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A Grande Diferença Entre a Cultura de Clubes nos EUA e no Reino Unido

Benji B, apresentador da Radio 1 da BBC, diz: "As pessoas deviam levar a cultura a sério. A cultura dos clubes é uma arte.​"

"Relacionamento Especial" não é só um rótulo para aquele amigo bonitinho com quem você volta para casa às vezes. Presidentes e primeiros-ministros se referem assim às relações entre Estados Unidos e Reino Unido desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A conexão anglo-americana é tão forte quanto para quem curte a vida noturna, especialmente aqueles que vivem nas capitais da dance music, Londres e Nova York. As duas metrópoles são centros financeiros e imigratórios, habitados tanto por uma diversidade estonteante quanto por banqueiros babacas. Essas cidades irmãs foram pioneiras de diversas vertentes da dance music, da disco ao funky house, do hip-hop ao grime, do electro ao acid house.

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As duas cidades também experimentaram altos e baixos na sua vida noturna — um tema no qual o célebre Benji B, de Londres, é especialista. O apresentador da BBC Radio 1, que assumiu o cobiçado lugar de Mary Anne Hobbs em 2010, fez a sua primeira peregrinação à Grande Maçã mais de 15 anos atrás, e tem um currículo de vida noturna que remete à sua adolescência. Na ocasião da chegada da sua festa Deviant ao Brooklyn, no final de julho, para a sua estréia no Output, pegamos um táxi com ele entre uma sessão de estúdio e uma passagem de som para falar sobre o atual estado da cultura de clubes no Reino Unido e nos EUA.

THUMP: Temos noticiado a repressão da Polícia Metropolitana à vida noturna britânica, incluindo o quase fechamento da Fabric. Qual é a sua visão do atual estado da vida noturna no Reino Unido — ela está sob ataque?
Benji B: O fechamento [de clubes] é uma preocupação legítima, mas não é nova. Os nova-iorquinos conhecem essa sensação melhor do que ninguém na Terra — quando Giuliani decidiu atacar a vida noturna, [fechar os clubes foi] literalmente o que ele fez. No momento, estamos numa era dourada da vida noturna no Reino Unido. Me lembra a era dourada de meados para fins dos anos 90. Em termos de música, festas e DJs, é tudo menos infértil. A vida noturna está viva e passa bem no Reino Unido.

Então os relatos de uma repressão à vida noturna são infundados?
O número de lugares [que estão fechando] é algo ligeiramente diferente. Se você se muda para um apartamento em cima de um clube, pode reclamar do barulho que acontece lá embaixo. É loucura. Se eu quisesse construir a Fabric ou o Ministry of Sound embaixo do seu apartamento, essa é uma preocupação legítima. Mas, se você se muda para um lugar onde um clube já existe, como [o barulho] é uma reclamação legítima? Tive problemas com isso com a minha festa Deviant, na edição após o carnaval de Notting Hill — os vizinhos tentaram acabar com ela. Cinco minutos antes de abrir, eu não sabia se a festa ia acontecer, e a fila dava a volta no quarteirão.

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Fico feliz que tenha mencionado o carnaval de Notting Hill. Em Londres, é o lugar onde o jungle estourou nos anos 90, e depois o grime, o dubstep e o funky house, entrando nos anos 2000. Temos uma versão dele em Nova York — a West Indian Day Parade do Brooklyn — mas não funciona da mesma forma. É estritamente uma celebração da cultura caribenha e você só ouve soca e dancehall. Até que ponto o carnaval de Notting Hill impulsiona ainda a cultura musical de Londres?
É fato conhecido que os melhores carnavais são o do Rio de Janeiro, Trinidad e depois Notting Hill. A primeira vez que vi um DJ na minha vida foi no carnaval de Notting Hill, porque meu pai me levou lá quando eu tinha seis ou sete anos. Só perdi um desde os meus 12 anos.

Musicalmente falando, um dos momentos mais significativos foi o ano em que eles decidiram permitir sistemas de som estáticos, além daqueles que ficam nos carros alegóricos. Esses sistemas tocam muito além de roots reggae, dancehall e soca, mas é importante reconhecer que toda música que você ouve é música de rua. Toco um set muito mais barulhento no carnaval do que o que toco no Output às quintas-feiras. Toco garage, funky house, bashment e hip-hop barulhento.

O rádio é outro elemento da cultura musical de Londres que é diferente de Nova York. Nossa rádio pública (a BBC) e as rádios piratas impulsionam a cena musical. Em Nova York, as rádios públicas definitivamente não são o lugar para se encontrar música de vanguarda, e as rádios piratas focadas em dance music são mais raras. Na era digital, o rádio permanece importante para a cena de clubes de Londres?
O rádio é uma parte muito importante do que eu sou porque eu não podia ir a clubes quando tinha 10 anos. Então minha educação sobre as últimas novidades de Chicago ou Nova York e faixas raras de groove ou electro vinha das rádios piratas. A programação diurna naquele tempo era de pop mainstream. É por isso que o dial ganhava vida à noite e aos fins de semana com as rádios piratas. O rádio e a cultura de clubes sempre foram intrinsecamente conectados. Naquela época, era a única forma de você saber onde as raves aconteciam, e os anúncios dos clubes eram transmitidos nas rádios.

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O rádio ainda é relevante?
O modo de acesso mudou. À medida em que aumentam as opções, a curadoria se torna ainda mais valiosa. Agora, grandes empresas de tecnologia e grandes gravadoras estão competindo para ter seus próprios serviços de playlist, streaming ou curadoria. É incrível como o pêndulo de influência se voltou para a maneira como nós, como curadores especialistas, sentimos que sempre foi: o poder da seleção. O rádio sempre foi esse filtro para mim.

Nos Estados Unidos, o rádio mainstream sempre foi ruim — a divisão de estações por gênero, como rap, rock, country, o que for. O único lugar para ouvir música interessante eram as rádios universitárias. Em Nova York, o rádio tem uma história incrível, de um modo ligeiramente diferente. Preciso manifestar meu respeito à East Village Radio — ela tem o espírito das rádios piratas. O rádio em Nova York também teve uma das eras mais empolgantes de todos os tempos: não podemos nos esquecer de Marley Marl, Kool DJ Red Alert, Stretch e Bobbito. A influência desses DJs na minha juventude no Reino Unido foi sísmica, enorme e lendária.

Do que você mais gosta no legado musical de Nova York?
Se você me desse uma máquina do tempo, eu não iria ver os dinossauros. Sendo o meu período dos sonhos, eu certamente escolheria o Lower East Side por volta de 1982. Tenho esta visão do Afrika Bambaataa no salão dos fundos e o ESG no salão principal.

E o que você acha do atual estado da vida noturna nos EUA?
Quando você cresce em Londres, você vai a festas. Não vai ao clube, ao Vinil, vai à Body and Soul, a festa. Há menos dessa cultura agora em Nova York, e mais uma cultura de festas pontuais.

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Acredito em noites regulares porque elas criam uma comunidade e dão luz a gêneros. Como qualquer marca, tem a ver com confiança. No caso da Deviation, você pode chegar gostando de house e perceber que gosta de hip-hop também. O Output tem um som incrível, e isso está na primeira ordem do que é importante para mim em um clube. Até ele chegar, o Cielo tinha o melhor som da cidade. Mas parece que tem muita coisa boa vindo para Nova York.

O desafio, se você acredita na cultura de clubes como eu acredito, é impulsioná-la e criar o próximo espaço. Se você não encontra a festa que quer, crie-a.

Você claramente fez isso com a Deviation. O que o mantém motivado agora, já no oitavo ano da festa?
Minha única missão, de verdade, é agradar qualquer que seja a versão de 16 a 20 anos de mim agora. A pior coisa possível é ficar sentado e reclamar sobre como a molecada só gosta de porcaria. As pessoas só podem escolher a partir das opções que têm; não subestime o gosto do seu público. Dos 16 aos 18 anos, eu tinha um gosto fenomenal. Não cresci sabendo quem eram Carl Craig, Frankie Knuckles e Larry Levan. Aprendi indo aos clubes. A primeira vez em que ouvi Kenny "Dope" Gonzales tocar teve um efeito profundo em mim.

Tocar usando um iPod e um sistema de som ruim não é cultura de clubes, mas de alguma forma isso se infiltrou nela. É hora de voltar para a época em que tocar era pressão. Os produtores se matavam de trabalhar a semana inteira para finalizar uma faixa, para que pudessem editá-la a tempo de tocá-la nos clubes. As pessoas deviam levar a cultura a sério. A cultura dos clubes é uma arte.

Quando criei a Deviation, lembro que a ideia era fazer uma festa mensal em Londres e uma festa quinzenal em Nova York. Isso não aconteceu por diversos motivos. Para mim, finalmente ter uma presença em Nova York e trazer a vibe da Deviation para cá, bem — a primeira no salão principal da Output — vai ser especial.

Benji Presents Deviation With Benji B, Skepta, Jay Daniel, Martyn at Output (July 30, 2015) (Contest on Hive.co)

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Tradução: Fernanda Botta