​Tem muito motorista do Uber puto com o uberPOOL
Donos dos carros reclamam que, além de ter cada vez mais prestador de serviço pelas ruas, as contas não estão fechando.Divulgação: Uber

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​Tem muito motorista do Uber puto com o uberPOOL

Donos dos carros reclamam que, além de ter cada vez mais prestador de serviço pelas ruas, as contas não estão fechando.
18.5.16

Há menos de um mês chegou à cidade de São Paulo o uberPOOL, uma modalidade do Uber que possibilita aos passageiros compartilhar corridas com desconhecidos que vão para o mesmo destino. Já difundido em outras regiões do mundo, o recurso diminui bem os custos das viagens – dependendo do caso, as corridas ficam até 40% mais baratas do que as feitas com o Uber X, serviço mais básico da empresa. Muito por causa dessa economia, a resposta do público tem sido positiva. O problema é que, para quem está atrás do volante, a conta não está fechando. "Impraticável", "odiei" e "tirando o pool, o Uber é perfeito" são algumas das queixas que ouvi dos motoristas – também chamados de parceiros – nos últimos dias. Para eles, o benefício fica só com quem paga.

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Segundo dados divulgados pela empresa, os valores são definidos de diferentes maneiras. No UberX, uma viagem rende 75% ao motorista parceiro – R$ 15 de R$ 20, por exemplo. Já com o uberPOOL, a conta fica mais complicada. Para o passageiro, a "corrida" ganha um desconto de 10% a 40% em relação ao preço do X. Ou seja, no exemplo dos R$ 20, a viagem passa para R$ 18 com os 10% descontados. Baseados nisso, existem dois cenários possíveis: o de uma viagem sem segundos e terceiros passageiros (ou "matchs", como eles chamam), em que o motorista parceiro recebe 90% do valor da viagem descontada – no exemplo dos R$ 20, ficaria com R$ 16,20; e o caso de uma viagem acompanhada por outros clientes, em que a fórmula muda e o motorista parceiro recebe 70% do valor da viagem de cada passageiro. É aí, nessa matemática financeira simples, que os prestadores de serviço da Uber estão descontentes.

Para os parceiros entrevistados, as corridas do POOL só valem (quando valem) a pena se elas não forem compartilhadas – o que, convenhamos, vai contra sua proposta. "Já usei e odiei. 98% dos meus colegas do Uber também odiaram. Pro passageiro é ótimo, mas para nós só vale a pena se não entrar mais ninguém", diz William*. Ele, que é parceiro da empresa há menos de quatro meses, sente que a chegada do serviço pode diminuir os bons resultados obtidos no início de 2016.

Formado em Direito, ele trocou o escritório de advocacia para se tornar motorista da empresa americana. "Quero estudar para concursos públicos e para conseguir fazer isso preciso de tempo", disse. Por trabalhar principalmente nas madrugadas, o uberPOOL ainda não é a modalidade mais usada na sua rotina. Mas as experiências que teve com o serviço não foram boas: em uma delas, teve que desviar dez quilômetros da sua rota para buscar o segundo passageiro. Para a infelicadade de William e outros entrevistados, o Uber não paga ao motorista a diferença do percurso. "O POOL só funciona desse jeito aqui em São Paulo. Não conheci um motorista que gostou", afirma.

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Além disso, William defende que o processo de desviar e embarcar os outros passageiros é muito demorado – e, dependendo de quanto esses clientes vão andar, o dinheiro não vale a pena. "Às vezes é uma segunda corrida curta e só o que andei até lá já não paga. Mas não podemos recusar as chamadas do POOL. A empresa checa a taxa de aceitação de corridas e, se algo estiver errado, podemos pegar até um gancho."

"Não tive uma corrida que valesse a pena"

Assim como William, Roberto* também não está feliz com a chegada do recurso ao país. Na real, ele está bem puto. Segundo o ex-funcionário do setor de construção civil, as tarifas do POOL são impraticáveis. "Não tive uma corrida que valesse a pena." E, mais do que isso, na sua opinião o Uber está cada vez pior para quem quer trabalhar como parceiro. Com a quantidade de novos prestadores, os clientes estão diminuindo em uma escala muito grande. "De fim de semana está um lixo trabalhar hoje em dia", diz. No seu caso, ele precisa correr atrás de um puta prejuízo pessoal: comprou um carro só para o Uber, teve que vender e está devendo R$ 7 mil na praça. "Vou alugar um carro para tentar me recuperar", conta.

Em resposta a algumas das questões levantadas por seus parceiros, a empresa divulgou a seguinte nota: "Para o motoristas, ao permitir o compartilhamento de viagens, o uberPOOL poderá diminuir o tempo ocioso, além de gerar mais renda com mais pessoas pagando a cada viagem. Em ambos os casos, passageiros e motoristas são beneficiados."

Contrapontos internos

Mas nem todos são como William, Roberto e outros que nem o primeiro nome quiseram dar. Há quem esteja mais confiante em relação ao POOL, analisando a chegada da modalidade como uma chance de aumento no número de usuários. Leonardo*, estudante do curso de Jornalismo da Cásper Líbero, não vê problemas na novidade. Enquanto não encontra estágio na área, o jovem decidiu apostar no Uber pra tentar ganhar uma grana. "Eu tinha carro próprio e vi que podia ser uma boa enquanto não conseguisse o estágio. Agora, mesmo que consiga, eu pretendo seguir no Uber", diz. Trabalhando 12 horas por semana, ele afirma que tira quase R$ 1200 líquido por mês – o restante vai para a gasolina. Mesmo assim, também comenta como as corridas têm diminuindo nos últimos tempos. "Tem muito Uber novo na rua. Às vezes fico até meia hora sem pegar ninguém." E sobre o POOL, não vê diferença: "faria a corrida de qualquer jeito e ainda é possível fazer viagens mais longas".

Confrontando quase todas as opiniões de seus colegas, Daniel*, parceiro do Uber há três meses, é completamente a favor do uberPOOL – e de qualquer iniciativa que diminua o número de carros na rua e ajude o meio ambiente. "Sai mais caro, mas o meio ambiente agradece", diz. Desempregado desde 2015, quando teve que deixar o cargo de gerente operacional do banco onde trabalhava para cuidar do seu avô, Daniel encontrou no Uber a oportunidade de pagar as contas. "Eu estou curtindo. É cansativo ficar sentado no trânsito, mas posso fazer o meu horário e não tenho patrão no meu ouvido", conta. Parceiro há somente três meses, o paulistano de 27 anos conta que o total arrecadado nos primeiros 30 dias foi maior do que os dois meses seguintes. "Tive que aumentar as horas trabalhadas para manter o que estava recebendo."

"Tive que aumentar as horas trabalhadas para manter o que estava recebendo"

Na visão de Daniel, o motivo disso acontecer também é o aumento do número de pessoas trabalhando para a empresa. Para fugir da alta concorrência, ele procura se manter em bairros que costumam solicitar viagens mais longas. Ainda assim, faz questão de ressaltar a ideia de que São Paulo sempre terá demanda. "Muitas pessoas que ainda não usaram o serviço vão aderir logo menos", diz confiante. Com o POOL, ele lida com a mesma perspectiva – inclusive utiliza o serviço como passageiro nos seus dias de folga. "Usei no fim de semana e a pessoa que eu dividi o carro foi conversando comigo numa boa. Se as pessoas aceitaram bem e os carros estão longe das ruas, acho melhor assim. Realmente as coisas estão mudando na cidade."

Já em relação aos colegas que não aprovam o uberPOOL, Daniel acredita que isso depende do jeito que cada um analisa sua própria rotina. "Reclamações você vai ouvir de todo mundo. Todo trabalho tem seu lado bom e seu lado ruim, depende de como você enxerga."

** Por pedido dos entrevistados, somente o primeiro nome dos parceiros foi divulgado