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O Novo Álbum do Anderson Noise É uma Ópera Techno Sci-Fi

Em parceria com o designer Martielo Toledo, o DJ lança ‘SCI-FI Punk Projects’, HQ para a qual fez uma trilha sonora que você escuta primeiro aqui.

O DJ e produtor Anderson Noise e o designer Martielo Toledo lançam mundialmente no próximo dia 7 de abril a parceria criativa SCI-FI Punk Projects, uma graphic novel que tem roteiro e criação assinada pelo Martielo e trilha sonora composta pelo Noise. A HQ será lançada no Brasil pela editora Devir, enquanto a trilha chega em CD e formato digital pela Noise Music. A trama tem início na década de 1970, quando a NASA descobre estranhas formações na superfície de Marte. A Viking 1, primeira sonda enviada pelo homem, fotografa uma espécie de esfinge que reproduz um rosto humano na superfície do planeta vermelho.

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Então a história vai se desenrolando e as descobertas revelam um grande perigo para a vida na Terra, trazendo à tona a cultura xamanista e uma estética inspirada no punk. Os protagonistas da série, El Rostro de Cydonia, Phobos, Deimos, Scorpions King e Cowboy Punk são heróis mascarados que lutam contra a Transmutação Caveira, que ameaça extinguir a raça humana. Em sincronia com o roteiro, Anderson Noise produziu ambiências densas e texturas intrigantes para dar a atmosfera retro-futurista-blank-generation ideal que envolve o leitor.

As faixas levam nomes que remetem às simbologias contidas nos capítulos da saga, como "Martian Secret Society" e "The Lost World of Z". "Your Mind Is A Battleground", por exemplo, trata da campanha que os heróis usam para alertar a humanidade sobre os perigos iminentes da extinção em massa.

Escute o streaming do álbum na íntegra e acompanhe a entrevista que fizemos com a dupla. Na conversa, eles dão mais detalhes sobre o desenvolvimento da ambiciosa saga.

THUMP: Noise, essa é a primeira vez que você pega um projeto conceitual como este para musicar?
Anderson Noise: Eu já produzi trilhas para desfiles, teatro e também fiz várias colaborações, entre outras coisas, produzindo espetáculo com o maestro João Carlos Martins e a Orquestra Filarmônica Bachiana. Também já toquei com Jacob Bro Trio, uma banda incrível de jazz dinamarquesa, mas diria que o SCI-FI Punk Projects é o maior trabalho autoral colaborativo que já produzi até hoje. São 15 faixas ao todo e um processo criativo que vem se desenrolando ao longo de dois anos.

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O enredo da HQ SCI-FI Punk Projects é uma story line bem soturna e até desesperançosa com o futuro. Por conta disso, houve a preocupação de sua parte em compor melodias e beats mais densos e mundanos? Como foi o seu mergulho na vibe da história?
Noise: Sim, quando comecei a produzir o álbum eu já queria incorporar melodias e beats mais densos do que o normal, embora já encontrasse um pouco disso no techno. Acho que "Madame Blavatsky" e "Melquisedec" são essas melodias intergalácticas que imaginei, e "Your Mind is a Battleground" é bem esse beat denso. Não tive muitas regras para mergulhar na história do SCI-FI Punk Projects. Quis experimentar mais com os climas e as texturas na hora de desenhar os interlúdios, para também dar espaço a outras faixas que levassem o teor da trama junto com minha assinatura e da Noise Music para as pistas de dança.

No que este primeiro volume da série se difere do seu trabalho atual?
Noise: Quem vem acompanhando o meu trabalho vai poder notar algumas nuances e dissonâncias diferentes, embora a fusão de linguagens tenha se dado naturalmente no estúdio. Tudo que eu pensava para um roteiro de ficção científica se encaixava super bem com os timbres e as texturas que eu já usava em algumas músicas fortes que discoteco. Tipo, "The Lost World of Z" é, sem dúvida, a cara do meu trabalho atual de pista.

Existem outras experiências techno por aí que remontam a essa ideia de trilha de uma jornada intergaláctica ou mesmo de uma ópera-techno, tipo o Supermayer Save The World, para citar um exemplo mais ou menos recente. Você se baseou ou chegou a pesquisar investidas musicais precedentes nesse campo antes de começar a trabalhar na sua trilha?
Noise: Eu bebi e venho provando de várias fontes para poder manter meu case e a Noise Music sempre atualizados. Venho pesquisando e já absorvendo a cultura do techno há mais de 20 anos e, nesse caminho, já pude visitar e escutar, por exemplo, a escola de Detroit, que fornece grandes discos e timbres sci-fi desde a metade dos anos 1980. O processo aqui foi natural e acredito que foi uma soma de tudo o que eu escuto e toco. Não olhei tanto para o lado de fora. Abracei meu synth, li o livro várias vezes e escolhi os principais elementos da narrativa ou dos personagens que seriam destacados.

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No CD vem impresso "Volume 1". Isso significa que trata-se de uma série, então? Quantos outros volumes estão pautados pela frente e qual vai ser a tônica/abordagem dos próximos?
Noise: Podem esperar pelos próximos lançamentos de SCI-FI Punk Projects nas prateleiras das livrarias e também nas pistas de dança. Os próximos dois volumes da trilogia não têm data definida, mas espero que comece logo. Dessa vez, participarei desde o início com o Martielo, desde as primeiras ideias, de modo a acompanhar seu processo criativo. Já estou ansioso!

Noise e Martielo.

THUMP: Martielo, o que veio primeiro nessa saga toda do SCI-FI Punk Projects, a estética ou a história que está registrada nesta graphic novel?
Martielo Toledo: A estética veio primeiro. Idealizei o livro dividido em duas partes justamente para mostrar isso ao leitor. Enquanto de um lado do livro está a HQ, do outro montei um dossiê, no qual registro a evolução do meu trabalho de moda, que deu origem à estética SCI-FI Punk. Formatei assim meus desfiles e coleções (de 1997 a 2006), trabalhos dos quais nasceram os personagens e logos que estamparam t-shirts, entre diversos outros produtos que comercializei em lojas como a Harvey Nichols, em Londres, e a Ready Steady Go, em Tóquio. Esse contato com os japoneses me despertou para o potencial pop dos personagens e a necessidade de dar vida à saga, transformando-a finalmente numa HQ.

O que há de tão fascinante nos diversos elementos que deram forma a esse projeto para que você o desenrolasse por 12 anos e o desdobrasse em diversas mídias?
Martielo: A construção de uma saga autoral e independente sempre foi meu sonho de vida… Sou um designer inquieto, curioso e destemido, e isso gera um isolamento temporário que demanda pesquisas, leituras, interpretações de desejos próprios ou coletivos. Esse primeiro volume da saga foi com certeza o laboratório experimental que comecei praticamente do zero: roteirizei, criei uma narrativa para os personagens, ilustrei e dirigi um projeto que demandou uma equipe de sete pessoas. Isso levou um tempo para sair do papel e virar verdade, mesmo depois de conseguir uma editora especializada no assunto, no caso a Devir. O videoclipe e a música-tema foram criados em 2013 como uma ação de lançamento para o livro em São Paulo, na galeria do Cartel 011, onde montei ainda uma exposição com os figurinos, máscaras, bonecos e ambientações que compõem a atmosfera da saga. Essa exposição está atualmente em cartaz em Belo Horizonte, no Centro de Referência da Moda, até o dia 24 de abril.

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Quais são as referências, filosóficas, ideológicas, narrativas, imagéticas, que te atraíram para este universo de uma ficção científica que nos remete a um futuro dominado pelo medo e o terror?
Martielo: O medo e o terror são os maiores inimigos na jornada evolutiva da humanidade… da Caverna de Platão aos ataques ao World trade Center. Nesse futuro-retrô, vejo que as angústias humanas continuarão existindo e alimentando forças opostas de trevas e luz, niilismo e júbilo, ódio e amor. Construí essa ficção científica narrando um mundo sombrio, onde os avanços tecnológicos coexistem com a busca por respostas no sobrenatural e curas em antigos rituais místicos. Já a estética punk, usei para criar os personagens e dar à graphic novel um ar de fanzine, com colagens e pôsteres que nos remetem a bandas dos anos 70 como Sex Pistols, Ramones, The Clash e Misfits. Esse universo punk, que celebra o caos e a desilusão, me inspirou a criar um mundo apocalíptico.

Como rolou essa conexão criativa entre você e o Anderson Noise? Vocês se conhecem de longa-data? Rola uma identificação especial com o trabalho e a música dele?
Martielo: Eu e o Noise somos amigos desde que me mudei para BH, em 1988. Construímos nossas carreiras simultaneamente nos anos 90; eu o ajudava produzindo suas fotos e vídeos, ele, por sua vez, produzia as trilhas para os meus desfiles. Fico super orgulhoso de poder ter vivido e acompanhado de perto a evolução do trabalho dele. Sou fã!

O Volume 1 da HQ data de 2013, mas o primeiro volume da trilha é de 2015. Por que esse gap? Os volumes todos serão relançados com o CD encartado? Quantos volumes compõem a série completa?
Martielo: Desde o início, a minha ideia era que a HQ fosse uma plataforma que me permitisse desenvolver trabalhos interdisciplinares, seja na música, no vídeo ou nas artes plásticas. A ideia de ter uma trilha completa surgiu logo depois que finalizamos a música-tema para o lançamento do volume 1 da Graphic Novel. Foi tão fascinante esse processo criativo com o Noise, que decidimos que faremos um novo CD encartado em cada novo livro a ser lançado. A saga completa será composta por três volumes.

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