O Fluxo do Dia do Trabalhador no Único Parque do Último Bairro da Zona Norte de SP
Felipe Paiva/R.U.A

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O Fluxo do Dia do Trabalhador no Único Parque do Último Bairro da Zona Norte de SP

Teve uísque, Red Bull, curtição e pouca consciência de classe no Jardim Damasceno, onde 70% dos moradores ganham menos de dois salários mínimos.

À margem da Serra da Cantareira, está um dos últimos bairros da Zona Norte de São Paulo, o Jardim Damasceno. De um lado, um morro com casinhas a perder de vista. Do outro, só mato. E bem no meio dessa comunidade com cerca de 20 mil habitantes, o Parque Linear Canivete é um um dos poucos lugares de curtição para os moradores da região. Muitas das ruas tortas dos arredores do bairro abrigam favelas e a situação econômica das pessoas que moram lá é, em geral, de pobreza. Isso fica claro com os números do Censo de 2010 que apontam: mais de 70% da geral do bairro ganha no máximo dois salários mínimos. Foi nesse cenário que rolou no último dia 1º de maio uma festa em comemoração ao Dia do Trabalhador.

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Quão legal é o fluxo legal?

O evento, que foi divulgado na página de Facebook do Fluxo Das quebradas ZN, estava marcado para as 15h e teria vários shows, que começariam por volta das 18h. Apesar de ter o apoio da Subprefeitura Freguesia do ?"/Brasilândia com uma das atrações da Virada Cultural na Quebrada, a festa foi pensada e organizada pelo Nego, apresentado à nossa reportagem como líder da comunidade - não quiseram nos dizer seu nome, "chama de Nego mesmo", avisaram. As atrações esperadas para a festa variavam do pagode ao funk. Inicialmente, oito MCs estavam confirmados para cantar nesse primeiro de maio. Trocamos ideia com a rapaziada que foi ao parque curtir procurando saber o que a data significava para eles.

Logo no começo do rolê, o pessoal que estava trabalhando na organização foi bem enfático ao dizer que dificilmente ele falaria com a imprensa ou tiraria foto. As vezes em que ele apareceu durante o evento, o vimos ou circulando com suas correntes douradas de todos os tamanhos possíveis no pescoço e cumprimentando meio mundo, ou no palco dando uma pá de recados pra galera: curtir de boa sem causar tumulto e andar pelo caminho certo. "Se você tiver bebido demais e quiser se meter em alguma briga, vai pra casa. Não vai estragar o rolê dos outros, beleza?", avisava ele.

Durante a festa, Danilo - que não quis dizer seu sobrenome e nem tirar foto "porque não deveria estar ali -, disse ao THUMP que tinha ido ao Jardim Damasceno com seus parças lá da Zona Leste para curtir o feriado. Conversa vem, conversa vai, o rapaz mandou o papo que tinha faltado no trabalho de segurança, em que não tinha registro na carteira para colar no pico e por isso não seria legal se soubessem que ele estava por lá. "Eu nem avisei pros meus patrões, trabalho lá faz tempo então eles não vão me mandar embora por causa disso". Na mesa de Danilo e seus parças, vimos a combinação mais requisitada da noite: uísque Red Label (que custava R$ 100 nas barracas) e energético.

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Na quadra ao lado do Parque Linear Canivete foi montado um espaço com cama elástica e pula-pula pra molecadinha curtir também. O papo recorrente entre os moradores locais era que esses eventos na praça, os fluxos e churrascão nas ruas do bairro eram basicamente os únicos meios de diversão dessa rapaziada. Até 2010, a situação era mais precária ainda - foi só nesse ano que a prefeitura construiu o parque, o único do bairro.

Ouça a trilha do documentário "No Fluxo"

Sentada na arquibancada da quadra, enquanto cuidava de pelo menos umas cinco crianças, uma torcedora fanática do Palmeiras com várias tatuagens que vestia uma calça coladinha vermelha contou que veio para São Paulo há 20 anos e, desde então, trampou como babá de várias crianças dos bairros mais ricos da cidade. "Já trabalhei para coreano, boliviano e todos os meus patrões eram incríveis, sempre fui muito bem tratada", disse Andréa Malta. Carteira assinada? "Sim, sempre". Ela parecia ser uma exceção naquele lugar, já que sua cunhada, por exemplo, disse não ter um emprego, apenas cuidar da casa. O marido da cunhada de Andréa é outro exemplo, ele trabalha como pedreiro, mas sem carteira assinada. Naquele dia, a palmeirense e sua cunhada nos disseram ter ido ao parque apenas para passear com os filhos e sobrinhos e conversar.

A noite foi caindo e a molecada chegando em peso. Nem mesmo o tempo gelado impediu o rolê de esquentar. Nessa hora, um dos apresentadores do evento que insistia em imitar a voz do Silvio Santos gritou do palco: "Quem aqui gosta do Livinho?". Não precisou de mais nada pra molecada ir ao delírio, na esperança de uma atração surpresa. "Ele não vem aqui hoje não, mas o DJ vai tocar pra vocês!". Houve um silêncio de decepção na hora, mas logo em seguida todo mundo já tinha esquecido e voltado a dançar.

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Mariana é a primeira da esquerda para direita e está em busca de emprego.

Num dos bancos da praça, sentada junto aos seus amigos, estava a Mariana Vasquez, 17, que disse estar à procura de emprego há um tempo, mas seguia desempregada. "Eu até conseguiria trabalho no Mc'Donalds, mas eu não queria essa vida, é muita exploração e o salário é ruim", afirmou ela que quer achar um trampo na área de recepcionista ou em algum cabeleireiro. Os outros três amigos que estavam com ela disseram estar empregados - mais uma vez nenhum deles tinha carteira assinada.

O retrato dos trabalhadores presentes nesse dia é muito parecido com os dados fornecidos pelo IBGE. Em 2010, a área que abriga o bairro Jardim Damasceno tinha somente 29% da população trabalhando com carteira assinada e um pouco mais de 30% dos moradores afirmou não ter nenhum rendimento. Num panorama mais geral, o número de pessoas que trabalhavam com carteira assinada não passava de um terço da população total da cidade de São Paulo.

As primeiras bandas que subiram ao palco naquele dia em comemoração ao Dia do Trabalhador, eram as de pagode e rap. O funk mesmo só começou depois das 20h. Apesar de a rapaziada estar em peso por lá, ninguém pareceu estar muito interessado nos shows do início, já que todo mundo aproveitou esse tempinho para ficar sentado nos bancos papeando e bebendo. A grande maioria das pessoas com quem conversei, principalmente os grupos mais jovens, disse estar esperando mesmo pela entrada dos MCs.

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Somente por volta das 22h, o primeiro MC da noite, o Bruxo, subiu ao palco. No momento em que o MC pisou na tenda feita de "camarim", pipocaram dezenas de crianças e adolescentes frenéticos para conseguir tirar pelo menos uma selfie com o ídolo. Aos seus 26 anos de idade, Bruxo atendia a todos com a maior paciência do mundo e ainda dava umas broncas em quem tentava furar a fila para tirar foto. Consegui exatos dois minutos para bater um papo com ele, tempo suficiente para ser engolida pela multidão ao redor dele. Nascido na Brasilândia, outro bairro da Zona Norte, o cantor contou que seu crescimento no funk o ajudou a deixar a "vida errada" e ter foco. "Tenho em mente que o funk pode acabar, mas no momento foi o que mudou minha vida para melhor. Não é só pelo dinheiro que eu estou no funk, tem várias coisas que aconteceram e são muito gratificantes, coisas que o dinheiro não pode pagar."

O que rolou em seguida são relatos dados pelo Supervisor de Cultura da Subprefeitura e um dos organizadores do evento, Luis Tadeu Eugenio - eu e o fotógrafo Felipe Paiva tivemos que vazar mais cedo do rolê, porque nos avisaram que nenhum taxista estava buscando passageiros na região, por por conta de um motorista que havia sido assassinado no bairro há menos de uma semana.

Segundo Tadeu, por volta das 23h, quando o MC Pedrinho terminou de cantar sua primeira música, uma viatura da PM estacionou na avenida que passa em cima da praça do evento, apagou as luzes do carro e foram lançadas bombas de efeito moral na galera. "Na hora da correria, estouraram o cabeamento e ficamos sem energia no palco. Colocamos então o fluxo na via do lado de fora da praça e eu deixei o pessoal ficar até 5h por lá, apesar de o combinado ser que o evento terminaria às 2h." De acordo com a Subprefeitura, passaram pela praça durante o decorrer da festa mais de 10 mil pessoas.

No final das contas, geral parecia não se comover muito com o contexto da data. Dia dos Trabalhadores não significava lá muita coisa para aquele pessoal. Acompanhada de uma breve folga dessa corrida louca que é morar na periferia e trabalhar no centro da cidade de São Paulo, uma folga até que é bem vinda.

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