Faltou 'Sónar' no Sónar SP
Gabriel Quintão

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Faltou 'Sónar' no Sónar SP

Menos festival e mais baladão, a terceira edição do festival na cidade não empolgou com o lineup, mas apresentou performances consistentes e boa estrutura.

Dizer que o Sónar São Paulo 2015 foi ruim seria um exagero, mas também não foi lá aquelas coisas. Eu explico: o anúncio da volta do Sónar ao Brasil em 2015 causou por si só um certo furor. Depois de ter abrigado shows do Kraftwerk, MF DOOM, Four Tet, Justice e muitas outras atrações nos dois dias de festival no Anhembi, as expectativas para o lineup desse ano eram altas.

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Rumores citavam de Björk – que cancelou sua apresentação na edição de 2012 – a Aphex Twin e Jamie xx Lá pra fim de junho, a organização anunciou que o lineup seria composto por The Chemical Brothers e Hot Chip, que já estiveram no Brasil, além do francês Brodinski, o inglês Evian Christ, o brasileiro Zopelar e a chilena Valesuchi. Pra quem esperava a diversidade e quantidade da edição de 2012 (que teve até Ryuchi Sakamoto tocando com Alva Noto e set do Rustie), o lineup meio que frustrou expectativas.

Todas as fotos por Gabriel Quintão.

Ficou um clima de decepção no ar, e o salgado preço dos ingressos também não contribuiu muito para reverter esse quadro — R$ 550 a entrada inteira, R$ 275 a meia para um dia de apresentações no Espaço das Américas, na Barra Funda. Mas apesar disso, o Sónar manteve o poder de despertar a curiosidade do público para as atrações menores do festival.

Valesuchi abriu uma pista extremamente vazia – umas cento e cinquenta pessoas rodeavam o festival, e dessas, nem metade prestava atenção na performance da chilena –, mas não era como se isso a incomodasse. A produtora parecia estar cumprindo a promessa que fez pra mim, tocar para as garotas, e a própria balançava o cabelo e dançava freneticamente, curtindo ao máximo o som que mixava na hora. A chilena me disse que estava trabalhando em um EP novo e é bem provável que alguma das sonoridades que ela está criando tenham sido tocadas no sábado, já que ela parecia estar investindo em um som mais pesado que o de costume em seus trabalhos passados.

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Acabado o set de Valesuchi, a pista estava mais cheia – muito daquele público foi certamente atraído pelo carisma da chilena, mas é provável que a grande maioria estivesse ali para presenciar a apresentação que viria, do Evian Christ.

O DJ inglês, que até produziu uma música do último disco do Kanye West, abriu o que foi tranquilamente um dos melhores sets da noite – se não, o melhor – com um remix pedrada na cabeça de Drake. O cara, que parece uma mistura menos sofisticada (no bom sentido) do Hudson Mohawke com o Arca, apresentou um repertório baseado em seu último EP, Waterfall. O set contou com um show de luzes, com feixes que invadiam a pista e criavam um clima pesadão, empolgando um público que já estava na expectativa da maior apresentação da noite, o Chemical Brothers.

A primeira pisada na bola do Sónar foi ter colocado a apresentação do francês Brodinski entre os dois petardos do festival, o Evian Christ e o Chemical. O DJ apresentou um set tímido, seu techno bombando bem menos que o trap de Evian. A falta de efeitos visuais – exceto pelas imagens no maior estilo clipe vaporwave que passavam pelo telão – perdeu uma parte do público, que começou a circular pelo festival e alguns problemas do ambiente ficaram mais nítidos.

O Espaço das Américas pode ser uma ótima opção pra realização de um show: o lugar é grande, o som é bom e o acesso por transporte público é fácil. No entanto, o fato de o lugar possuir um palco só muitas vezes limitava a galera: era só um show rolando, o que acabou tornando o festival muito longo e impedindo que quem cansasse do PUTZPUTZPUTZ tivesse um lugar – tirando o fumódromo – pra dar uma arejada ou curtir uma outra coisa, porque a casa possui apenas um grande ambiente. A essa altura do campeonato, já tinha uma galera descansando sentada no chão.

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Ao fim do set do Brodinski, a vibe de expectativa pro Chemical Brothers estava em seu auge. Não seria exagero dizer que pelo menos metade das 6.500 pessoas que compareceram ao festival (foram postos oito mil ingressos à venda) estavam lá pra ver a dupla inglesa, e isso ficou bem claro logo no início do set, com o público entoando calorosamente o "HERE WE GO!" da primeira música tocada por eles, "Hey Boy Hey Girl", do disco de 1999 Surrender. Daí pra frente, foi só fritação. Foi bom descobrir que as músicas do álbum novo da banda, Born in the Echoes, como "Go" e "Sometimes I Feel So Deserted" funcionam tão bem pra esquentar a galera quanto antigos hits, como "Star Guitar" e "Do It Again".

As faixas transicionavam de uma para a outra sem pausa, tornando impossível tomar um ar do passinho; os efeitos visuais e as imagens que passavam no telão, a maioria saída dos próprios clipes das faixas, fechavam a vibe do show. O único ponto ruim foi que o som não alcançava completamente todos os pontos do lugar, parecendo meio baixo nas bordas. A apresentação amornou lá para a marca de uma hora, mas mais para o fim os hits voltaram, e você dançava nem que fosse por inércia.

Zopelar tirou a sorte grande e foi escalado para o melhor horário do festival – o brasileiro pegou a galera ainda quente de tanto fritar com o Chemical Brothers e já pronta pra curtir um Hot Chip. O minimal techno cabeça do produtor sugeria um clima mais atmosférico que o dos shows anteriores, talvez pra dar uma tranquilizada no clima do ambiente. O tiro, porém, pode ter saído pela culatra do festival: uma parte do público parece ter perdido a atenção no que estava acontecendo no palco durante o set do paulistano, que não utilizou de muitas luzes e efeitos visuais, como a maioria dos outros artistas.

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O Hot Chip, porém, logo chegou com seu "electro nerd" para dar uma mudança instantânea de clima. O grupo americano subiu no palco como quem não quer nada mas conquistou a pista num estalar de dedos. Talvez por ser a atração que mais destoava do festival, os americanos se destacaram tocando um set enxuto, cheio de hits que colocaram a pista ainda cheia pra dançar – como "Over and Over" e "Night and Day", e, apesar do som enrolado, fizeram o show mais divertido da noite.

O Hot Chip saiu do palco e foi seguido por uma parte pequena do público, que foi embora do festival e deixou para Pional a missão de fechar uma pista quase cheia com a elegância que Valesuchi abriu a mesma, quase vazia. E a missão foi completa. O espanhol fechou as cortinas e criou um climão que foi bem aproveitado para um fim de noite, mais soturno do que o público tinha experienciado até então.

No geral, o Sónar São Paulo 2015 nos deu boas apresentações e uma ótima estrutura, mas o buraco deixado pela expectativa frustrada do anúncio de lineup não foi preenchido. Quando passou por aqui em 2012, e até mesmo em 2004, o festival parecia focado na experimentação, na tecnologia. A conclusão que podemos tirar dessa última edição, porém é a que o Sónar pode se tornar mais um no mar de festivais da cidade de São Paulo que deixa a criatividade e inovação em segundo plano. A sensação de que poderíamos ver atrações que ninguém mais traria no Sónar não existe mais.

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Ainda citando a edição de 2012, é impossível não comparar preços. Há três anos, o público tinha a opção de comprar o passaporte para os dois dias de festival, que contava com mais de quarenta atrações na Arena Anhembi, por R$ 450. Neste ano, o preço era R$ 550 para sete shows, um dia de festival. Uma terceira edição, que já tinha sido confirmada para acontecer em 2013, teve de ser cancelada por motivos "diretamente relacionados a dificuldades e a instabilidade do mercado de entretenimento no Brasil", como afirmado pela organização do festival.

Sabemos que, na coletiva de imprensa que ocorreu em maio, quando foi anunciada a volta do festival, mais três edições foram confirmadas para os anos seguintes. Resta saber se ainda haverá espaço para a tal música avançada no Sónar, ou se o que resta é esperar mais do mesmo.

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