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Cultura

O que os likes do Facebook me ensinaram sobre o nosso Mundo

Mais do que uma paisagem, um vídeo, um meme, um cartaz a anunciar um concerto, ou uma exposição, nada bate a tua fronha.

Por Pedro Miguel
20 Dezembro 2016, 12:31am

Denis Dervisevic via Flickr

Na época em que somos bombardeados com os balanços do ano, o Facebook, claro, não foge à regra e insiste em impingir-me um vídeo da treta. Uma espécie de best of de 2016, daquilo que eles acham que foi representativo no que toca à minha pegada tecnológica. Acho que estão mesmo convencidos que aquele pedaço de montagem de algumas publicações é a minha cena.

É certo que não desgosto de todo. Aquilo representa algo, se assim não fosse não entravam na minha timeline, pois não há lá lugar para desgraças pessoais. A maneira como cada um gere a sua vida é lá consigo. E também é verdade que há a opção de editar o vídeo e substituir uns posts por outros, mas aquilo que apresentam é estranho. Ou não…

A hipernormalização, segundo conta Adam Curtis, faz com que a malta pense que está a expressar uma opinião, mas, na realidade está apenas a fazer parte de uma vasta engrenagem tentacular. Como aquele champô que diz ter uma série de ingredientes fixes, mas é tudo uma treta. Olhem para as grandes marcas. Há anos que andam a dizer que agora é que é, que este produto é ainda melhor do que os seus anteriores. E uma pessoa aceita, porque quer aceitar, ou como dizia o slogan de um banco: "A força de acreditar".

É o que se arranja. Mas, fintar um algoritmo dá algum gozo, mesmo que este não tenha sentimentos. Parece uma coisa simples e se calhar é mesmo. Se tem mais likes, é representativo, verdade? Mais ou menos. Se é para rever 2016 em posts, faça-se esse exercício e há, desde já, uma coisa a dizer.

Aquilo que aprendi é que, se meteres a tua cara, tens muitos likes. Como não sou assim tão bonito, se calhar é mesmo o voyeurismo a funcionar. Mais do que uma paisagem, um vídeo, um meme com piada, um cartaz a anunciar um concerto, um dj set, ou uma exposição, nada bate a tua fronha escarrapachada para toda a gente ver. Resulta.

Guy Debord - sem sonhar de que forma a coisa estava mesmo a caminho -, na obra "A Sociedade do Espectáculo", já explicou isso em meados do século passado, quando falava do fetichismo da mercadoria, que, adaptando aos dias de hoje, faz de nós a representação do objecto em exposição. Já te deparaste com um evento no face onde dizem que vão muitas pessoas e depois nem metade aparece? E continuas a acreditar nisso? É a alienação do espectador em favor do objecto contemplado, advertiu Debord.

"Procuras o like a todo o custo? Então o que o Facebook fez foi, precisamente, passar-te a mão pelo pêlo. E acertou na mouche".

De facto, e nisso eles não brincam em serviço, já em 2014 - segundo o vice-presidente de Marketing de Produto do Facebook, Brian Boland - se dizia que uma das grandes mudanças tinha a ver com o conceito de horário nobre que, nas palavras do gestor, deixará de existir, para passar a ser sempre, a toda a hora. Se, de acordo com o próprio, o tempo despendido online já ultrapassou o tempo gasto a ver televisão, então, aí sim, os likes são a validação da cena, o barómetro de um contínuo primetime.

Mas, mais uma vez, se pergunta: serão representativos da tua vida? Aquela carantonha parva que fizeste, embora tenha tido muito mais likes, é mais importante do que a tua foto de fim de curso onde apareces com um ar muito solene? Ok, se calhar fica-se aqui num meio termo e a resposta mais correcta será dizer que depende das intenções de cada um. Procuras o like a todo o custo? Então o que o Facebook fez foi, precisamente, passar-te e mão pelo pêlo. E acertou na mouche.

Mas, para outros, ficou uma coisa estranha no ar. Como aquela vez em que a empresa operadora de telemóveis te meteu uma música nas chamadas sem te perguntar nada, mas que eles acharam que seria altamente, ou quando um disco dos U2 foi parar à biblioteca de música das compras do iTunes sem o teres pedido. A sensação que fica, perante essas polémicas que causaram a fúria de muitos consumidores, é que a malta até gosta de ser enganada, mas tem de ser com jeitinho.

A série Black Mirror também se tem debruçado sobre essa temática. Guy Debord continua presente, quando se pensa nos comportamentos e nos benefícios simbólicos que se esperam obter consoante determinado procedimento, neste caso, online. Na opinião do autor francês, já na sua época, a teatralidade e a representação tinham tomado conta da sociedade. O que se verifica até hoje.

Nada de muito novo, portanto. E, quem se opõe ao satus quo, pode sofrer as consequências. Edward Snowden encaixa, perante certos olhos, na narrativa do típico traidor. Só que, neste admirável mundo novo, já não há espiões de gabardine cinzenta, mas sim toda uma deep web para navegar e códigos e encriptações para contornar. "Não vou fazer descolar aviões para apanhar um hacker de 29 anos", desvalorizou Obama na altura, após as revelações do antigo operacional da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Depois, foi o que se viu. A realpolitik depende, cada vez mais, da tecnologia, como se pode verificar em séries de investigação como Cyberwar [do nosso canal de televisão VICELAND].


Vê o primeiro episódio de "Cyberwar"


A propósito do balanço de 2016, sendo a palavra do ano, "pós-verdade", a nível social, importa voltar a falar de Adam Curtis e da sua obra documental, HyperNormalisation. Lá, fala-se da questão da simplificação e da infantilização. Tu fazes porque és mau, eu faço igual a ti, mas é para o bem. Eu posso e tu não.

Toma como exemplos, a inexistência de armas de destruição maciça no Iraque, as aproximações e recuos nas relações com Kadafi, as mentiras sobre o Brexit, o apelo emocional e pouco racional de Trump, ou mesmo o antigo Secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, que foi responsável por bombardeamentos no Camboja, apoiou ditaduras na América Latina, entre outras tropelias.

Mas, este olhar antropológico, social ou político do Mundo, não pode servir apenas para a contemplação, para o encolher de ombros, como quem diz: "É a vida!". Também não se trata de romantizar a falta de escrúpulos, há sempre lugar para denunciar a estupidez humana, que é infinita.

Quem nunca se engana e raramente tem dúvidas, será sempre de desconfiar. Um cretino será sempre um cretino, um mentiroso não passará disso mesmo e um manipulador será o idiota útil de sempre. Estes assuntos estão, finalmente, a sair do gueto da conversa de café (convenientemente lá colocados a quem não interessa que se discuta) e estão a ser levados a sério. A realidade assim o obriga.

Enquanto isso, mesmo nas poucas coisas boas que aconteceram, ninguém manda o Guterres ser empossado na ONU a uma segunda-feira, logo depois de um fim-de-semana de Benfica-Sporting. Se as incidências do derby renderam milhares de likes e comentários entre ambas as partes em confronto directo, nesse particular, na verdade, nenhuma delas lucrou com isso. Só uma terceira parte: o Facebook. Como sempre.


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