Perguntámos a pessoas na casa dos 30 se odeiam os seus trabalhos
Illustration by Dan Evans
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Perguntámos a pessoas na casa dos 30 se odeiam os seus trabalhos

A julgar pelos resultados de um estudo recente, 36 anos seria a idade em que desistes da tua carreira para te dedicares a outra coisa.
2.2.16

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Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

A julgar pelos resultados de um estudo recente, 36 anos seria a idade em que desistes da tua carreira para te dedicares a outra coisa. Passas a década dos 20 a tentar descobrir a maneira de encontrar um trabalho e, dás por ti, já estás nos 30 e é demasiado tarde para pensares se é realmente aquilo que queres fazer. O pêndulo da vida não pára. Folhas de cálculo durante o dia e a temporada completa de Anatomia de Grey durante a noite. Dar uma vista de olhos no catálogo do IKEA. Esse tipo de coisas.

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A pesquisa levada a cabo pela empresa AAT descobriu que as pessoas começam a sentir-se encurraladas nas suas carreiras quando chegam aos "trintas". Trinta e um por cento das pessoas com as quais falaram disseram que consideram a hipótese de mudar de carreira pelo menos duas vezes por mês, mas a sua principal barreira é o custo elevado de uma nova formação.

Falámos com seis pessoas, actualmente na casa dos 30, para saber como é que o trabalho encaixa nas suas vidas.

Habib, 34, porteiro

O meu trabalho não é o que sempre sonhei. Pensei que acabaria a fazer algo mais interessante e "glamouroso" que isto. Antes trabalhava como gerente num local de apostas e gostava mais do que fazia, mas este trabalho é melhor para mim e para a minha mulher. Estamos separados e temos duas filhas, por isso, se um trabalha de noite e outro de dia, há sempre alguém que pode ficar com as miúdas.

Não estudei muito e nunca pensei em ter um trabalho que exigisse fato e gravata. Trabalhar como porteiro é duro - nunca te habituas completamente a dormir de dia, mas não me queixo. Os tipos com quem trabalho são boa gente e é divertido. Vejo de tudo um pouco nos clubes onde trabalho, por isso tenho sempre boas histórias para contar. De momento, estou bem assim.

Abigail, 34, jornalista freelanceR, mãe de um bebé

Um pouco antes de chegar aos 30 estava no auge das minhas expectativas profissionais, mas, uns anos mais tarde, percebi que era tudo treta e foi aí que me tornei freelancer. Para mim, e para muitos dos meus amigos, chegar aos trintas significa: família e criar raízes. A minha prioridade agora é que o trabalho seja leve, fácil e bem pago. E se andas há 15 anos a fazer mais ou menos a mesma coisa, é assim que deve ser, caso contrário, talvez tenhas escolhido a área errada.

Acho que, quando atinges uma determinada remuneração, é difícil mudar de carreira. Talvez a excepção sejam aquelas pessoas que decidem lançar-se sozinhas e montar o seu próprio negócio. É aquela idade em que: "Ai, gostava tanto de abrir uma editora de discos/loja gourmet/café de decoração nórdica ou vintage", mas muito poucas pessoas conseguem realmente fazê-lo. Se tiveres um companheiro que receba bem e possa apoiar-te, talvez seja mais fácil. Como um banqueiro que patrocina a paixão da sua mulher pela decoração, mas que acha tudo estranho e antiquado.

James, 36, trabalha em marketing

O meu pai trabalhou na mesma empresa durante 40 anos. E sempre nos disse, a mim e ao meu irmão: "Não façam como eu fiz, sejam criativos". Por isso, estudei teatro na universidade e pensei que depois trabalharia em televisão. E foi o que fiz durante um ano ou dois, até que desisti para dedicar-me à comédia com um grupo de colegas. Tentámos arduamente construir uma carreira. Tenho amigos que são actualmente vencedores de BAFTA's e escrevem para a rádio. Mas a maioria não. Fiz alguns trabalhos temporários para me aguentar, mas depois decidi que tinha de ganhar melhor para não estar sempre preocupado com a renda, por isso dediquei-me, permanentemente, a um trabalho na área do marketing, sempre com a ideia de escrever nas horas vagas.

Depois casei-me, mudei de trabalho, sempre na mesma área, com um ordenado melhor e, consequentemente, mais difícil de abandonar. Continuo a escrever, mas fazer disso carreira vai perdendo forma, pouco a pouco. A ambição ainda cá está, aos 36, mas tenho outras prioridades. Um casamento que quero manter vivo, filhos, um empréstimo…e, além disso, a realidade do trabalho criativo não corresponde às minhas expectativas de quando tinha 20 anos. A vontade de mudar de trabalho não desaparece, mas a capacidade de fazê-lo sim.

Jay, 31, estofador

Ganhei sempre bem e estou relativamente satisfeito com a minha escolha profissional, no entanto gostava de receber melhor. Começar de novo demora muito tempo e, normalmente, é bastante dispendioso. Demorei cerca de 25 anos a descobrir o que queria fazer com a minha vida, por isso, provavelmente, é o que continuarei a fazer e cobrarei mais pelo meu trabalho. Estudei cinema na universidade, na altura em que toda a gente te dizia que tinhas de tirar um curso superior.

Uns tempos depois trabalhei num cinema, porque era o que sabia fazer. Voltei para casa dos meus pais, durante um ano, com o objectivo de poupar dinheiro para continuar a formar-me. Fazer aquilo de que se gosta deixa de ser tão divertido quando andas sempre stressado porque não sabes como vais pagar o seguro do carro e as prendas de aniversário dos teus amigos. Gostava de ser electricista no futuro - ganhas bom dinheiro e podes ver as casas das pessoas por dentro!

Daisy, 38, designer gráfica

Não me sinto nada bloqueada - isso seria deprimente. Esta é uma das principais razões pelas quais não me deixo levar pelo consumismo. Os meus gastos mensais são baixos e, para mim, é mais importante economizar dinheiro que gastá-lo em pequenas coisas para sentir-me melhor. Essas economias abrem mais portas no futuro que qualquer peça de roupa ou gadget.

Em todo o caso, as grandes decisões não me assustam. Aos 33 anos viajei durante um ano e voltei a Londres sem nada. O que tenho agora é fruto do trabalho árduo. Poderia voltar a fazê-lo. Claro que não ter filhos ajuda muito, porque as minhas decisões só me afectam a mim e ao meu marido. Dá-se muita importância à ideia de "viver a vida enquanto se é jovem", mas com a minha idade tem-se sabedoria e experiência - são ferramentas muito importantes, se queremos que as nossas decisões de mudança de vida sejam bem sucedidas. E não deviam ser desvalorizadas.

Tom, 33, autor

Não acredito que deixe de ser ambicioso. Nunca tive acesso a trabalhos em que vais subindo na carreira e te vão aumentando o salário, progressivamente, como outros. Para conseguir o que tenho hoje tive de correr alguns riscos. As coisas normalmente correm bem, senão aprendes sempre qualquer coisa. Se falamos de factores externos, estaria mais preocupado se tivesse alguém a meu cargo. Felizmente a coisa correu sempre bem, à hora de correr riscos, mas talvez aprenda essa lição quando chegar aos 40.

Não me surpreende que as pessoas arrisquem mais antes de ter filhos. Por volta dos 50, quando vão para a universidade, ou saem de casa porque têm um emprego, podes voltar a ser egoísta.

Margarita, 34, trabalha numa organizção de direitos humanos

Antes trabalhava no Reino Unido, mas agora vivo na Argentina. Aqui existe menos pressão para acumular coisas materiais. Ideologicamente, estou mais posicionada à esquerda, e penso que esta última fase do capitalismo é o que encoraja o esse consumismo. Não tenho um estilo de vida "tradicional", nesse sentido. Desde que sou adolescente tenho estado em relações livres, com pessoas de diferentes géneros e o casamento nunca me aliciou. Estive em relações onde era uma adulta responsável pelos filhos de outra pessoa, mas para dizer a verdade nunca quis ter filhos. Também não gosto da ideia de estar "presa" a um empréstimo. Penso que tudo isto influenciou a forma como tomei as minhas decisões empresariais. Trabalho das 8 da manhã às 2 da tarde, o que me permite ter muito tempo livre. Trabalho para o Governo, em matéria de direitos humanos, e realiza-me fazê-lo, mas também sou artista e gosto de electrónica. Faço basicamente aquilo que queria fazer quando era adolescente. Demorei bastante tempo até encontrar o equilíbrio que procurava.

Alguns nomes foram modificados.