranho que é ter um corpo. Às vezes é um saco ter um corpo. Às vezes você é oprimida pelo formato, tamanho ou aparência geral do seu corpo. Às vezes seu corpo em si é doloroso. Tudo isso é real, mas ainda é incrível ter essa interface tátil com o mundo através do seu corpo.

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Vocês fizeram um programa recentemente chamado "Falando sobre a Injustiça Gorda", no qual criticam empresas que estão ganhando exposição positiva na imprensa promovendo uma versão esterilizada e branca da aceitação corporal.
KC: Agora é muito popular entre as marcas defender positividade corporal para todos enquanto ainda fazem roupas só até o tamanho 54. Acho hilário, porque isso é errar totalmente o alvo. Pessoalmente, meu problema antigo é com a Lane Bryant, porque eles continuam fazendo propagandas sobre todo tipo de corpo ser OK, mas sempre que entro numa Lane Bryante, alguém tenta me vender algo que disfarça a barriga. É tipo: "Olha, ou meu corpo é OK ou eu preciso de uma cinta na minha calça para as pessoas não notarem que tenho barriga". É muito irritante.

Woodson: A Arie sempre monetizou com essa coisa de positividade corporal. Eles vivem falando sobre como não usam Photoshop nas modelos, mas ainda usam modelos que se encaixam perfeitamente no padrão de beleza convencional. A maior modelo deles é tamanho 46, e branca. Isso não está desafiando limite nenhum. No lado prático, ainda não consigo comprar na American Eagle! Nenhuma das roupas deles me serve. Não estou dizendo que toda marca precisa atender todo tipo de corpo, mas vamos falar do que torna a positividade corporal útil em marketing além de arrancar dinheiro dos clientes.

"Quando os corpos mais marginalizados forem liberados, todo mundo vai poder ter uma relação mais livre com o próprio corpo."

Quais são os tipos mais frequentes de gordofobia que vocês encontram no cotidiano?
Fui parar na emergência do hospital algum tempo atrás. Isso não importa, mas minha saúde é excelente. Não tenho as coisas que eles adoram dizer que todo gordo tem — não tenho pressão alta, não tenho diabete. Ainda assim, não terminei o atendimento porque o médico não conseguia parar de falar do meu peso. Eu estava lá porque meu pé tinha inchado muito em 24 horas, o que nunca tinha acontecido antes. Mas tudo que ele conseguia me dizer era que eu tinha que ir para casa e perder peso! OK!

Vou ser um pouco enxerida aqui e assumir que vocês, mulheres da aceitação corporal na internet, recebem uma parcela considerável de ódio. Quais são algumas das coisas mais comuns que vocês ouvem, e como lidam com isso?
KC: Tenho um número absurdo de pessoas bloqueadas no Twitter. Uso um programa chamado Block Chain, que deixa você bloquear todo mundo que segue alguém. Foda-se! Não acho que as pessoas têm o direito de entrar no meu espaço, e acho que ninguém tem direito de interagir comigo. Algum tempo atrás, eu disse no Twitter que você não é moralmente obrigado a ser saudável. Um monte de gente veio dizer que eu devia me matar: "sua vaca gorda, você estaria melhor com uma bala na cabeça!" Também tem muita gente que vem me dizer que sou feia e ninguém quer me comer, o que é tão mentira que é até difícil levar a sério.

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O que as pessoas podem fazer para apoiar o movimento de aceitação corporal e mudar esses estereótipos e comportamentos enraizados?
Eu gostaria que as pessoas notassem os espaços físicos e não excluíssem os corpos gordos. Se você vai para um restaurante onde as cadeiras têm braços, penso em como seria se seu quadril fosse largo demais para se encaixar.
Woodson: Ouçam os gordos. Os gordos são a autoridade na experiência gorda. Se você tem um amigo que está praticando aceitação corporal e fat positive, imite esse comportamento. Mesmo se não fizer isso na sua vida diária, faça isso quando estiver com essa pessoa.

Cat Polivoda: proprietária do brechó plus size Cat's Closet e da Body Brave Consulting

VICE: Como você pratica positividade corporal todo dia?
Cat Polivoda: Me esforço para anular qualquer discurso interno negativo e substituir isso por afirmações positivas. Vivo do jeito mais sem vergonha possível, especialmente quando se trata do meu tamanho. Ah — e eu gosto de me lembrar quanto sou bonita toda vez que passo por um espelho.

"Na nossa cultura, quando você é plus size ou gorda, a suposição padrão é que você tem que estar tentando perder peso."

Recentemente você publicou a série resistência às promessas de ano novo , que quebra com a suposição de que perder peso deve ser um objetivo para todo mundo. Você pode falar um pouco sobre como isso começou, e o que isso significa para você?
Na nossa cultura, quando você é plus size ou gorda, a suposição padrão é que você tem que estar tentando perder peso. É muito comum que profissionais e especialistas em seus campos não sejam levados a sério por causa de seu peso. As pessoas não são promovidas por causa de estereótipos sobre seu tamanho. E já ouvi incontáveis histórias deprimentes de pessoas cujos pais "nunca estavam orgulhosos de mim" como quando eles perdiam peso — dane-se os diplomas, conseguir um emprego, criar arte ou qualquer outra conquista. O peso supera tudo isso mesmo? É enraivecedor e muito triste.

Você usa a palavra "gorda" para descrever a si mesma, e mencionou numa postagem recente do seu blog que muitas comunidades de positividade corporal podem achar isso radical. Você pode explicar por quê?
A positividade corporal veio do ativismo pela liberação gorda. Apesar de valorizar partes da positividade corporal, porque acho que isso permite que pessoas de todos os tamanhos abracem seus corpos, me sinto muito mais ligada à liberação gorda.

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"Gorda" é o termo que prefiro. Tem um elemento de reclamar a palavra que gosto muito. Acho que é mais fácil resistir a equívocos sobre pessoas gordas quando estou confortável em usar a palavra. Por exemplo, quando as pessoas insistem que "não sou gorda", sou "bonita", posso lembrar a elas que sou "gorda e bonita". Claro, "gordo" é um termo muito carregado, e cada pessoa deve decidir que palavras quer usar para se descrever ou com quais se identifica.

Se você pudesse mudar uma coisa sobre como as pessoas gordas são vistas pela sociedade, o que seria?
Nossos corpos não precisam ser consertados. É nossa cultura que está desesperadamente precisando conserto. Merecemos respeito, acesso e representação agora. Essas não são coisas para obter só quando mudarmos nossos corpos.

Kelvin Davis: criador do Notoriously Dapper , um blog de moda masculina e positividade corporal; moderador do Instagram @effyourbeautystandards e autor de um livro que sai em breve

VICE: Por que você começou seu blog?

Kelvin Davis: Comecei o Notoriously Dapper depois de uma experiência ruim na Express. Fui comprar um blazer, e infelizmente eles não tinham meu tamanho. Pedi um tamanho maior, e a moça disse que eles não faziam um tamanho maior. Foi a primeira vez, como homem, que experimentei coisas que não vinham no meu tamanho. Senti que precisava falar disso, mas como homem, os padrões sociais de masculinidade dizem que você não deve falar sobre questões de corpo, nada emocional, nada a ver com como você se sente.

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No seu Instagram pessoal, parece que a maioria do feedback é positivo. Mas você também é moderador da página da Tess Holliday @effyourbeautystandards, onde acho que você vê uma boa dose de negatividade. Como você lida com isso?
Às vezes as mulheres na comunidade me dizem para parar de reclamar porque as mulheres têm que lidar muito mais com isso. E ouço muito "engole o choro e seja homem". Mas positividade corporal deveria ser para todo mundo. Tess Holliday me escolheu como moderador porque queria que esse fosse um lugar para todo mundo. Não apenas para mulheres. Não apenas para brancos. Para todo mundo! Todo tamanho, toda idade, toda raça e todo gênero.

"Os padrões sociais de masculinidade dizem que você não deve falar sobre questões de corpo."

Você já experimentou agressividade sobre seu corpo vindo de amigos ou da família?
Eu estava numa festa na piscina quando alguém me perguntou o que eram essas marcas brancas que tenho na pele. Parece que ele pensou que era uma doença ou algo assim, ele ficou preocupado comigo. Ele disse "Ei, cara, o que são essas marcas brancas do lado da sua barriga, coça?" E eu disse "NÃO! Não coça! Não é uma alergia; são estrias". Lembro que pensei "Caramba, você está falando sério?"

Alysse Dalessandro: estilista inclusiva, escritora, ativista e dona da Ready to Stare , uma marca plus size de roupas e joias

VICE: Me fale sobre a Ready to Stare. De onde vem o nome?
Alysse Dalessandro: Comecei a Ready to Stare depois que sofri gordofobia na rua. Eu estava usando um vestido curtinho, e alguém gritou de um carro "Ei, gorda! Pare de tentar parecer magra!" Quando você é confiante, mas não se encaixa nos padrões de beleza, as pessoas vão te encarar. Me destaco porque pessoas que parecem comigo deveriam se odiar; deveriam se esconder. Então chamei minha marca de Ready to Stare [algo como Pronta para Encarar]. Transformei um momento de vergonha em uma celebração das coisas que as pessoas naqueles carros queriam me envergonhar por ser.

"A ideia de que a moda plus size só é aceitável se você está ativamente tentando parecer mais magra, se tornou esse grande ponto de polêmica na comunidade."

Alguns anos atrás, você virou notícia por fotos suas usando um vestido vermelho . Você escreveu no seu blog sobre o ódio que recebeu, muito dele de mulheres que não concordavam com o formato do vestido no seu corpo. Por que o corte daquele vestido era tão controverso?
A moda para mim é uma armadura. Sempre sofri bullying pelo modo como me visto, mas como a Rihanna diz "Eles podem me vencer, mas nunca vão vencer meu look". Esse é o meu mantra. Fiz esse vestido porque queria que ele existisse. Na verdade, ele é baseado no modelo de vestido que a Rihanna usou no Grammy alguns anos atrás. Quando o coloquei na internet, isso incomodou as pessoas, porque era um vestido que obviamente não estava tentando me fazer parecer mais magra. A ideia de que a moda plus size só é aceitável se você está ativamente tentando parecer mais magra, se tornou esse grande ponto de polêmica na comunidade.

Você é bastante aberta sobre as trollagens que recebe — tanto na internet como pessoalmente. Quais táticas você usa para se manter sã?
Semana passada, alguém chegou para mim dizendo "Olha essa baleia aí achando que é uma fêmea humana". Isso realmente me perturbou. Quando essa pessoa olhou para mim, ela não viu uma pessoa. Como ouso estar numa pose humana? Quando alguém diz algo que me desumaniza, costumo conversar com um amigo, deletar o comentário, ou às vezes deixo lá para as pessoas verem o tipo de coisa que costumamos ouvir. Acho que é importante dar algum tipo de visibilidade para esse tipo de comentário porque se essa não é sua realidade, você não faz ideia de como as pessoas nos tratam.

Sei que há um debate na comunidade de positividade corporal sobre usar a palavra "gordo" para se descrever. Como você usa essa palavra?
Acredito que as palavras têm o poder que damos a elas. Quando digo que meu corpo é gordo, removo o poder que isso tinha sobre mim no passado como um insulto. É literalmente apenas uma descrição do tamanho do meu corpo — "gorda" não significa feia; "gorda" não significa inútil. Quando tomamos a palavra de volta e dizemos "sim, sou gorda e tudo bem", estamos tirando o poder dela. Acho que é muito prejudicial quando as pessoas dizem que não querem ser chamadas de gordas ou plus size. Já há um estigma nessas palavras, então quando você as nega e diz que só quer ser vista como "bonita", você está reforçando a ideia de que gorda não pode significar bonita, e esse é o problema.

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Tradução: Marina Schnoor

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