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Desporto

O Rebelo fez tudo pelo Estrela da Amadora e no final levou um chuto

Uma vida dentro das quatro linhas. Sem deslumbramentos.

Poucos se lembrarão dele, mas o Rebelo foi uma das maiores referências do Estrela da Amadora. Idolatrado pela massa adepta e desprezado pelos dirigentes do clube, retirou-se aos 40 anos (podia ter sido mais tarde), 13 deles passados na primeira divisão — no último ano já era mais velho do que o próprio treinador. Como todos os futebolistas, gosta de falar na terceira pessoa. Garante que o Rebelo nunca foi um jogador “por aí além”, mesmo tendo sido treinado pelos grandes (na altura não tão grandes) Jorge Jesus, Fernando Santos ou Jesualdo Ferreira (todos campeões nacionais). Nunca se deslumbrou. Para ele, dar tudo em campo sempre foi o mais importante. Levei-o até ao campo do Vitória Clube de Lisboa, onde deu os primeiros toques, para sabermos como é a vida de um jogador comum que teve “a sorte” de chegar à primeira liga e de ganhar uma Taça de Portugal. VICE: Há quanto tempo não vinhas aqui?
Rebelo: Há há 20 e tal, 30 e tal anos. Que recordações te traz este campo?
Recordações da minha infância. Da escola primária via o campo e pensava que também queria jogar. O meu primeiro ano foi no Águias do Alto Pina, como juvenil, e o segundo foi no Vitória de Lisboa, como júnior. Recordações muito felizes. Como eram os treinos antigamente?
Antigamente, os treinadores não tinham a qualidade que têm hoje. Como eu sempre treinei do lado de lá, na Margem Sul, os nossos treinos eram na praia. Não havia esquemas tácticos. Hoje, com um bom treinador, evoluis para caraças. Fala-me sobre o início da tua carreira.
Comecei na Trafaria, depois fui para os Pescadores da Costa da Caparica, passei por Almada e depois pelo Sacavenense. Estive dois anos em cada clube e 14 anos no Estrela da Amadora. Como é que foste lá parar?
Fui por causa do Joaquim Meirim, na altura treinador do Estrela, que tinha sido meu treinador na temporada anterior no Sacavenense. Foi o Joaquim Meirim que me levou para o Estrela da Amadora e foi com ele que fomos campeões e subimos de divisão. Quem verdadeiramente pegou no Rebelo e acreditou que o Rebelo podia ser profissional, foi ele. Aqui, eu tive o que muita gente não tem, tive alguém que acreditou em mim, que viu potencial em mim. E a subida de divisão?
Foi uma grande festa. O Estrela da Amadora era um clube histórico. Era um clube onde passavam muitos craques. O Jorge Jesus passou lá. O Rui Lopes, o Palhares também. Para quem nunca imaginou chegar à primeira divisão, foi uma coisa impensável, um sonho. Nunca me passou pela cabeça que um dia jogaria na primeira divisão. Lembras-te do teu primeiro jogo na primeira divisão?
Lembro. Foi com o Braga. Mas é curioso porque não me puseram logo a jogar quando começou o campeonato. Na segunda divisão o campeonato alongou-se para saber quem era o campeão, ou seja, quem jogou nessa equipa teve férias mais curtas. Quando chego, o treinador era o João Alves, o “luvas pretas”. Para mim, foi o melhor treinador a pôr as equipas a jogar. Era fantástico, fabuloso. Nem Jesus, nem Jesualdo, nem nada. Esse ano foi o primeiro ano do Alves e ele veio com as manias do futebol inglês. Trouxe uma cassete de treinos e não sei que mais, aquilo foi de rebentar. Eu e alguns outros jogadores, como tivemos um período pequeno de descanso começámos logo na pré-época a sentir umas dores nos joelhos. Pá, depois fiz análises, mas só no final é que percebi que a falta de descanso inflamou-me os tendões. Pronto, não comecei a época a jogar e o Estrela começou a perder. Coincidência ou não, quando comecei a jogar as coisas correram melhor. E começaste a jogar a médio, mas acabaste a central.
Pá, eu jogava a todas as posições. Com o Alves só não joguei a guarda-redes — podes escrever isso à vontade. A posição onde eu mais joguei até aos meus trinta e poucos foi no meio-campo. Raramente jogava à defesa, era mais médio direito, médio centro. Defesa-direito e defesa-esquerdo quando era preciso. Repara, as minhas melhores épocas foram dos 35 para cima, o que também coincidiu com o estabilizar de uma posição, que era a que mais gostava e nunca tive. Só com o Fernando Santos é que estabilizei a central. Mas também nunca brilhei. Como é óbvio, não podes brilhar em todas as posições. Há sempre a tendência para te queixares de algumas coisas, mas e aqueles gajos que são melhores que tu e que andam aí pelos pelados? Um gajo começa logo a pensar “sou um felizardo”. Era esse o pensamento que eu tinha de ter, percebes? Isso quer dizer que, para ti, não faz sentido que um jogador se recuse a jogar em determinada posição.
Não. Tu nunca podes dizer a um treinador que não queres jogar. Pá, só se tiveres a perna partida é que não jogas. Sabes porquê? Porque pode acontecer que o gajo que te vai substituir faça o jogo da vida dele, agarra o lugar e nunca mais o larga… E tu já foste. Vi isso acontecer muitas vezes na minha carreira. Recordo-me de um jogo do Porto em que na véspera estava a tomar injecções e, para mim, estar lesionado ou não poder jogar… Ficavas chateado.
Qual chateado, era uma doença! Era uma doença. Era terrível para mim. Felizmente, na minha carreira, tive muito pouco tempo sem jogar. E isso deve-se muito à minha atitude. Sempre levaste uma vida regrada?
Muito, muito. Mas não tem que ver com o futebol. Sempre fui assim. Claro que não sou nenhum anjinho, mas sei os limites. Tirando isso, precisas de estar no clube certo, rodeado das pessoas certas. “Pessoas certas” significa empresários?
Nunca tive empresários. Não posso dizer isso. Antigamente não havia empresários, havia emissários. Eram os dirigentes que te contactavam. Pensavas jogar até aos 40?
Não. Eu sempre pensei “quando acabar, acabou”. O importante sempre foi o presente. O importante é que eu esteja bem hoje. Há muita malta que relaxa. Eu, que sempre tinha estado nos clubes secundários, segundas e terceiras divisões, quando cheguei à primeira dei muito valor ao facto de estar onde estava. Como foram os primeiros momentos na primeira divisão?
Quando lá cheguei, a primeira coisa que pensei “isto é que é fácil”. A sério?
Sim. Nunca fui um jogador por aí além, mas aprendi rapidamente como isto era. E tu tens de conhecer as tuas limitações. Deves aproveitar as qualidades que tens para jogar para a equipa. Eu, no fundo, era um jogador de equipa. Sempre fui um jogador que jogou em várias posições e isso é algo que todos os treinadores gostam. Para ti, jogador, pode não ser benéfico porque acabas por não brilhar, mas dá-te a garantia de seres sempre uma alternativa. Rapidamente pensei: “Se quero isto, tenho de trabalhar. Tenho de ser bom profissional e levar isto a sério.” É mais fácil jogares ao lado de jogadores melhores?
Nem se compara. E jogar em relvados? Que diferença. Eu nunca tinha jogado em relvado, quando joguei pela primeira vez fiquei impressionado. Além disso, jogares como profissional não te obriga a ter outro emprego. Mas eu nunca tive medo do trabalho, ao contrário de alguns colegas que tinham uns pés fabulosos. Eu até corria por eles. Mas por outro lado não deve ter sido fácil apanhar jogadores como o Figo, o João Pinto ou o Jardel.
É precisamente o contrário: esses jogos são os mais fáceis. Porquê?
Pá, se o João Pinto passasse por ti achas que alguém dizia alguma coisa? Agora se tu lhe tirares a bola e o marcares bem, a seguir todos falam de ti. Tive muitos comentários desses. Por isso é que as equipas pequenas têm sempre a ganhar com os grandes. Sou do tempo em que ir ao Estádio de Alvalade e perder por poucos era um bom resultado. Hoje isso já não existe. Hoje os grandes têm de jogar bem. O treino e a base é a mesma. O que o Jesus fazia connosco foi fazer no Braga, no Benfica. Nunca te iludiste?
Não. Quando dizem que se ganham milhões é tudo mentira. E hoje em dia, pior ainda. Um jogador de primeira divisão pode ganhar três ordenados mínimos, 1500 euros. Não é nada por aí além. Ainda se te dissessem que era para a vida inteira, mas não, podem ser sete, oito, nove, dez anos. Mas na primeira divisão não tens muitos jogadores a ganharem tão pouco, pois não?
Há muitos. Hoje em dia há muitos. Quando recebem! Hoje em dia já não há aquela segurança que normalmente a pessoa tem quando sabe que vai receber ao fim do mês. Em algum momento sentiste que podias ter chegado a um dos três grandes?
Quando era novo, houve um emissário que me levou a treinar no Sporting. As coisas estavam encaminhadas, mas depois recebi uma carta para me apresentar na tropa. Isto podia ter mudado a minha vida para melhor, ou para pior. Não se sabe. Mas tive de ficar na tropa um ano e meio na Figueira da Foz. Ia para a tropa, à noite ia treinar à Naval e ao fim-de-semana ia jogar pelo Costa da Caparica. Num desses fins-de-semana apareceu o Estrela. Mas ainda estive na dúvida porque, na altura, era tarefeiro no Ministério do Trabalho — mas sabia que ia ficar efectivo. Ainda tive a treinar um mês no Estrela e a trabalhar. Chegou uma altura em que tive de escolher e escolhi o futebol. Foi uma escolha acertada. O momento mais alto da tua carreira foi quando subiste com o Estrela à primeira divisão ou quando ganhaste a Taça de Portugal em 1989/90?
A Taça de Portugal. Não sei se foi mais importante para o clube, mas eu senti que foi um momento grandioso. Talvez porque uma equipa secundária dificilmente ganha uma Taça de Portugal. Na altura foi uma festa terrível. Foste tu a levantar o caneco?
Não era ainda o capitão, era o Duílio. Nessa altura tinhas que idade?
Era velho, 29. Quer dizer…
Mas isto acho que devias escrever: continua a existir um preconceito grande. É daquelas coisas que me deixa confuso. Como é que os nossos dirigentes acham que um jogador aos 30 anos é velho? O jogador aos 30 não tem o mesmo valor de mercado que um miúdo de 20.
Pá, não. Está instituído e depois ninguém pega em ti. Vou-te dar um exemplo que foi a situação mais triste pela qual passei. Quando o Estrela foi às competições europeias, desceu de divisão. Nesse ano, tivemos uma dupla de treinadores, o Manuel Fernandes e José Mourinho, que era o nosso preparador físico. Toda a gente se preocupou com as competições europeias e descemos de divisão. No ano a seguir regressou o Alves e voltámos a subir. Fizeram uma limpeza no balneário e o Rebelo foi mandado embora aos 34 anos. Ficaste desempregado?
Sim. Com 34 anos e com um filho pequeno. E depois, como foi?
Dispensaram-me e tive de ir à minha vida. Não tinha empresário nem nada, tive de esperar. Sofri muito na pele estes 30 e tal anos. Foram as piores férias da minha vida. Na altura comecei a treinar sozinho para não perder o ritmo, mas isso é coisa de uma semana porque depois aborreces-te. Comecei a bater às portas dos clubes para me deixarem treinar e todas as portas se fecharam. Foi terrível, nem queria acreditar. Não deitei a toalha ao chão e passei pelo Estoril. Foi o Fernando Santos que me deixou treinar. Fiquei com uma excelente impressão do Fernando Santos. O gajo abriu-me as portas como se me conhecesse ou como se fosse jogador dele. E o Estrela como ficou?
A pré-época e a época não foram muito famosas. Começa o campeonato e começam a perder. E o Alves é daqueles treinadores inconstantes. Quando uma coisa não está bem, fica doente. Na altura houve alguém que lhe disse: “Pá, mandaste o Rebelo embora! Era um jogador que te fazia as posições todas.” Ele lá se lembrou e mandou que me viessem buscar. Ligaram-me a dizer que o Alves me queria de volta. Com 30 e tal anos ia dizer que não? Mas se soubesse o que me ia acontecer, talvez tivesse dito. Então, o que aconteceu?
Quando cheguei ao Estrela puseram-me logo a jogar com a braçadeira de capitão num particular qualquer. Como se não tivesse acontecido nada. Já era da casa… Entretanto, começa a semana e precisava de ser inscrito e de assinar contrato. Fui falar com a direcção que disse que não sabia de nada e que não me tinham chamado. Fui apanhado no meio de uma guerra entre a direcção e o treinador. Ele mandou vir o Rebelo à revelia! Fui falar com o Alves e ele interrompe logo o treino. Como acabou isso?
Para amenizar as coisas, o treinador disse para me fazerem uma proposta. E então foi-me feita uma daquelas propostas para eu recusar. Foi-me proposto um ordenado 60 por cento inferior ao que eu ganhava uns meses antes. E já tinha de casa seis, sete anos. Uma falta de respeito, portanto.
A minha raiva agora é a mesma de antigamente. Se não tivesse o meu filho, não aceitava. Mas não podia voltar atrás. Já me tinha despedido da malta do Estoril e tudo. Era isso ou acabar a carreira. A partir daí era o Rebelo e mais dez. Nunca renovaram?
Renovaram sempre. Mas nunca te aumentaram o salário.
Nunca mais. E como é que saíste do Estrela?
Essa foi escandalosa. Todos os anos era a história do “pá, Rebelo, és um gajo mais velho, agora vêm reforços novos e tal”. Eu jogava 30 jogos, mas quando era para renovar já era velho. No último ano, o Matine, que era o treinador dos guarda-redes, teve uma proposta para ir para Moçambique e o senhor Marcos Pedrosa, chefe do departamento de futebol, chegou ao pé de mim e disse “vais deixar de jogar, vais para o lugar do Matine”. Achei isso um bocado esquisito, deixar de jogar para fazer não se sabe bem o quê. Disse-lhe logo: “Se me quer mandar embora é como jogador, no final da época mande-me embora.” E foi o que aconteceu.
Pois. Foi uma conversa de cinco minutos para mandar embora um jogador que esteve lá 14 anos. Tiveste algum agradecimento público?
Deram-me uma placa num dos últimos jogos. Mas se queres que te diga, nem liguei. Correram contigo, foi isso?
Correram comigo. Viram que era querido pela massa adepta, que podia trazer problemas, e correram comigo. Deles não tive nada. Hoje sinto que o Estrela podia não ter acabado. Nos últimos anos a equipa cresceu muito. A nível técnico tornou-se profissional, a nível de dirigentes era um clube de amadores. O que gostarias de ter feito?
Quando estás mais de dez anos num clube, esperas sempre assumir outras funções. O meu sonho era ter um cargo com alguma decisão — director desportivo, secretário técnico, tanto faz. É preciso alguém que faça a ponte entre o treinador e a direcção, para que os primeiros não mandem e disponham e os segundos não tragam jogadores pernetas. Podias ter continuado a jogar?
Eu fazia 30 jogos por época. Podia ter continuado a jogar. Eles é que não quiseram. O Estrela continua a ser o teu clube?
[Pausa] É o meu clube. Fotografia por Nuno Barroso