Cultura

O que aprendi ao banir os ecrãs de casa durante um mês

Durante 31 dias, eu e o meu parceiro trocámos uma infinidade de receitas e redescobrimos os mais diversos passatempos.

Por Kaleigh Rogers
09 Fevereiro 2017, 12:46pm

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

Nos últimos 31 dias, sempre que metia os pés no meu apartamento, estava a entrar numa zona sem ecrãs. Sem televisão. Sem computador. Sem telefone. Meu Deus! Eu e o meu parceiro discutimos esta ideia no fim do ano passado, numa perspectiva da versão digital do "Janeiro seco" - período em que muita gente decide renunciar ao consumo de álcool. Iríamos renegar hábitos tão enraizados, como o de jantar todas as noites em frente à televisão. O objectivo era forçarmo-nos a viver um tempo sem essas conveniências.

Acontece que ambos somos jornalistas e, tal como em muitas profissões actuais, não podemos largar assim os ecrãs como se nada fosse. Vivemos entre computadores e smartphones, o dia todo, para trabalhar e manter contactos. Mas, em casa, no nosso espaço particular, poderíamos estabelecer as nossas próprias regras. Pois foi exactamente o que fizemos. Era simples, mas duro:

  • nada de televisão
  • nada de computador
  • nada de telefone

Havia algumas (poucas) excepções: pegar no telefone para ver uma receita, ou meter uma playlist de músicaa tocar. Caso tivéssemos algum trabalho importante para concluir - terminar um artigo no prazo, por exemplo -, tudo bem, luz verde. Se não, a regra era desligar tudo durante a noite e aos fins-de-semana, até ao fim do mês.

Aquele brilho tão familiar. Foto via WikiMedia Commons

"Quis fazer isto para me afastar daquela carga toda de entretenimento que consumimos quase sem pensar, como o Netflix e o Reddit", diz o meu companheiro, Stuart. "É como açúcar. É açúcar para o cérebro e acho que, se as pessoas tentassem largar de repente, perceberiam que é um vício".

Já saíram muitos estudos científicos sobre os efeitos do tempo em demasia diante dos ecrãs na vida das crianças, mas ainda não há muita coisa sobre adultos. De qualquer forma, sabemos que estar ao computador, ou a olhar para o telefone, antes de dormir prejudica o sono e o "multitasking" ao longo do dia - andar entre a cozinha, o Facebook e a caixa de entrada do mail - drena a energia do cérebro. Esses problemas, somados ao facto de que estarmos permanentemente online nos estava a deixar mal dispostos um com o outro, levaram-nos a renunciar aos nossos aparelhos em casa.

Alimentámos uma série de expectativas e objectivos para o mês. Queríamos conversar mais e passar mais tempo olhos nos olhos, em vez de com os olhos nos telefones. Também queríamos fazer coisas para as quais nunca tínhamos tempo - ir ao ginásio, ver aquela exposição de quadros dos anos 80 no Whitney, levar a cabo projectos criativos.

As galerias de arte são mais divertidas com o telefone desligado. Foto por Kaleigh Rogers/Motherboard

Acreditávamos que, sem o ruído e a distracção do desgastante vórtice dos media, teríamos tempo e energia de sobra para alcançarmos as nossas metas. Em muitos aspectos, isto provou ser verdade, mas com certas limitações.

Os primeiros dias foram incríveis, na verdade. Chegávamos a casa, ouvíamos música, cozinhávamos juntos o jantar e - quem diria? - sentávamo-nos à mesa e comíamos. Depois do jantar, Stuart tocava guitarra enquanto eu lia. Concluíamos as tarefas sem hesitação. Foi mágico. "Senti-me nos anos 50", garante Stuart. E acrescenta: "As pessoas simplesmente sentavam-se à mesa, ouviam discos e conversavam, porque era o que tinham para fazer. Gosto de resgatar essa sensação".

E então, chegou o fim-de-semana.

Quando só tens umas horitas de sobra, à noite, a privação de ecrãs não é assim tão difícil. Mas, quando vês pela frente 48 horas desocupadas, de repente, o corte do Netflix soa aterrador. Ainda assim, não foi difícil encontrar passatempos - afinal de contas, vivemos em Nova Iorque. Fomos algumas vezes ao ginásio. E também explorámos novos bairros (até fomos uma vez a Nova Jersey!), só pela diversão do passeio. Fizemos planos com os amigos e, por incrível que pareça, seguimos tudo à risca. Também fomos ao Museu da Imagem em Movimento - um bocado irónico, admito! - para ver a exposição sobre Martin Scorsese.


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A experiência compensou de muitas formas e acabou por ir muito além das nossas melhores expectativas. "É diferente de fazer exercício ou comer bem, que são coisas que demoram para veres resultados. Com a tecnologia, dá para notares a diferença muito rapidamente", garante Manoush Zomorodi, apresentador do Note to Self, um podcast da WNYC. "Tomar esta iniciativa dá-te uma sensação empoderadora, é incrível. Notamos os resultados de imediato".

O programa Note to Self costuma tratar de questões como o cansaço tecnológico e, volta e meia, cria desafios para os ouvintes, para os ajudar a largar os maus hábitos. Um dos projectos, chamado Bored and Brilliant, instigou os ouvintes a sentirem-se entediados por livre e espontânea vontade, numa tentativa de se reconectarem com o seu lado criativo.

A conexão entre tédio e criatividade manifestou-se bastante depressa aqui em casa. Stuart voltou a desenhar, depois de anos. E eu... fico um bocadito envergonhada ao contar, mas voltei a escrever poesia, coisa que não fazia desde a faculdade. A musa regressou e o segredo foi desligar os ecrãs durante algumas horas.

Alguns rascunhos de Stuart, do nosso mês sem ecrãs.

Também sentimos que a nossa relação melhorou. Tivemos mais conversas, ora profundas, ora quotidianas. Apesar de passarmos tanto tempo juntos como antes, não costumávamos ligar-nos desta forma.

No entanto, nem tudo foi como esperávamos. Por exemplo, tempo de sobra para fazer as coisas não significa dinheiro de sobra para fazer tudo o que queremos. Exposições, leituras, jantares fora e cursos são caros. Há alturas em que dá vontade mesmo de espairecer e ver um episódio ou dois de The Office. "Nem todas as noites nos sentámos juntos e tivemos conversas ricas, profundas", conta Stuart. "Às vezes é preciso fazer algo só pela diversão, por isso acabámos por vezes por substituir o entretenimento digital por palavras-cruzadas. Fizemos bastantes palavras-cruzadas".

Mais para o fim do mês derrapámos um bocado. De repente, dei-me conta que estava a cuscar o Facebook quando deveria apenas estar a conferir o caminho para um restaurante. Já Stuart emaranhou-se numa corrente de posts no Twitter no último fim-de-semana.

Mas, no fim de contas, pretendemos agora aproveitar os benefícios do "apagão" e aplicá-los ao nosso dia-a-dia. Queremos que cada clique tenha um propósito; queremos usar os ecrãs deliberadamente. Ver um episódio de Game of Thrones, porque gostamos da série e ficar a par dos acontecimentos, em vez de passarmos três horas a fazer scroll no Reddit irreflectidamente, sem nunca, de facto, conversarmos um com o outro. "A palavra-chave é 'deliberado'", diz Zomorodi. E justifica: "A ideia é manter um uso propositado da tecnologia. Caso contrário, o scroll infinito tende a consumir a nossa vida".

É por isso que desafios deste género são mais do que mero divertimento. Mostram-nos os limites que poderíamos traçar para o nosso bem, num mundo de tecnologia feita para desmantelar limites e nos fazer querer sempre mais e mais. É diferente para cada um e, uma boa maneira de descobrires os teus limites diante em relação aos ecrãs é eliminares esses mesmos ecrãs por completo. Pelo menos durante um mês.


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