
Too Good / Rush / AWDR / LR2
9/10 Sempre à margem dos fenómenos e dos ciclos mais ou menos fabricados, Tommy Guerrero já dedicou mais de dez anos à criação de beats carregadíssimos de groove e geralmente acompanhados por uma guitarra que soa como se estivesse a morar na rua há cinco dias. Bem vistas as coisas, o skater lendário da Bones Brigade será mais conhecido pelos vídeos em que tem uma tábua debaixo dos pés do que pela música que compõe. Mesmo assim, não é isso que impede Guerrero de ser um cientista de beats tão incansável e iluminado como um J Dilla ou tão capaz de reproduzir o ambiente sonoro da Califórnia como os Sublime. O mesmo não significa que a marca rítmica de Tommy Guerrero se assemelhe a qualquer um desses nomes sagrados. Não é isso que acontece, de facto. Tommy Guerrero joga num campeonato à parte: qualquer um dos seus melhores beats não entra num café apenas para comprar um pacote de pistachos — entra num café para mostrar como se come pistachos e que foi isso que fez toda a vida. O Beat Guerrero não é especialmente universal ou fácil de digerir, mas revela toda a convicção de um tipo que tem feito as coisas à sua maneira há mais tempo do que duram muitas bandas. No Man’s Land, o sétimo álbum do mito de São Francisco, é um guia actualizado de “como comer pistachos e montar beats”: recuperando alguma da névoa sinistra do excelente Living Dirt (2010), e acrescentando-lhe um cheirinho de Spaghetti Western (e um orgão Farfisa), este conjunto de música super-natural está em perfeita sintonia com o que deve ser o disco para quem desliza numa tábua, em 2012, como a banda-sonora do Kids estava, em 1995. No Man’s Land é um disco do agora e de absoluta usufruição enquanto se escuta. Assim que termina, passa a ser uma experiência difícil de descrever e não ressoa muito na memória, sem que haja qualquer problema nisso. Tommy Guerrero está mais interessado em desenvolver a fluidez do seu processo (e nada aqui parece forçado) do que em lavagens cerebrais melódicas e outras artimanhas da escola Black Eyed Peas. É bem provável que tenha neste No Man’s Land um dos seus melhores discos até à data.