Cultura

Quase 25 anos depois, a Supreme ainda é uma loja de skate

Mesmo com as modas virais dos últimos anos, a marca mantém-se consistente na sua missão de ser o que sempre foi.

Por Jonathan Smith
26 Novembro 2018, 11:24am

A loja da Supreme na Lafayette, Nova Iorque, em 2000 durante uma exibição do vídeo da Alien Workshop, "Photosynthesis". Foto por Yuri Shibuya.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Recentemente, a Supreme lançou “BLESSED”, a sua segunda longa-metragem de skate, realizada por William Strobeck. O vídeo é a sequência de “cherry”, de 2014, e o espaçoso Village East Cinema na Second Avenue, em Nova Iorque, encheu para a estreia.

A multidão na sala, formada por skaters locais, profissionais, artistas e amigos da marca, emanava uma energia palpável. Strobeck é conhecido por manter as suas filmagens em segredo até ao lançamento de um vídeo (ele diz que queria recriar aquela sensação de receber uma cassete VHS pelo correio) e só algumas pessoas, para além dos skaters no filme, tinham visto aquilo em que o criador estava a trabalhar nos últimos dois anos e meio. Depois de subir ao palco e mencionar a importância e a memória de Dylan Rieder, skater lendário e parte da família Supreme que faleceu em 2016, as luzes apagaram-se. Na hora e meia que se seguiu, a multidão perdeu colectivamente a cabeça.


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A Supreme é uma marca que recebeu o prémio Menswear Designer of the Year de 2018 do Council of Fashion Designers of America, já colaborou com grandes casas de moda e artistas como Louis Vuitton e Damien Hirst, vendeu parte do seu negócio a uma multinacional de capital privado e, no ano passado, foi avaliada em mil milhões de dólares.

É difícil imaginar outra marca numa posição semelhante com a capacidade ou o desejo de fazer um vídeo realmente bom de skate. Mas, a Supreme é diferente de qualquer outra marca e, apesar do seu sucesso generalizado, o skate continua a ser central na sua identidade.

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A Supreme na Lafayette Street, Nova Iorque.

A loja é uma versão loucamente exagerada da sua skate shop local. É uma galeria de arte mascarada de loja de skate, ou talvez uma loja de skate mascarada de galeria de arte, com instalações rotativas e aquela televisão icónica que passa skate sem parar de uma forma ou outra, como uma chama eterna, há quase um quarto de século.

Mas, a sua forma mais básica é simplesmente “uma empresa de skate que começou como uma loja de skate em Nova Iorque”, como me disse o ex-skater profissional Todd Jordan que, actualmente, gere tudo o que a marca faz relacionado com skate.

O primeiro vídeo da Supreme era uma curta a preto e branco de 16 minutos, do artista Thomas Campbell, intitulada A Love Supreme, com banda sonora da música com o mesmo nome de John Coltrane. O vídeo apresentava Peter Bici, Gio Estevez, Jones Keefe, Mike Hernandez, Quim Cardona e outros a andarem de skate pelas ruas da cidade, misturado com filmagens granuladas dos miúdos a divertirem-se e a viverem a vida em Nova Iorque. É um filme muito bonito, que parece um vídeo caseiro projectado numa parede ou dentro duma loja de skate. Apesar de os vídeos terem 20 anos de diferença, A Love Supreme, cherry e agora “BLESSED” complementam-se muito bem e, essa linha ininterrupta que vem do início até hoje, pode ser vista na empresa como um todo.

Quando a loja abriu na Lafayette Street, em 1994, no que era um antigo escritório, a Supreme tornou-se um ponto de encontro dos skaters, graças em parte ao primeiro funcionário, Gio Estevez, muito conhecido na unida cena do skate de Nova Iorque. O fundador, James Jebbia, que teve uma loja chamada Union antes de trabalhar para a Stüssy, tinha uma apreciação profunda pela estética e vibe geral do skate, mas não conhecia os mecanismos internos de uma indústria notoriamente desconfiada, quando não hostil, para com forasteiros.

Assumindo um papel de fundo e deixando Estevez comandar o balcão, deu à loja espaço para ganhar uma vida própria, animada pelos jovens skaters e desajustados que tratavam a Supreme como uma segunda casa. “A coisa que realmente legitimava a loja, acho, eram as pessoas que lá trabalhavam, não eu. A loja estava sempre cheia de skaters por causa da equipa”, disse Jebbia numa entrevista de 2010 para o livro da Rizzoli Supreme.

Os dias “clássicos” da Supreme com Harold Hunter, Jefferson Pang, Ryan Hickey e outros, foram bem documentados e aquele período conquistou o seu lugar na história do skate. Mas, nos anos que se seguiram àqueles primeiros dias, as filas tornaram-se mais longas e o logo vermelho tornou-se um símbolo de status, portanto era fácil questionarmos se o hype que rodeava o lado streetwear do negócio tinha substituído a dedicação da marca ao skate. Quando me encontrei com Jordan, Kyle Demers e o artista Weirdo Dave, as três principais caras da Supreme (“ninguém aqui tem títulos”, garante-me Jordan) num bar em West Village, perguntei-lhes sobre essa percepção.

Dave, que trabalha com a equipa de design e tem várias colaborações com a loja sob o apelido Fuck This Life, realça que a loja de Los Angeles é a prova de que a Supreme continua a ser no seu cerne uma loja de skate. “Nada mudou”, garante. E acrescenta: “Vais ao posto de gasolina, compras um pack, vais até à loja, ficas por ali a beber cerveja... É sempre um espaço de pessoas loucas que pensam da mesma forma... E essa é, tipo, a verdadeira tradição de qualquer loja de skate”.


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E é assim há bastante tempo. Na mesma entrevista da Rizzoli, Jebbia falava sobre a atmosfera da loja durante os primórdios. “A loja estava sempre cheia de skaters […] Eu estava acostumado à Stüssy e à Union, onde as pessoas iam para comprar alguma coisa. Mas, na Supreme as pessoas ficavam apenas pela loja a conversar”.

E, mesmo sendo verdade que a Supreme expandiu a sua base de clientes desde aqueles tempos, também é verdade que, olhando para as linhas de produtos durante os anos, eles mantiveram uma estética precisa e sem concessões, que continua até hoje. O interior das lojas também não mudou com as décadas. Imaculado, brilhante, ângulos e toques de cor certos e uma selecção com curadoria de shapes de skate pendurados na parede. “Vejo-os como a loja de skate de maior sucesso da história”, sublinha Chris Nieratiko, dono da NJ Skateshop e colaborador da VICE, quando lhe pergunto como vê a marca. E acrescenta: “Eles agem como um dono de loja de skate elitista agiria. O skate metamorfoseou-se e seguiu (às vezes infelizmente) modas com os anos, mas há algo reconfortante na consistência da Supreme.

“Sempre tivemos uma equipa de skate”, explica Demers, que trata de boa parte da gestão de marca da Supreme. E realça: “Mas, agora, é realmente uma equipa pensada, com vídeos e com skaters a tornarem-se profissionais. Sempre fizemos roupas. No entanto, hoje em dia, em vez de algumas t-shirts e casacos, temos uma linha completa. Não é necessariamente uma mudança, estamos simplesmente a fazer mais coisas”.

Num dia chuvoso do início de Novembro, fui ao apartamento de William Strobeck, em East Village, para conversar sobre “BLESSED” e “cherry”. Apesar de filmar o skate há mais de 20 anos e ter captado os primórdios de Love Park em Filadélfia nos anos 90, “cherry” foi a sua primeira longa. Quando o vídeo saiu em 2014, acabou com qualquer dúvida que ainda pudesse pairar em alguns cantos da "skateosfera" sobre a Supreme. Todo filmado a preto e branco e apresentando um grupo de "ratos do skate" quase desconhecidos juntamente com grandes nomes da Supreme, como Jason Dill e Mark Gonzales, a dar tudo pelas ruas de Nova Iorque e LA, era como se Strobeck tivesse agarrado nas coisas mais emocionantes do skate, atirado tudo para uma liquidificadora e cuspido o resultado no ecrã.

O vídeo surgiu depois de Demers, que era amigo de Strobeck desde a adolescência, ter visto uma curta sua que apresentava alguns skaters da Supreme. “Fiz um vídeo para a Transworld com todos eles e, no último minuto, acompanhei o Dylan [Rieder] para filmar com ele, com o Alex [Olson] e com o[Jason] Dill, porque eles estavam em LA. Quando o vídeo saiu, Kyle deu-me um toque e disse: 'Queres tentar fazer este anúncio? Temos este miúdo, Tyshawn Jones, e o Dill na cidade. Queres filmá-los a rolar no fim-de-semana?'. E eu disse claro”. O vídeo que filmaram foi transformado numa curta de 51 segundos, chamada “Buddy”, que serviu como conceito para “cherry”. Strobeck acrescenta: “Por alguma razão, senti aquela vibe, tipo... o vídeo realmente impressionou o dono”. Senti que se encaixava perfeitamente no que era a Supreme”.

Na época, Tyshawn Jones – que este mês foi capa da bíblia do skate, a Thrasher – era apenas um dos putos que frequentavam a loja da Supreme e, tal como muita gente da cena, Strobeck não sabia quem ele era. “Foi perfeito terem proposto o Tyshawn, porque não o conhecia, mas obviamente conhecia o Dill e senti que a dinâmica deles funcionava perfeitamente. Portanto, a partir desse ponto foi tipo: 'Vamos tentar fazer uma longa'”.

Com algumas exceções notáveis, como P.J. Ladd's Wonderful Horrible Life, da Coliseum, os vídeos de skates feitos por lojas, em vez de empresas, eram, geralmente, vistos como algo menor. Os grandes profissionais gostam de poupar os seus melhores clips para os patrocinadores das tábuas ou sapatilhas, deixando as sobras para os vídeos das lojas. Mas, com “cherry”, Strobeck e a sua equipa entregaram um vídeo de loja completo, com um poder cru, que não se parecia com nada que tivesse sido feito antes. Os miúdos no vídeo são realmente jovens, no começo da adolescência e andam de skate com um tipo de urgência que lembrava clássicos das décadas passadas, como Eastern Exposure 3, de Dan Wolfe, ou Photosynthesis, da Alien Workshop (que também tem a participação de Strobeck).

Tanto em “cherry” como em “BLESSED”, a vibe é de uma tribo de gajos a divertirem-se tremendamente. O mundo do skate reparou e “cherry” catapultou Tyshawn e os outros putos da equipa, como Ben Kadow, Sean Pablo, Aiden Mackey, Sage Elsesser e Nakel Smith, para o radar da cena. O grupo que aparece no vídeo teve tal impacto no skate que, depois do lançamento, lojas de skate de todo o país registraram um pico nas vendas de Converse, as sapatilhas escolhidas por alguns dos miúdos em “cherry”, de acordo com um artigo da Jenkem.

Mas, sem dúvida que a coisa que tornou “cherry”, e agora “BLESSED”, tão especial foi o alinhamento de todas essas pessoas a existirem ao mesmo tempo e a estarem na mesma cena, saltitando entre as lojas de Nova Iorque e LA.

“Eles eram naturais aquilo tudo”, diz Strobeck sobre os miúdos. E acrescenta: “Parecia o destino, porque o Sage [Elsesser], o Aiden [Mackey], esses gajos Nakel [Smith] e o KB [Kevin Bradley] frequentavam a loja [em LA]. Por alguma razão encontraram essa loja, sabes? Era tipo: 'Esses skaters são altamente. Porque é que não apareces na loja?'. Cheguei lá e estavam todos a fumar erva, a andar de skate na rua e a escolherem as tábuas penduradas na parede, entendes?”.

“Tivemos umas três gerações de skate importantes a frequentarem a loja e a usarem a marca na época e senti que tínhamos que fazer um vídeo”, justifica Demers. “Tipo, não queríamos necessariamente ter que documentar aquilo. Mas, por causa de gajos como o Dylan e o Alex, que estavam no auge e depois esses putos mais novos, parecia que se não fizéssemos o vídeo naquele momento, ninguém ia saber o que estava realmente a acontecer”.

Se “cherry” foi uma introdução da cena daquela época na Supreme, “BLESSED” é uma actualização, quatro anos depois. Os rapazes cresceram literal e figurativamente. Estão fisicamente maiores, menos constrangidos e a sua selecção de manobras é criativa e de alto nível. E, apesar, de ter jurado guardar segredo sobre o conteúdo real do vídeo até ele ser lançado de forma global, posso dizer que ele é muito bom e vai fazer com que queiras andar de skate com os teus amigos. E esse é, ao fim e ao cabo, o objectivo final de qualquer vídeo de skate.

Em 2018, pode ser tentador pensar na Supreme como definida por linhas muito concretas e uma por uma clientela afastada do skate. Mas, a questão é que a marca tem feito a mesma coisa há quase 25 anos. São uma loja com um sentido ultra definido de identidade e tens a sensação de que tiveram muita sorte que o que estavam a fazer tenha"pegado", porque, se tivessem mau gosto, a relutância em fazerem concessões teria continuado e teriam descarrilado. E isso é tão verdade para o cuidado e qualidade dos seus vídeos de skate, como para as roupas nas suas lojas.

“É uma questão de te manteres fiel à voz que começou tudo”, diz-me Jordan no bar. E acrescenta: “Não é preciso um génio para saber o que é bom... Quando tens um entendimento do que é bom, sabes o que fazes e encontras pessoas que pensam como tu e que sabem o que é bom, então continuas a fazê-lo. E acho que esse factor é algo que a Supreme entendeu desde o começo”.

No final da minha conversa com Demers, Jordan e Dave, perguntei-lhes se ficavam incomodados com a percepção de que a Supreme se afastou do skate e que “cherry” foi uma tentativa de se reconectarem com a comunidade. “Acho que, para a maioria de nós, isso está mais fora do radar”, garante Jordan. E salienta: “Porque vamos para o escritório todos os dias e falamos com um monte de gente sobre o último vídeo da Thrasher. Tipo, literalmente toda a gente com quem trabalhamos, falamos principalmente sobre skate. Às vezes é até estranho. Eu estava meio desligado do skate antes de trabalhar na Supreme. Mas, skate é o que faz o nosso mundo girar. É o que vemos, do que falamos, do que nos lembramos. Sim, é onde nosso coração está, certamente”.


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