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Uma Conversa com o Chefão da Disco, Tom Moulton

A história do produtor da Grace Jones, que exerceu um papel fundamental ao moldar a cultura dance como a conhecemos.

Qualquer um que ache que a carreira de cantora de Grace Jones começou em 1980 com Warm Leatherette não sabe nada. "I Need a Man" - seu primeiro single - chegou em 75, e então vieram três LPs clássicos - Portfolio, Fame e Muse - gravados entre 77 e 79 com o lendário maestro do remix Tom Moulton como produtor. Os dois últimos discos falharam comercialmente, parcialmente por causa de um mercado saturado e o crescimento do movimento "Disco Sucks" no final dos anos setenta - ainda que todos esses álbuns tenham sido, anos mais tarde, amavelmente restaurados nos estúdios Abbey Road como parte da coletânea Disco Years.

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Embora Grace Jones tenha se tornado um nome reconhecido, seu produtor menos conhecido exerceu um papel fundamental ao moldar a música e cultura dance como as conhecemos, ganhando a alcunha de "rei indisputável do mix disco". Sua história é interminavelmente fascinante, e podemos dizer que Moulton influenciou tanto a maneira como entendemos a música, quanto Larry Levan, Patrick Cowley e até mesmo o progenitor do hip hop Kool Herco (embora, ele tenha tido mais influência que quase todo mundo).

Por telefone de Manhattan, em Nova York, o direto e sempre humilde pioneiro do remix estava pronto para diminuir a importância do seu papel em inventar o megamix disco, o doze polegadas e o "disco break", dizendo que tais descobertas foram sem querer. Pegue o disco mix: Tom foi a primeira pessoa a fazer um "medley disco" em vinil, em 1975, juntando três faixas em um lado de Never Can Say Goodbye, da Gloria Gaynor. É estranho pensar que uma das maiores inovações musicais de nossa época teve mais a ver com a mãe natureza do que qualquer outra coisa.

"Eu juntei essas músicas todas para que o DJ pudesse ter um tempo e ir ao banheiro", disse Tom, "porque assim a música ficava com uma duração de 19 minutos. Eu não fiz porque estava tentando criar um mix de três músicas juntas, realmente foi só para o DJ".

A ideia inicial de Moulton ao casar músicas em um mix extendido - para deixar o ritmo seguindo na pista de dança -, surgiu enquanto ele visitava um descolado bar gay em Fire Island, Nova York, durante o começo dos anos setenta. Sua epifania veio ao ver o que era conhecido como 'tea dance', um lance no qual pessoas brancas, no meio da tarde, dançavam ao som de Al Green depois de uma visita à praia.

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"Eu fiquei simplesmente fascinado com essas pessoas brancas dançando black music", ele diz, "porque eu sempre fui um fã de black music. Você sabe, quem cresceu nos anos 40 não podia dizer que gostava daquele tipo de música porque as pessoas olhavam estranho."

"Mas o DJ não era tão bom. Se ele não conseguia manter o beat, as pessoas iam embora - e pelo jeito que elas dançavam, eu conseguia dizer se estavam começando a curtir aquilo. Então esse outro disco ia atrapalhar o jeito que elas estavam sentindo e foi aí que eu pensei 'deve ter um jeito de fazer eles ficarem mais tempo'".

Moulton então compilou uma mixtape de 45 minutos em uma velha máquina Revox, atividade que levou umas 80 horas para ser concluída ("é muito mais fácil hoje em dia", ele brinca). Mais tarde, sem querer, Moulton esbarrou com o formato de 12 polegadas no Scepter Records - lugar onde ele trabalhava com artistas e repertório -, quando eles não tinham mais discos de sete polegadas para prensar "I'll Keep Holdin On" do Big Al Downing .

"Foi um acidente, sabe", Moulton ri. "Não estou querendo comparar isso com a vacina de polio, mas não foi o mesmo que Louis Pasteur fez quando ele deixou algo na placa de Petri no fim de semana? Então eu meio que fico envergonhado quando as pessoas dizem, 'ah, você inventou o disco de 12 polegadas'. Não, eu não o inventei, só tinham acabado os discos de sete polegadas".

Se necessidade é a mãe da invenção, então contingência é o pai do mundo de Moulton. Assim como trabalhar como modelo, a carreira agitada do sósia do Tom Selleck também fez ele lançar o que ficou conhecido como o primeiro 'disco break' no hit de Don Downing de 1974 "Dream World", depois do fade out dos instrumentos na hora da modulação e depois reintroduzido mais tarde, e ele fez trabalho excelente com faixas inacabadas de Arthur Baker para completar obrigações contratuais com seu próprio projeto de disco, TJM em 1979. Dois anos antes, Tom teve até um pequeno infarto ao remixar "Doctor Love" de First Choice.

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"Eu tinha choques correndo pelo meu corpo", ele diz. "Eu amava aquela faixa tanto que eu não estava preparado para parar até conseguir acertar. Foi aí que tive que ir ao hospital e perceber que eu tive um infarte".

Se isso tudo não é o bastante para você entender a genialidade desse homem, Tom também escreveu uma coluna semanal sobre a disco para a revista Billboard no meio dos anos setenta - e era indiretamente devido a sua visibilidade que ele foi persuadido a seguir a carreira de produção.

"Eu costumava receber essas cartas periodicamente dos [promoters] Sy e Eileen Berlin e eles sempre diziam 'nossa, nós adoramos seu mix nessa canção' e 'por favor continue o bom trabalho'. Era quase como uma carta de fã e eu não tinha muita gente me mandando esse tipo de mensagem". Tom disse que ele não produzia, mas a adulação uma hora funcionou, e logo ele estava trabalhando com "uma das pessoas mais incríveis com quem eu já trabalhei", no formato de Grace Jones.

"Ela tem uma força tremenda", ele diz de Grace, "quer dizer, você pode ver apenas pelo jeito que ela se mostra e como ela cuida de seu corpo. Eu acho que o que quer que seja que ela foque em fazer ela consegue. Grace sempre disse [gemido] 'custe o que custar' e ela queria dizer isso mesmo. Eu nunca vi ninguém dizer isso com tanto sentimento, acredite!"

Tom se lembra de ver Grace se apresentar no Roxy, e que foi lá que ele percebeu que sua belicosidade poderia funcionar como uma mercadoria.

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"Ela começou a cantar e o microfone não funcionava", ele disse, "então ela jogou o microfone na plateia, reclamando que 'essa porcaria não funciona', e alguém foi atingido na testa. E um moleque começou a gritar, 'Meu Deus! Grace Jones me acertou! Eu preciso guardar esse microfone!'. A administração começou a correr e falar 'Nós vamos ser processados!', mas ela não ligava. Foi quando eu notei que seu lado forte e agressivo era o que as pessoas gostavam".

Depois das músicas de apresentação de Portfolio, Moulton foi atrás de mais faixas que a levaram aos discos seguintes. "Eu adoro 'Do or Die'", ele se empolga, "tem algo naquela canção que eu sempre amei. E claro, ela é taurina, então quando ela canta 'Tauruses are more determined/Nothuing's gonna stand in their way', ela se relaciona com isso porque ela acredita nisso. "On Your Knees" é outra. Eu queria músicas que fossem realmente agressivas onde ela fosse o chefe, porque as pessoas adoravam esse lado dela".

Então Tom e Grace se davam bem?

"Bom, como eu digo para todo mundo que trabalha comigo, eu não estou tentando construir uma amizade, eu estou tentando fazer o melhor disco que eu posso enquanto produtor", ele diz, escolhendo suas palavras diplomaticamente, "então às vezes eu sou um pouco duro com as pessoas mas só porque eu quero que o disco seja bem sucedido. Nós tivemos nossos momentos no estúdio, mas em geral eu olho para trás e estamos todos felizes sobre como funcionou".

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Então nessa carreira incrivelmente ilustre, do que Tom tem mais orgulho?

"Durar tanto tempo", ele diz.

E o que você teria feito diferente?

"Eu nunca teria dito 'não, eu não quero mixar 'Dancing Queen". Eu me arrependo disso todo dia da minha vida".

O box de 3CDs e 4LPs de Grace Jones estará disponível 4 de Maio pela Island Records.

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Tradução: Pedro Moreira