análise

A triste verdade sobre Milo Yiannopoulos

Enquanto sua carreira desaba, tem uma coisa que precisamos nos lembrar.
24 February 2017, 11:00am

(Foto: Milo Yiannopoulos fala numa entrevista coletiva no dia 21 de fevereiro de 2017. Via Mary Altaffer AP/Press Association Images.)

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE UK.

Milo Yiannopoulos tem um segredo que passou a vida inteira tentando esconder. Não é sua defesa recém-descoberta de abuso infantil — num vídeo em que ele descarta a "ideia arbitrária e opressiva de consentimento" — que está destruindo rapidamente sua carreira, o levando a pedir demissão do Breitbart e ao cancelamento de sua palestra na conferência conservadora CPAC e o fim do seu livro que sairia pela editora Simon & Schuster. Também não é seu péssimo livro de poesia (algumas linhas, de um poema intitulado Psychosis Manifest: "Meu sofrimento / permite a serpente").

Não. O segredo de Milo é que ele é uma das pessoas mais chatas do planeta.

Ele passa cada minuto acordado tentando esconder esse fato. É por isso que um homem adulto, que costumava se vestir exatamente como o jornalista tímido de tecnologia que ele era, agora se pavoneia por aí com fantasias que variam de "Poochie, o Cachorro, dos Simpsons", "saco de lixo atrás de loja de departamentos" a "figurante do Triunfo da Vontade". Por isso, como qualquer outro reacionário fracassado que fica entediado com as nossas ilhas, ele foi buscar fama nos EUA, onde as pessoas confundem sotaque inglês com inteligência ou vida sexual ordinária com personalidade. É por isso que ele não vai parar de correr na frente do mundo gritando "Olha pra mim!" Ele precisa continuar, porque assim que parar, as pessoas vão perceber que não tem nada para ver ali.

Ouça o que Milo realmente tem para dizer, além das babaquices adolescentes sobre quantos paus ele chupou e como suas roupas são ótimas. Ele acha que o Islã é "sinistro", feminismo é idiota e que o mundo gira em torno dele. Ele é só um pai interiorano, um militar aposentado barulhento cheio de arrependimentos e derrota, cuspindo pedacinhos de couve-de-bruxelas enquanto reclama de imigrantes na mesa de jantar, enquanto os filhos reviram os olhos e empurram as ervilhas de um lado para outro do prato.

O motivo para os comentários de Milo sobre pedofilia o terem prejudicado tanto é porque são as únicas opiniões que ele tem — fora as que são descaradamente fascistas — que não são iguais a de qualquer tiozão de pub. Ele construiu toda sua carreira se dizendo uma "bicha perigosa", o supervilão da internet, um homem que dizia as coisas que as pessoas não deveriam dizer, mas falar a verdade proibida só te coloca na TV se essa verdade for apenas a mesma ladainha velha, chata e convencional de sempre. Desde então, Milo negou defender a pedofilia, dizendo sobre os vídeos: "Se de alguma forma parece (pelas minhas próprias frases desleixadas ou edição enganosa) que eu quis dizer qualquer dessas coisas, me deixe corrigir isso agora: fico enojado com o abuso infantil".

Por um momento, logo depois que meio mundo o ouviu dizer "você pode ficar muito preso nessa coisa de abuso infantil", ele realmente era tudo que dizia ser. E veja onde isso o levou. O público não vê problema em racismo e misoginia; as pessoas estavam prontas para perdoá-lo por dar um escândalo online sobre um filme que não gostou; muitos colunistas não se importaram quando ele encorajou universitários norte-americanos a informar as autoridades de imigração sobre qualquer colega de classe aparentemente mexicano. Mas não achar errado transar com crianças é demais. Então ele perdeu seu contrato de livro, seu grande discurso, sua posição no Breitbart, e provavelmente vai perder muito mais. Que uma universidade convide um fascista para palestrar em seu campus pode parecer liberdade de expressão, mas ninguém quer abrir suas portas para alguém que acha a ideia de consentimento "arbitrária e opressiva".

"Não há motivo para ignorar Milo agora que ele está aqui; é como se uma rede de TV só decidisse parar de dar tempo no ar a Donald Trump depois que ele já estivesse mijando da varanda da Casa Branca."

Os fãs do Milo — e tem muitos deles por aí, ainda agora; caras magrelos, tristes, com barba rala misturada com espinhas e o rosto sempre estranhamente úmido — geralmente têm duas linhas de argumento quando se trata de seu herói. Primeiro, ele só está trolando. Milo é um fanfarrão, um cara irônico, ele diz coisas para chamar a atenção e para chocar, e se ficar bravo com as coisas que ele diz, você já se mostrou ser um brinquedo para ele. Segundo, e relacionado, qualquer crítica ao homem só rende mais atenção para ele: se não fosse por todo o ultraje, ele ainda seria outro nerd triste apontando lápis no Telegraph, e toda vez que zomba das pretensões ridículas dele, você só o está ajudando a se tornar mais famoso e alimentando o moinho do seu ego.

Felizmente, as duas coisas são conversa mole.

Um desses estranhos códigos jornalísticos exige que nenhum jornal descreva Milo Yiannopoulos como qualquer coisa além de "provocador". O que ele não é. Ele não é um provocador, nem um sátiro, ou um brincalhão, ou um troll; ele é um idiota. Milo não tem nenhum senso de ironia; ele é vaidoso demais para o jogo longo e paciente de dizer alguma coisa além do que ele pensa. Veja suas antigas colunas para o Catholic Herald — que foram deletadas, mas nada na internet se perde para sempre — e tudo é terrivelmente familiar: manifestantes são maus, esquerdistas são bullies, a mídia é tendenciosa, todo mundo é grosso comigo; tudo entregue sem nenhum momento de charme ou jogo, e tudo no mesmo tom sombrio de qualquer textão do conservadorismo moribundo.

A segunda linha de argumento pelo menos é mais interessante, porque a esquerda de algum jeito foi sugada por ela. Tem um tabu estranho crescendo ao redor do Milo: não escreva sobre ele, nem diga o nome dele, porque cada vez que você faz isso, ele se torna mais forte. Os simpatizantes de Milo dizem que a esquerda o criou por não gostar dele, e nós concordamos. Mas o que realmente o criou foi um público norte-americano que trata sotaque de escola particular como mágica controladora de mentes, e um establishment conservador tão intelectualmente faminto que promoveria um manequim pintado fazendo sua melhor imitação de Hitchens como a maior mente de suas fileiras.

Não há motivos para ignorar Milo agora que ele está aqui; é como se uma rede de TV só decidisse parar de dar tempo no ar a Donald Trump depois que ele já estivesse mijando da varanda da Casa Branca. Mas está cada vez mais difícil fingir que qualquer menção ao nome de Milo só vai aumentar a venda de seu livro, agora que seu livro nem é mais um problema. Prestar atenção em Milo — não concordar preguiçosamente quando ele diz que é desafiador e até perigoso, mas realmente prestar atenção — está funcionando. Milo está desaparecendo rápido: ele está conosco ainda, mas não por muito tempo. E logo ele voltará a ser o que sempre foi: outro cretino inflado obcecado com sua própria importância, mais uma vozinha chorosa no enorme coral da chatice.

@sam_kriss

_Tradução: Marina Schnoor _

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