Encontros e Desencontros: Um Mapa dos Coletivos Brasileiros de Música Eletrônica Independente
Anna Mascarenhas

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Encontros e Desencontros: Um Mapa dos Coletivos Brasileiros de Música Eletrônica Independente

Algumas básicas coordenadas para começar a entender como a complexamente rica fauna de produtores, DJs, VJs e apoiadores da cena em geral faz para existir no Brasil hoje.

Fora do momento de glória em clubinhos escuros, a vida dos produtores de música eletrônica é bem pouco glamorosa. Horas e horas trancados em quartos e estúdios, muitas vezes sozinhos, debruçados sobre sintetizadores, controladores e mais um mundo de equipo. Tudo para fazer um trampo bom demais que você ignora enquanto prefere ouvir a novidade gringa.

Para cumprir o papel de imprensa-formadora-de-opinião™, levantamos uma porrada de nomes espalhados pelo Brasilzão cuja produção merece ser ouvida. É uma galera com tantos pontos de intersecção quanto de dissenso musical, que se organiza de formas variadas para dar vazão a esse trabalho: desde selos e gravadoras, até coletivos, movimentos e encontros com hora e lugar marcados.

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Leia: Saiu a Programação do SP na Rua.

música eletrônica + ritmos baianos

A diversidade de modelos se reflete no resultado, uma gama musical de estilos que engloba de experimentações com drone e ambient a house ensolarado — com muito espaço para a onipresente bass music. Este último gênero, inclusive, é a argamassa que liga um dos movimentos (na acepção clássica do termo) mais bem definidos dessa galera: o Bahia Bass.

Nesse carnaval, a música eletrônica dá liga com ritmos diversos de origem baiana, desde os tradicionais afoxé, samba reggae e batifum até o saudoso pagodão. O Bahia Bass ganhou a voz com o lançamento de coletâneas com produtores de Salvador e do interior do estado organizadas pelo Mauro Telefunksoul, sobre quem você já ouviu uma pá de coisas aqui no THUMP.

Até agora foram duas coletâneas que mostram um pouco da diversidade da produção safada da Bahia, e o Mauro já avisou que o Bahia Bass Vol. 3 está no forno. Além de diversão garantida nas pistas, as influências dessa cena são ótimas para despertar a memória afetiva daquele seu amigo que ainda acha que música eletrônica é só barulho e fazer com que o companheiro abra a cabeça e deixe de ser um cuzão.

Os discos saíram pelo selo Braza Music, do Renato Martins. A Braza é especializada em revelar bons sons feitos no Brasil e olha para todas as direções do país. No catálogo da gravadora também tem álbum do paraense ProEfx e uma coletâneas sobre produtores do Sul, entre outras preciosidades.

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rap + eletrônica

Mas enquanto a coleta da Braza foca numa galera das antigas do Brasil frio, o NAS é um selo baseado no Rio Grande do Sul com apenas pouco mais de um ano de idade. Ideia dos sócios Raoni Moretto e Eduardo Brandalise, a parada gira em torno dos rappers e produtores cariocas DUZ e Filipe Queiroz e dos produtores catarinenses vinolimbo e Castelan — de todos, apenas este último mora em Porto Alegre.

O catálogo de lançamentos variado deixa claro a organização mais ao redor de uma filosofia estética e de atuação cultural do que num universo musical, digamos, restrito. "O nosso lance é movimentar a galera, nós acreditamos na construção de um circuito ativo de música eletrônica e rap" conta Raoni.

O EP Sinergia, do Filipe Queiroz, é uma boa amostra das várias frentes em que a rapaziada ataca. Cada uma das quatro faixas é produzida por um dos titulares da NAS e aparecem influências do rap 90s a chillwave nos sons. Os lançamentos do vinolimbo também chamam atenção com beats desacelarados que caem tão bem numa manhã de ressaca moral quanto na noite em que ela surgiu.

bass + rap

Numa toada parecida com a da NAS, vem a RWND, do Rio de Janeiro. Cria de Fábio Heinz, da Wobble, e João Brentar, da DOOM., a RWND Records é o canal que lança uma rapaziada que alia o melhor das duas festas cariocas: a cultura bass com o rap sagaz. "A gente queria um espaço para mostrar uma galera legal do Rio de Janeiro que está produzindo coisa interessantes, tipo o Aren (com apenas 17 aninhos), que nunca tinha lançado nada. Mas acaba que todo os releases têm alguém de outros lugares do país", conta o Fábio.

Isso ficou claro já nos primeiros lançamentos, uma série de remixes de "Bang Bang", do rapper carioca Marcão Baixada, por Bento, Vegaz, Nectar Gang e o produtor goianio Neguim Beats. O Neguim Beats, aliás, tem sido presença constante nos discos do selo — ele participou junto com o próprio Mr. Brentar da faixa "Higho" do Next of Kin EP, estreia do produtor carioca Kinfolk que saiu pela RWND em julho. De quebra, "Basquiat" parceria sua com o Sants, foi remixada pelo Aren no EP Zero.

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bass + dub + reggae + jazz + reggae + funk

Sants, de batismo Diego Santos, por sua vez, é o nome onipresente da galera. Ele está em todas, trampa junto com todo mundo e lança por diversos canais, mas sua casa é mesmo a Beatwise Recordings. O selo foi fundado pelo próprio produtor junto com o Cesar Pierri, a.k.a. cesrv, e nos últimos anos lançou um catálogo consistente que reflete a correria numa cidade gigante e cinza — o modelo é São Paulo, mas a carapuça serve para a maioria das metrópoles.

Bass music, batidas arrastadas, traços de dub e reggae e samples de jazz e funk compõe o cardápio dessa galera. A maior parte dos produtores — além do Sants e cesrv, Soul One, MJP, Abud, SonoTWS — é paulista. Completam o staff os cariocas Cybass, que adotou São Paulo como casa, e Bento. "Mas o Bento é moleque de internet, vive com a gente online. O que aglutina é mesmo uma identificação pessoal, um jeito de pensar parecido", diz Sants.

Enquanto se consolida com álbuns mais longos e de produção demorada, a Beatwise lançou o sub-selo Zambi Records, espaço para soltar umas coisas diferentes e experimentar. Pela Zambi, já saíram releases do Denso, de Brasília, Jeff, de Camaragibe, em Pernambuco, e Hill-Sax, de São Paulo.

rádio + ruas + bass

Do time da Beatwise, MJP e Soul One são integrantes do coletivo Metanol.fm, verdadeiro juggernaut da cultura urbana que também inclui o Vekr e Akin, além do VJ U-RSO. Criado em 2009, o coletivo foi pioneiro na disseminação de uma música mais híbrida, menos restrita a definições estritas por timbragem ou BPMs.

Leia: "Cinco Anos de Metanol.fm: Sem Medo de Bancar o Caminho mais Difícil"

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Primeiro com a rádio virtual — transmissões da Metanol.fm vão ao ar toda terça à noite — e depois com festas na rua, a Metanol abriu espaço para diversos produtores apresentarem seu trabalho. "A Metanol é reflexo de uma ideologia sem barreiras, o que é essencial para o processo natural de evolução das ideias", diz o Akin, que tem lançamentos na agulha com a label carioca Domina.

O S/A é um dos espaços onde essas ideias são postas a prova: a pequena casa da galera da Metanol costuma receber artistas mais experimentais — ou que testam trampos mais tortos por ali. "É uma plataforma que abriga diferentes iniciativas relacionadas à produção eletrônica, o que ajuda a manter um cenário de música avançada ativo ", explica o Akin.

música + artes visuais

Em agosto, uma das noites do S/A foi ocupado pelo Fluxxx, interface de produção que conecta música a artes visuais, como o selo é definida por Lorena Green e Lucas Dimitri, criadores do selo paulistano, junto com Victor Lucindo, que entrou no barco este ano. A ideia deles é justamente oferecer um canal para os produtores experimentarem com sons diferentes, sem precisar se prender a determinada gama sonora.

"Para nós, a interdisciplinaridade é essencial, o crossover. Nós somos pós-crossover", brinca Lucas, que, entre outros projetos, se apresenta como Formafluida. Uma boa amostra dessa mistura está na coletânea 2X15, lançada em julho como comemoração ao primeiro ano da Fluxx e recheada de remixes dos produtores do selo.

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Em geral, o som da galera é abrasivo e desperta um sentimento claustrofóbico e cyberpunk — uma boa amostra é o EP Prelúdio, do Afroo Holligans. A Fluxxx também aposta num modelo de cross releases com outros selos. É o caso do álbum Obsidiana, do Iridescent, projeto do Victor, lançado em parceria com a Step in Recordings, de São Paulo, e também de Framework, do akaaka e Future Before Us do Formafluida que saiu em parceria com a Low Kick High Punch.

Leia: Fizemos uma Mesa Redonda com os Selos Fluxxx e LKHP

disco + trópicos

A french house foi o ponto de partida da Winter Club Records, de Campinas. Capitaneada pelo Victor Bueno, a.k.a. Palinoia, a gravadora surgiu porque ele não encontrava espaço suficiente para o estilo aqui na terrinha. O próprio nome do selo é uma brincadeira com o som ensolarado e de curtição à beira mar, em contraste com o clima soturno do interior de São Paulo.

Do final de 2013, quando surgiu, para cá, a Winter Club lançou discos do chefão Palinoia, dos paulistas Beerlover, Kruzader, do alemão Tightshirt, do produtor de Joinville Rheg e uma pá de coletâneas, quase todas com participação dos chegados da Brazilian Disco Club, como Arcade Fighters, Rafael Hysper e Kamei.

Nesse tempo, o som da gravadora deu uma variada. No seu próximo lançamento, In Your Eyes, Palinoia explora sonoridades próximas do future funk e até trap. Já A Guide About Me, do Rheg, é um passeio por batidas chillwave que lembra o Neon Indian.

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'escolha o gênero + piada interna

Enquanto a Winter Club é descontraída no som, a 40% Foda/Maneiríssimo é um universo de piadas internas e curtição a própria impossível de penetrar. Não que isso seja um problema: o que vem do selo do Rio de Janeiro é sempre uma surpresa agradável, seja house, techno, jazz ou boogie funk (tudo acompanhado por um bosta no final).

"40% está abaixo da média, é um fracasso, mas um fracassozinho de leve", explica Lucas de Paiva, que toca o selo ao lado de Gabriel Guerra. Os dois são mais conhecidos por passagens no Mahmundi e Dorgas, respectivamente, e parceiros no Séculas Apaixonados. A gravadora, por sua vez, surgiu para lançar os inúmeros projetos da dupla e de seus amigos com um perfil mais eletrônico: Epicentro do Bloquinho, Pessoas que Eu Conheço, DJ Guerrinha, Repententes 2008, Ilustradora Carme`n` Alve`s — esta última uma alcunha do próprio Lucas, apesar da ilustradora que cuida arte do selo também se chamar Carmen Alves.

Hoje, a 40% Foda / Maneiríssimo também já soltou Seu Lugar é o Cemitério, EP de techno quadrado e pesadão do paulista seixlacK, e Transbordo Tropical, passeio pelos synths do minero radicado em São Paulo Zopelar, figura constante em outro rolê que chama atenção pela diversão meio nonsense: a Mamba Negra.

techno + macumba

A Mamba surgiu em 2013 das entranhas da Voodoohop, pelas mãos da Carol Schutzer, e Laura Diaz. O que começou como uma comemoração de aniversário das duas, logo virou uma festa mensal com grupo flutuante de produtores que embarcam na psicodelia pós-tropicalista das meninas. "É o nosso mininal techno macumba", conta Carol.

Carrot Green, EXZ e Benjamin Sallum (o novinho da galera, com 14 anos) são Mambas Negras em tempo integral, além da Carol, a Cashu, e da Laura, que sob a alcunha de Ângela Carneosso faz parte do projeto Teto Preto, uma jam experimental que mescla elementos eletrônicos com orgânicos. O produtor L_cio e o Paulo Tessuto – Carlos Capslock, quando a esquizofrenia bate – também estão sempre juntos.

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Foto por Anna Mascarenhas.

Leia: "Quatro Anos da Esquizofrênesi da Carlos Capslook"

Em novembro, aliás, Capslock estreia seu selo, o MEMNTGN, que será distribuído pela Kompakt. O primeiro lançamento será a pérola "Traumatesado", faixa produzida pela Cashu com o L_cio e vocal do Tessuto narrando uma noite inesquecível no clube alemão Berghain.

samples ao vivo

Talvez menos conhecido que os nomes anteriores, o Beats Brasilis seja a entrada mais singular nessa história. A parada é um evento semanal na Casa Brasilis, em São Paulo, quando uma galerosa beatmaker se reúne para produzir durante a tarde. O encontro foi ideia dos DJs Marco e Niggas, comandante da Casa e uma das mentes por trás do genial Vynil-Lab, e consiste na brincadeira saudável de criar uns sons a partir de samples de um disco de R$ 5 ou R$ 10 com MPCs e outros controladores.

Niggas, o anfitrião e um dos produtores da reunião semanal de beatmakers. Foto por Felipe Larozza.

Nessas, mais de 60 pessoas já participaram e 400 faixas foram feitas. Como a evento tem regras específicas e tempo limitado, a produção é um pouco irregular, mas no soundcloud da Beats Brasilis há inúmeras pérolas criadas em cima de discos orquestrados dos anos 70 e álbuns conhecidos da MPB.

Em edições especiais, o Beats Brasilis elege um disco atual para servir de matéria prima das produções. "Começamos isso na edição 33, quando o disco sampleado foi o do Liquidus Ambiento. No final, rolaram mais remixes do que tinham músicas no álbum, foi incrível", conta Niggas. A parada está próxima da 50ª edição e Niggasconfidenciou que sua gravadora, a Brasilis Grooves, tem uma surpresa para comemorar o marco.

Por fim, é preciso dizer que esta lista nem de longe é definitiva e provavelmente já nasce defasada, mas é bom ir tomando pé e criando referências para entender esse momento da música eletrônica brasileira. Um detalhe: enquanto as meninas têm ganhado as pistas discotecando, o trampo delas ainda é tímido quando se fala em produção autoral. Questão de falta de espaço ou representatividade, fica aí o aviso de que queremos ouvi-las.

Agora, se depois de tudo isso seu navegador não está prestes a travar com a mar de abas abertas, você errou feião. Volta para o começo e vai fundo.