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Tecnologia

Perder o telemóvel: vantagens e inconvenientes

Perder o telemóvel é uma merda, mas sempre podes retirar alguns aspectos positivos dessa experiência (e não, não estamos a falar da completa e absoluta solidão).
17 April 2015, 7:30am

Como em muitas outras coisas, demorei muito tempo até chegar a esta moda dos telemóveis. Recusei-me a ter este dispositivo até aos 23, que foi quando a minha namorada, farta da situação, decidiu oferecer-me um no meu aniversário. Se tivesse seguido o curso normal das tendências, e tivesse comprado um quanto antes, tenho a certeza que o número de telemóveis perdidos ou roubados seria o dobro. Assim de cabeça, julgo que nos últimos 10 anos perdi uma média de um telemóvel por cada 1,4 anos. De facto, sempre que mudei de telemóvel foi por esta razão, nunca por um tema tecnológico. O certo é que nunca me considerei um tipo distraído, na minha cabeça continua essa ideia de que sou bastante organizado, como quando era mais novo. Antes era uma pessoa super cuidadosa e muito mesquinha com as minhas coisas mas, vendo o meu historial (e dando uma vista de olhos no desastre que é a minha casa), vejo que realmente não sou quem penso ser. Enfim, o importante é que com tudo isto aprendi umas quantas coisas sobre a arte de perder telemóveis. Aqui me têm a partilhar esse conhecimento.

Inconvenientes

1-Incomunicação:

Este é o problema mais evidente já que um telefone serve, principalmente, para facilitar a comunicação entre as pessoas. Não ter este aparelho quando alguém precisa de avisar-te que a tua casa está a arder pode ser um grande problema, sempre e quando a tua casa, as tuas coisas e as pessoas que lá estejam dentro sejam importantes para ti. À parte disso, quando te convertes num ser incomunicável, podes fazer com que as pessoas do teu entorno fiquem muito nervosas. Tu sempre terás a bela da cabine telefónica, mas ninguém te poderá telefonar directamente para dizer-te o quão irresponsável te tornaste.

Se esta situação se prolonga podes acabar por te tornar numa pessoa um bocado estranha. Respira fundo, vem aí uma frase bastante comprida. Sabes quando não vês uma dessas pessoas há muito tempo, com quem privavas frequentemente, e de repente a encontras numa dessas típicas festas e ela conta-te como está a terminar uma obra de teatro com a sua nova companhia ou algo assim, e faz-te pensar - esta malta sabe aproveitar muita bem o seu tempo, não como eu que só sei sair à noite e embebedar-me - mas, logo a seguir, notas que há algo de estranho com ela, custa-lhe a falar e mexe-se de uma forma esquisita o que faz com que a veracidade da "companhia de teatro" se comece a desmoronar, e pensas em seguida, - isto de sair, beber e conhecer gente nova não é assim tão mau - ? Aí está, sem meios de comunicação é neste tipo de pessoa que te podes converter.

2-Comprar um novo:

Ficar sem telemóvel significa que tens de comprar outro. Novo ou em segunda mão. É nesse momento que tens de testar a amizade dos teus amigos que, quase de certeza, têm algum telefone a mais mas muito pouca vontade de emprestá-lo por uns "dias" - dias que facilmente se convertem em anos -, já que eles sabem que o vais perder outra vez. Dado o teu historial, muito poucos "amigos" te vão confiar o seu telemóvel assim se tiveres a sorte de ter dinheiro suficiente para ir ao supermercado encher sacos e sacos com as tuas compras semanais quem sabe podes comprar um telemóvel novo. Este gasto será como uma cicatriz na tua conta bancária que, durante meses, te vai recordado que não devias beber tanto quando sais à noite. E isso leva-nos a um:

3-Dilema moral:

A sério, que é que andas a fazer da tua vida? Sentes-te um merdas por perder o teu telefone cada duas por três, e ainda por cima por motivos lamentáveis, como estar bêbado, adormecer no metro ou, simplesmente, porque o ofereceste a um mendigo (naquele momento fazia todo o sentido do mundo). Quando te encontras constantemente a cancelar o teu SIM e o tele-operador já te reconhece, começas a perceber que chegou o momento de mudar. Mas lá no fundo sabes que isso vai ser impossível e que tudo o que estás a fazer, vais repetir vezes sem conta. Uma e outra vez.

4-Sexo:

O tema sexo torna-se, com a ausência do telemóvel, mais complicado. Já não tens a ferramenta perfeita à tua disposição 24 horas, 365 dias por ano. O telefone era o teu poema de Cyrano de Bergerac. Antes articulavas os teus engates e os teus encontros sexuais através do Tinder, do Whatsapp ou através do Messenger do Facebook. Agora tens de trabalhar com o computador ou, inclusivamente, FALAR com as pessoas, muitas vezes cara a cara, e isso é claramente um problema. Ficaste sem a vantagem de poder conhecer e engatar gente nova sem mostrar os teus defeitos. Ficas nervoso e a tua ferramenta sexual acaba por te pedir a compra de um novo telefone imediatamente. E tu nem vais pensar duas vezes.

Vantagens

1-Incomunicação:

Lembras-te de quando, sem te reconheceres neste tipo de atitudes, deste um soco tão forte num armário da cozinha que lhe abriste um buraco por onde se podiam ver as latas de atum? Lembras-te o porquê desse golpe? Vou refrescar-te a memória: tinhas combinado ir ao cinema com aquela miúda interessante com quem trocaste mensagens pelo facebook durante semanas mas a tua mãe telefona-te a avisar que tinha partido uma perna e que precisava de boleia até às urgências, tu, de imediato, inventaste uma desculpa horrível para não ir e logo a seguir recebeste um Whatsapp da miúda a dizer que afinal não podia ir ao cinema contigo (porque tu não lhe interessas e prefere encontrar-se com outro gajo para pinar) então, começaste a sentir-te mal por mentires à tua mãe, amaldiçoaste a gaja e deste o golpe fatal contra o armário. Se naquele preciso momento não tivesses telefone, não tinhas sabido de nada e a tua mãe acabava por telefonar a outra pessoa, a miúda, ao não poder localizar-te, seria obrigada a ir contigo ao cinema e, por mais imoral que seja a situação, tinhas podido desfrutar tranquilamente de uma noite perfeita pela qual esperaste muito tempo e ser o homem mais feliz do mundo numa falsa realidade onde se escondia o mais absoluto dos horrores.

2-Comprar um novo:

Isto pode servir para analisar e avaliar as tuas necessidades tecnológicas reais que, o mais certo, é estarem limitadas a "escrever e receber mensagens de texto." Se a tudo isto lhe somas a tua tendência por perder dispositivos, talvez seja melhor comprares algo simples, algo que possa acabar num Cash Converters dentro de algumas semanas. Aceita a tua condição, assimila os teus erros e actua em conformidade. Compra uma merda de telefone porque ao fim e ao cabo, tu és assim. Ei, sem stress.

3-Dilema moral:

Ok, talvez andes há muito tempo a perder telefones, mas este pequeno problema com o qual tens de viver, pode ajudar-te a não depender tanto deste dispositivo e a não dar-lhe tanta importância, não o podes tratar como se fosse o grande atractivo gravitacional em torno do qual orbita a tua vida e a de todos os outros. Tu sabes que não vais mudar, então deixa de sofrer e abraça a ideia de que, por vezes, és um desastre. Vive e mostra as tuas cicatrizes com orgulho, as rugas são o que faz uma folha de papel ser diferente da outra.

4-Sexo:

Começa a deixar de centrar a tua vida em redor do sexo. Os casos, as companheiras, os companheiros, as relações e tudo o resto está a distrair-te do que realmente importa. Existem coisas melhores com que ocupar o tempo que te resta. Seria duro, mas podias recuperar aquele livro de poemas que começaste a escrever ou, pelo amor de Deus, ao menos aspira o teu quarto pela primeira vez na tua vida. Começa a utilizar e a ocupar o teu cérebro com outro tipo de ideias, vais ver como tudo correrá melhor e que quando estiveres para morrer não vais sentir que desperdiçaste a maior parte da tua vida por culpa de um punhado de noites de sexo.