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cinema

Dez filmes que devias ver quando tudo o resto te aborrece

Se queres serviço público a sério lê o que temos para te dizer.

Há que dizê-lo à boca-cheia: a programação de filmes nos canais que temos disponíveis na TV por cabo é verdadeiramente miserável. Depois de terminado o período dourado do “Cinco Noites, Cinco Filmes”, na RTP2, a televisão deixou-nos entregues a mil repetições do

Professor Chanfrado

e do

Vanilla Sky

, nos canais pobrezinhos que repetem os mesmos 40 filmes todas as semanas. Os canais de cinema pagos de vez em quando lá se lembram de transmitir um ciclo de jeito, mas isso não chega. Hoje é raríssimo alguém ser surpreendido por um bom filme que nunca viu na TV. Isso é grave e mais grave passa a ser se pensarmos que em 1985, com apenas dois canais, a possibilidade disso acontecer era substancialmente maior. A CMTV, mesmo com a sua fixação erótica, teve um arranque entusiasmante e continua a transmitir bons filmes, embora ultimamente esteja a carregar mais no trash ao estilo do MGM (que dá jeito só mesmo quando estamos muito solitários). É por isso que decidimos fazer uma selecção de filmes para vos ajudar na vossa própria programação de cinema caseiro. Vale tudo nestes dez filmes escolhidos para combater o tédio da nossa televisão horrorosa.

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Manhunter (1986)

Aos poucos

, Manhunter

 deverá encontrar o seu lugar como o thriller-cheio-de-coragem, que correu todos os riscos necessários para que, anos mais tarde e com outro volume de conhecimento,

 The Silence of the Lambs

 e

Seven

 pudessem ser clássicos instantâneos no género (com todo o mérito, por acaso). Mas para que os anos 90 tivessem direito a dois filmes tão impecáveis, no retrato que fazem dos seus serial-killers,

Manhunter

 teve de percorrer as suas duas horas com um atrevimento quase experimental que toca nos mais diferentes elementos: seja num esquema de compartimentação através de cores, na bifurcação da acção, que decorre dentro e fora dos laboratórios forenses, nas cenas gravadas em diferentes velocidades ou na obsessão dos investigadores em estabelecerem um contacto telepático com o assassino (fórmula mais tarde explorada por várias séries televisivas). Por tudo isso,

Manhunter

 é um dos raros filmes de serial-killer em que a linguagem do realizador consegue ter uma presença maior do que a do vilão. Jonathan Demme deve muito a Anthony Hopkins pelo que conseguiu com

The Silence of the Lambs

. Michael Mann dependeu muito mais de si mesmo para que

Manhunter

 seja um thriller a ter muito em conta.

Vanishing Point (1971)

Este autêntico soul-road-movie consegue como poucos mostrar como o êxtase da velocidade é o mais americano de todos os caminhos para a libertação. A primeira hora de filme é tão excitante como qualquer outra já vista e envergonha uma boa parte dos filmes que garantem ter as melhores perseguições de carros. Depois de instalado o carnaval da caça ao homem ao volante de um Dodge (o modelo certo para um carro fugitivo),

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Vanishing Point

 dispõe de todo o tempo necessário para dar a perceber que, para existir uma América obcecada pela sensação de fugir, é obrigatório haver outra América que só fica satisfeita quando persegue. As duas metades competem permanentemente e taco-a-taco em

Vanishing Point

 (porque a luta entre o Bem e o Mal é sempre renhida), enquanto, em paralelo, o gospel e a opressão policial medem forças na estação de rádio em que um nigga cego dá a motivação ao branco com os olhos na estrada (a fé é a visão de ambos). E tudo isto é acompanhado por uma brilhante banda-sonora cheia de rock n' roll rebelde e canções sobre o papel de Cristo na salvação — duas partes que se reforçam mutuamente, tal como quase tudo em

Vanishing Point

.

Fat City (1972)

Em grande parte dos casos, um filme de boxe só começa a rolar realmente a partir do momento em que nos leva com o seu crescendo glorioso, desde o primeiro modesto combate até ao grande duelo que opõe os dois homens mais duros no desporto. É muito próprio do filme de boxe aquela alucinante montagem de um KO após o outro, que nos aumenta a “pica” ao mesmo tempo que nos faz acreditar cada vez mais no herói.

Fat City

 quase atraiçoa esse fundamento do filme do boxe ao não acumular glórias para os seus protagonistas. Esses que, aliás, até parecem demasiado instáveis para cumprirem até ao fim qualquer trajecto desportivo. Aqui é muito mais a vida que dá porrada em dois homens que, no fundo, até vão para dentro do ringue para despistar uma dor interior trocando-a por outra mais superficial. Tal como o pugilista fica com a cabeça à roda depois de sofrer uma rápida combinação de socos, também o ritmo de

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Fat City

cambaleia em sintonia com o sentimento dos seus protagonistas nem sempre muito preparados para o que a realidade lhes traz. O calejado Stacy Keach e um muito jovem Jeff Bridges fazem-nos crer que os combates mais exigentes acontecem fora dos limites do ringue e nem tanto lá dentro.

R Xmas (2001)

Ao situar os acontecimento de

R Xmas

 numa Nova Iorque prestes a ser limpa por Giuliani, o realizador Abel Ferrara estaria provavelmente a assumir que este seria o seu último

 deal

 de rua, antes da lei tomar conta da cidade. O facto de

R Xmas

 decorrer nas vésperas de Natal contribui também para que todo o filme represente uma janela de tempo aberta para a redenção (dos personagens e do próprio Ferrara). A verdade é que nunca até aqui o realizador tinha parecido tão moderado e cauteloso na representação da violência: em

R Xmas

 os tiros e as cenas de pancada são escassas. Nem tão pouco existe por aqui uma noção clara de quais são os heróis e os vilões, o que terá também contribuído para o seu redondo fracasso comercial (foi directamente para vídeo em muitos países). Atípica também é a escolha de uma protagonista (uma poderosa Drea de Matteo) para o principal papel de punho e convicção, num cinema em que quase sempre são os homens a medir forças. Fica a ideia de que

R Xmas

 conclui um ciclo no percurso de Abel Ferrara, ao mesmo tempo que lhe oferece uma derradeira oportunidade para se despedir em paz das armas e das drogas que dominam tantos dos seus filmes (a partir daqui o realizador só muito raramente voltou a tocar nesses vícios e ultimamente até tem surgido associado a um cinema de crença). Sem ser um objecto especialmente cativante,

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R Xmas

 merece ser enquadrado no puzzle Ferrara e recuperado depois de ter estreado quase sem promoção.

They Live (1988)

Era possível desconsiderar

They Live

 por toda a inspiração que vai buscar a formatos que supostamente servem só mesmo para entreter os putos e os nerds, como é o caso do sci-fi paranóico da década de 50, o série-b sensacionalista ou os comics de destruição por todo o lado. Mas Carpenter é um verdadeiro dignificador de todos os géneros bastardos e

They Live

 ainda hoje será um dos filmes que melhor consegue representar um cenário de Terceira Guerra Mundial. Cenário esse que, apesar de totalmente alucinado, não foge muito à realidade ao representar a Terceira Grande Guerra como uma batalha de propaganda, informação, lavagem cerebral e inteligência. Talvez pouca inteligência.

They Live

 vai ao limite de tudo o que tem a provar e, enquanto aponta o dedo do meio à subversão das grandes indústrias económicas e políticas, também ele próprio é subverso ao escolher um herói de acção que, a partir do momento em que reconhece o inimigo, começa a imitá-lo e a falar através de slogans ("I'm here to kick ass and chew bubblegum and I'm all out of bubblegum"). Leva isso a que a partir de certa altura

They Live

 nos deixe encurralados num ponto em que tudo (inclusive os destinos do universo) parece estar condenado à abundância de estupidez nas ruas, sendo que essa situação é perigosamente irreversível. Contudo, Carpenter diverte-se na cara de toda essa desgraça acéfala e isso percebe-se na cena em que, aproveitando-se das habilidades de wrestler de Roddy Piper, mete à porrada os dois únicos personagens que parecem mais ou menos capazes de salvar o mundo.

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They Live

, tal como o soberbo

Repo Man

 antes dele, é genuinamente punk porque desconfia de tudo.

Island of Lost Souls (1932)

A mais notável característica de

Island of Lost Souls

incide muito provavelmente na extrema segurança com que se atreve a dar tantos passos inéditos, no género do terror: é um filme de freaks sem precedentes evidentes (

Freaks

, de Todd Browning, estreou sensivelmente na mesma altura), conta uma história de atrocidades com um muito subversivo ritmo de aventuras e, no meio de tudo isto, ainda consegue criar monstros através de um trabalho de maquilhagem que se mantém convincente 80 anos depois (!!). Por todos estes motivos e tantos mais, é natural que a sua influência tenha chegado a todo o tipo de quadrantes:

Planet of the Apes

 não seria o mesmo filme sem este guia, os Devo devem-lhe um dos seus mais famosos refrões ("Are we not men? We are Devo!") e a aparência do servo M'ling é directamente homenageada na majestosa graphic novel Black Hole (que em comum com o filme de 1932 tem também toda uma narrativa ligada à mutação). Torna-se assim inevitável recorrer a

 Island of Lost Souls

 como um dos pontos-chave do horror a preto-e-branco, tanto mais reforçado por essa tema intemporal que é a retaliação da natureza no sentido de quem se atreve a assumir o lugar de Deus. Vou guardar daqui também um carinho muito especial por estes freaks metade-humanos metade-animais, porque me tocam mesmo no coração.

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Caché (2005)

Actualmente, poucos realizadores estarão à altura de Haneke na capacidade de criar possibilidades no terror psicológico. O mesmo significa que ninguém se aproxima da sensibilidade de que Haneke dispõe para trabalhar os receios do seu público, neste caso ciente de que esse já está mais ou menos preparado para tudo, depois de ter caído nas várias ratoeiras do realizador (o rebobinar de

Funny Games

 dói especialmente) e de conhecer as artimanhas com que se faz um thriller. Por onde pode ir então um realizador que pretende encostar de novo à parede um público calejado e desconfiado depois de tantas vezes arrebatado? Não haverá resposta exacta para isso, mas Haneke faz do seu o caminho certo pela paciência com que trata uma história de

 stalking

que muito facilmente podia cair na banalidade dos tabloides. Em

Caché

 os mais agitados comportamentos dos principais personagens (o casal atormentado por umas misteriosas cassetes de vídeo) nunca impedem que as situações   retratadas estejam geralmente sobrecarregadas por uma calma de morte, que só é realmente interrompida quando não há mais nada a fazer. E é estranho sentir que as mais violentas cenas de

 Caché

quase proporcionam alguma satisfação pela forma como resolvem o impasse e as incertezas, permitindo assim que a narrativa extravase a tensão acumulada. Haneke (mais do que Lars Von Trier) sabe perfeitamente onde nos quer e a culpa, alimentada por toda a necessidade voyeurística de quem vê filmes, fica do nosso lado quando

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Caché

 chega ao fim.

Salem’s Lot (1979)

Mesmo sem estar alinhado com os principais triunfos de Tobe Hooper (

Massacre no Texas

,

Poltergeist

),

Salem's Lot

 funciona muito como banho de imersão nas principais marcas do realizador. Montado de maneira a preencher a duração necessária para servir como mini-série de televisão,

Salem's Lot

 está mais que à vontade com a rédea larga dos seus 183 minutos. Tobe Hooper pode simplesmente dar-se ao luxo de encher o balão atmosférico, com carradas antecipação e caracterização dos personagens, durante hora e meia, para depois assistirmos ao estrondo climático numa cena de três ou quatro minutos. Uma duração de três horas e pouco poderia ser um convite ao desleixo, mas

Salem's Lot

, depois de despachar o entulho típico das

soap-operas

, é especialmente eficaz e inovador na coordenação dos tempos: Tobe Hooper confirma a tendência do

Massacre no Texas

 e as cenas em que nos deixa olhos nos olhos com o terror duram o tempo suficiente para serem desconfortáveis, mas terminam antes de chegarem a ser patéticas ou desmascaradas pela razão.

Tudo isto é muito bem cronometrado por um senhor que sabe bem que o terror é tanto o que mostra como o que oculta. Se há um vampiro para ver em

Salem's Lot

, a criatura vai ter o seu tempo para assombrar o ecrã com uma cara feia. E o mais impressionante disso é que as cenas de terror eminente parecem tão credíveis agora como deviam parecer em 1979, e envolvem vampiros flutuantes, o que nem sempre é fácil de simular. Há também espaço para que Tobe Hooper exercite o seu sentido de humor ao decorar as paredes da principal mansão com montes de animais embalsamados (e aqui há um evidente paralelo com a piada macabra de

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Massacre no Texas

 apontada ao consumo de carne e às carcaças animais como troféu). Contrariando tudo o que se poderia esperar de uma produção para televisão,

Salem's Lot

 é uma peça muito substancial no trabalho de Tobe Hooper e uma saga de vampiros que enche a panela até cima com todos os ingredientes necessários.

Ran (1985)

Akira Kurosawa explora a grandeza do Poder e dos Destroços como se um não pudesse existir sem o outro e sempre ciente de que nenhum homem, por mais que lute pelo seu império, pode competir com a força de quem está para lá das nuvens. O “épico” é utilizado como adjectivo para um monte de filmes, mas devia existir apenas para definir obras com a dimensão de

Ran

, que conta a história de um reino de três torres e de como um pai (um Tatsuya Nakadai maior que a vida) o repartiu (mal ou bem) por três filhos. O facto de não ser particularmente generoso em sequências de acção e entretenimento mais imediato pode ter criado a noção de que

Ran

 é um dos mais aborrecidos filmes de Kurosawa, mas os seus 160 minutos são de tal forma intensos e dinâmicos que pouco tempo sobra para bocejos. No que respeita a filmes de guerra pós-1980, deve ser um dos mais grandiosos nas sequêcias de batalha e sem recorrer a efeitos digitais, o que torna muito mais apaixonante. Prefiro ver 30 homens reais a lutar do que 3000 bonecos numa barafunda de ogres e elfos em que nem se percebe bem quem está a ganhar. O Peter Jackson pode ser muito bom a emagrecer com uma dieta de barras de cereais, mas queria vê-lo a filmar um

Ran

 como este.

Bitter Moon (1992)

Bitter Moon

 tem aquela qualidade muito particular do cinema de Roman Polanski: por mais que a história de obsessão e tensão (fechada em câmara) roce o ridículo, o drama vivido pelas personagens é tão intenso como um desastre na estrada, o que só faz com que seja quase impossível desviar os olhos. E é claro que Polanski conhece bem o nosso apetite pelo mórbido e pela auto-tortura. Esse é, aliás, um dos pilares essenciais da sua arte e engenho. Bitter Moon é pois uma master-class nesse aspecto e tem a capacidade de transformar Emmanuelle Seigner numa das mais atraentes presenças que já vi num ecrã. Peter Coyote será, por sua vez, um pobre diabo igualmente inesquecível e encontra aqui um grande papel. Quando assim é, os solavancos na narrativa são suportáveis e combinam bem com um filme que decorre a bordo de um cruzeiro desengonçado em alto mar. Não surpreende também que Bitter Moon tenha dividido a crítica, tal como se verificou na sua estreia: dois horas e vinte de visita guiada pelos extremos da obsessão - e, nisso, deve muito a That Obscure object of desire, de Buñuel - não é o tipo de coisa que costume reunir consensos ou levar famílias felizes ao cinema. No que diz respeito ao inferno (sexual) que cada homem pode encontrar numa mulher ou vice-versa, este é um filme bem mais poderoso do que o Antichrist e não precisa sequer de chocar com mutilações. Calculo que seja um daqueles filmes de Roman Polanski que alguns possam julgar já ter visto porque o poster ficou muito presente na memória. É uma pena que assim seja.