PASTILHAS DE ECSTASY
Foto via Changing Perspectives.
Drogas

Por dentro do fórum da deep web que ensina a fazer drogas caseiras

"Dread" é a plataforma preferida para aspirantes a Walter White. A primeira regra do clube é: nunca fornecer nenhuma informação pessoal.
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
26 February 2019, 2:18pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Holanda.

Digamos que um gajo muito distante de ti acorda, um dia, com vontade de começar o próprio laboratório de drogas. Suborna um agricultor numa área remota, paga por um dos celeiros e instala-se. Mas e depois? Vai para a deep web, claro. É lá que todas as tuas perguntas sobre como fazer e vender drogas são respondidas. É o único sítio em que é totalmente normal perguntar: “Alguém me pode recomendar um tutorial passo a passo em vídeo para fazer speed?”.

Dread é uma plataforma da deep web onde qualquer um pode conseguir informação sobre as muitas partes chatas envolvidas no fabrico e venda de drogas. Uma dúvida comum por lá: "Se eu quiser mandar um envelope que pareça inocente, escrevo o endereço à mão ou é melhor imprimir uma etiqueta?".


Vê o primeiro episódio de "Hamilton's Pharmacopeia"


Claro que é impossível saber quem está a responder às perguntas – pode ser um puto de 12 anos a gozar com a tua cara – e isso torna a plataforma uma ferramenta com muitas possíveis armadilhas e um monte de partidas.

Ainda assim, há muita gente que se informa por lá. A maioria das perguntas no fórum d/DrugManufacture do Dread é sobre máquinas que fazem comprimidos de ecstasy. Muitos querem saber como fazer aquelas que têm duas camadas de cores diferentes. Não demoram a surgir variações da mesma resposta: “Para fazer comprimidos de duas cores, precisas de uma prensa industrial de comprimidos. É uma prensa com dois moldes onde colocas os pós de cor diferente, que são prensados ao mesmo tempo”, diz um membro do fórum. Isso, claro, gera a próxima pergunta lógica: como conseguir uma máquina dessas?

Screenshot do d/DrugManufacture, com anúncios de traficantes à direita.

A partir daí, a coisa vai-se desenrolando de maneira meio esquisita. Podes imaginar que encomendar uma prensa de pastilhas na Internet para ser entregue em tua casa pode chamar a atenção das autoridades. Mas, os sub fóruns no Dread fornecem respostas pouco claras. “Não compres dos EUA”, por exemplo.

Há uns tempos, o Reddit era o sítio para falar de drogas na Internet normal. Mas, desde o começo do ano, falar sobre compra de drogas no site foi proibido e a comunidade passou para a deep web, onde ninguém se importa minimamente com o que dizes. Essa transição trouxe algumas mudanças, especialmente quanto à privacidade. Toda a informação partilhada é criptografada várias vezes antes de ser enviada para os servidores do site. Os motores de busca não mostram respostas nos threads e o fórum tem configurações de privacidade de dois passos. Se essas configurações necessitam de ser alteradas aparece uma mensagem no ecrã a alertar o utilizador: “Tem cuidado, a tua identidade pode ser exposta”.

O Dread proibiu a partilha de informações pessoais, segundo uma publicação fixada no topo do d/DrugManufacture. Outra regra: não contes a ninguém onde consegues a matéria-prima para fazer qualquer droga que seja. Se essa informação é divulgada, a polícia pode rastrear os fornecedores, o que iria “foder a vida a toda a gente”. Depois de lerem as regras do grupo, os utilizadores podem fazer quantas perguntas quiserem.

Mesmo podendo fazer praticamente qualquer pergunta quando se trata de fabricar, contrabandear e vender drogas, oferecer drogas em troca de dinheiro é proibido no Dread. Segundo os moderadores, o Dread é um fórum, não um mercado online. No subgrupo d/DarkNetMarkets, encontras avaliações de traficantes da deep web. Além disso, foi criada uma “super lista de vendedores”, que visa separar os vendedores confiáveis dos golpistas, enquanto detalha as horas de entrega dos traficantes e a qualidade das drogas que vende.

Os vendedores não podem oferecer os seus produtos na plataforma, mas não há regras contra fazer publicidade. The Psych Charm, por exemplo, tenta atrair utilizadores do site para uma página dele, onde também vende LSD. Ou Dutch Drugz, um traficante da Holanda que diz que antes de expedir a encomenda envia drogas como 2C-B, DMT e ketamina para um laboratório, para assegurar a qualidade do seu produto, depois vende por “um preço módico”.

Esses anúncios apontam para uma nova tendência da Internet. Há 10 anos, todos os traficantes com uma presença online vendiam num mercado central: o Silk Road. Esse primeiro criptomercado era tipo Craiglist, mas para bens ilegais. Drogas, armas, passaportes, tudo era comprado e vendido através de um único criptomercado. Esses dias acabaram; agora há dezenas desses sites – como GammaGoblin, o maior retalhista de LSD da deep web.

No ano passado, a polícia holandesa anunciou uma operação conjunta com outros países, que resultou no encerramento simultâneo de dois grandes criptomercados: o Hansa Market e o AlphaBay. Durante semanas, detectives assumiram secretamente o controlo dos dois mercados digitais, acedendo a conversas que, geralmente, eram criptografadas. Alguns utilizadores que tinham encomendado drogas receberam uma visita surpresa da polícia, enquanto outros que encomendaram mais do que a quantidade para uso pessoal foram presos. As autoridades queriam que as pessoas soubessem que, mesmo a deep web, não garante protecção.

O resultado da ofensiva da polícia foi que alguns adolescentes holandeses apanharam um susto e os fundadores do Hansa Market e AlphaBay foram presos. Todavia, os criminosos online parecem já ter esquecido o episódio: ainda há muita gente a comprar e a vender drogas na deep web como se nada tivesse acontecido.

Aviso: Não recomendamos que comeces a fabricar as tuas próprias drogas, OK? Mesmo se já tiveres reunido todos os conselhos relevantes de um fórum na deep web.


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