Mulheres negras no trabalho Creative Commons CC0
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reportagem

Por que mulheres negras ganham menos que qualquer pessoa

A questão passa longe da competência ou do mérito.
14.12.18

Já dizia Marielle Franco: “Ser mulher negra é resistir e sobreviver o tempo todo”. E resistir aqui é engolir o fato de que receber salários 40% menor que pessoas brancas e homens negros, mesmo com níveis de escolaridades ou ocupações equivalentes.

Aposto que não lhe causa espanto a moça do cafezinho ou da limpeza serem negras. Já que mulher negra em condições de subalternidade é algo naturalizado na sociedade brasileira. A filósofa Sueli Carneiro fala da relação do racismo e da luta para a desnaturalização desse fenômeno, mas ainda estamos longe dessa conquista.

O Brasil é o 10º mais desigual do mundo, num ranking de mais de 140 países. E tal desigualdade somada ao racismo estrutural e falta de políticas públicas resulta em dados alarmantes. Mas a turma que vê vitimismo em tudo o que lhes desagrada dirá que falar de desigualdade racial e de gêneros é o famigerado mimimi, pois demonstra incapacidade crônica de perceber que esses dois fatores têm influência direta na disparidade social no Brasil. Então decidimos desenhar o que deveria ser óbvio para qualquer pessoa que viva em sociedade.

Mulheres negras são, na média, menos valorizadas em comparação com as demais combinações de gênero e raça. De acordo com a pesquisa Retrato das desigualdades de gênero e raça - 20 anos, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), o salário médio de mulheres negras de 1995 a 2015 era R$ 1.027,50, enquanto o de homens brancos era R$ 2.509,70 - ou seja, o rendimento do primeiro grupo equivale a 40,9% do segundo. Ah, sim: já em 2015, homens negros recebiam, em média, R$ 1.434,10, ao passo que mulheres brancas ganhavam R$ 1.765.

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Quando o assunto é ensino superior, a grana média de mulheres negras é R$ 2.918 - em comparação com homens brancos, os caras embolsam R$ 6.702. Por fim, homens negros com graduação completa recebem salário médio de R$ 4.810 e mulheres brancas, R$ 3.981. Treta, não?

Para Priscila Akimi Hayashi, economista pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), a disparidade salarial está relacionada a outros problemas socioculturais. “Os maiores salários estão em grande parte vinculados a um maior nível educacional por parte do trabalhador – isto é, anos de estudo –, ao passo que os menores níveis salariais eram atribuídos a menores patamares de instrução", explica.

Priscila atribui à dupla discriminação que a mulher negra sofre no mercado de trabalho. “Se levar em conta as características gênero e cor de pele, o perfil padrão para o mercado se concentra no masculino, com cor de pele branca”, comenta.

Para diminuir o problema da desigualdade, Patrícia Santos criou a EmpregueAfro, uma empresa voltada à consultoria e recrutamento de pessoas negras. Conversamos sobre a relação com as empresas que podem vir a contratar mulheres negras e ela explica: “Eu, como mulher negra e representando a base da pirâmide da exclusão social, entendo a importância de recorte interseccional".

Mulheres negras no trabalho / Foto: Creative Commons CC0

Mulheres negras no trabalho / Foto: Creative Commons CC0

Mulher negra e mãe solo, Patrícia conhece bem e sabe o que é estar na base da pirâmide da exclusão social e a importância do recorte e reflete isso nos processos de seleção, treinamento e recrutamento da sua empresa. “Nós procuramos falar para eles [empresários] a importância de ter políticas de equidade salarial e da importância de, ao pensar em políticas de equidade salarial e inclusão de mulheres, fazerem recorte de promoção de mulheres negras”, comenta.

Mas esse processo não é algo que pode partir apenas das mulheres negras, como explica Patrícia: “Entendemos que é uma ação afirmativa das empresas e que elas têm que, e precisam, se posicionar em relação a isso”.

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No caminho de uma possível solução do problema, a economista Priscila se posiciona com base na sua pesquisa. “Acredito que uma das principais práticas que poderiam ser aplicadas ao problema é na educação, a qual tem grande relevância em estudos sobre disparidades salariais, e por se tratar de uma medida estrutural, combinada a planejamentos políticos e econômicos poderá sanar o problema a longo prazo”, diz.

Desenhando o óbvio

A desigualdade salarial entre mulheres negras e homens brancos é refletida no dia a dia e, como consequência, em relações de liderança. Segundo a pesquisa Perfil social e de gêneros das 500 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas, do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) em parceria com o Instituto Ethos, 1,6% de mulheres negras ocupavam cargos de gerência e 0,4% estavam em quadros executivos. Sendo assim, figuras como Rachel Maia, CEO da Lacoste Brasil, não são exceções por acaso.

Ao contrário do que uns e outros possam concluir, isto não é reflexo de suposta ineficiência de mulheres negras em cargos de liderança. Alguns caras parecem não ter maturidade para lidar com o fato de mulheres serem suas chefes e alguns acham o fim do mundo obedecer ordens de mulheres negras – só desenhando para deixar mais claro por que o espaço delas no mercado de trabalho é tão reduzido.

“Se compararmos a produtividade de uma mulher negra com a de um homem branco, quando ambos têm o mesmo nível de instrução, o mesmo tempo de experiência de trabalho e a mesma qualificação, talvez não mudaria [nada] em termos de números. Mas, só por ela ser mulher e negra, o mercado a cortará ou irá rever a possibilidade de ela assumir um cargo no qual talvez um homem branco fosse mais 'aceitável'", pondera Akimi.

Efeito-borboleta

Para quem acha que a desigualdade salarial entre mulheres negras e demais grupos separados por gênero e/ou raça não teria reflexos na sociedade, um aviso: errou feio e errou rude. Vamos lá: quase 54% da população nacional é negra – leia-se composta por pretos e pardos – e 51,6% da população tupiniquim é composta por mulheres. Além disso, havia 28,6 milhões de famílias no Brasil chefiadas por mulheres em 2015 e quase 15,9 milhões tinham como líderes mulheres negras – e dizer que essas formações familiares são “fábricas de elementos desajustados” é um puta de um vacilo.

Deste modo, como mulheres negras já são desvalorizadas no mercado de trabalho por serem mulheres e negras, as rendas delas serão menores. E, ao levar-se também em conta que elas têm de fazer um corre absurdo para sustentar suas respectivas famílias e ainda dar conta dos afazeres domésticos, uma consequência disso é elas terem tempo escasso ou até mesmo nulo para estar ao lado dos próprios filhos e, entre outras coisas, acompanhar as vidas escolares deles.

A vida das mães solo

A ausência forçada delas no dia a dia de seus filhos e a baixa renda que elas têm para criá-los têm consequências não apenas a médio prazo, ou seja, na formação da criança enquanto cidadã. A treta é imediata e é refletida até mesmo na alimentação e no desenvolvimento biológico delas. “Se você for em uma escola de ensinos médio e fundamental, você verá alunos cuja única oportunidade de ter uma alimentação completa é dentro da escola, assim como em casos de alunos que sequer conseguem se munir de educação. E isso faz acontecer o problema da evasão escolar”, completa Priscila Akimi Hayashi.

No entanto é importante salientar que apenas considerar tais problemas acarretados por essa ausência da mulher negra no dia a dia dos seus filhos não é de certa forma culpabilizar novamente a mulher por uma estrutura que é muito maior que ela. Um mercado de trabalho desigual e exigente, uma família desestruturada, uma sociedade racista, machista e desigual, esse sim é o pacote completo e que fazem a coisa toda ainda maior.

Por fim, para além de frases de efeito e postagens descoladas nas redes, vamos atentar-se à premissa de Angela Davis que quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela. Pois se continuarmos do jeito que as coisas vão, com tamanha falta de empatia e responsabilidade social, toda essa estrutura permanecerá estagnada e, evidentemente, mantendo privilégios de brancos e brancas e subalternizando cada vez mais mulheres negras no mercado de trabalho.

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