Saúde

Ansiedade é a nossa nova religião

A psicanalista norte-americana Jamieson Webster explica porque é que toda a gente anda a tomar medicamentos e porque é que o sexo no mundo virtual anda a substituir o sexo na vida real.

Por Gideon Jacobs; ilustração por Lia Kantrowitz
11 Dezembro 2018, 3:30pm

Ilustração por Lia Kantrowitz.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Há algumas semanas, falei com a psicanalista Jamieson Webster diante de uma plateia, num evento levado a cabo na NeueHouse, em Nova Iorque, EUA, a que decidimos chamar de “How to Exist OK (LIVE)”. Jamieson tinha acabado de publicar o seu livro Conversion Disorder, pela Columbia University Press, que integra uma teoria psíquica pesada com um enquadramento incrivelmente pessoal. Intelectualmente denso, mas ainda assim acessível, a obra ilustra bem aquilo que torna Jamieson única: é uma académica lacaniana que, ao contrário de todos os outros académicos lacanianos que já conheci, consegue ter uma conversa totalmente normal.

Vale a pena apontar que, enquanto conversávamos, eu estava sentado numa poltrona e Jamieson estava deitada num divã. Tinha-lhe enviado uma mensagem no dia anterior, dizendo-lhe que seria engraçado entrevistá-la como se eu fosse um seu paciente, mas ela rapidamente respondeu: “EU QUERO FICAR NO DIVÃ!”. Concordei. Ordens médicas.


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Abaixo podes ler uma versão editada e condensada da transcrição daquela conversa.

VICE: Achas que viver "OK" é, tipo, algo bom? Viver de forma "OK" é um objectivo decente para se estabelecer, ou é uma expectativa muito alta ou muito baixa?
Jamieson Webster: Em Civilization and Its Discontents, Freud ataca a questão da felicidade, o que se aplica bem aos dias de hoje, porque acho que as pessoas esperam ser felizes. E esperam que todas as armadilhas da vida moderna tenham sido criadas para as fazer felizes e, quando não as fazem felizes, as pessoas culpam-se a si próprias.

Isso é parte do meu livro - não nos sentimos apenas doentes com os nossos corpos, mas também sentimos culpa por nos sentirmos doentes com os nossos corpos, especialmente num mundo que diz que os nossos corpos deveriam funcionar muito bem, que deveríamos levantarmo-nos todos os dias, ser produtivos, bonitos, estar em forma e ter óptimos orgasmos. Quem é que consegue fazer isso tudo? Portanto, acho que “OK” está bem.

Então, a minha pergunta é: num país como os Estados Unidos, onde uma em cada seis pessoas tomam medicamentos psicotrópicos, estamos menos "OK" que nunca?
Tenho que pensar que toda a gente sempre esteve doente. Acho que seria doentio imaginar que as pessoas viviam melhor há muito tempo atrás, essa é uma nostalgia ao estilo “Make America Great Again”.

Mas, acho que há algo nas nossas expectativas que pode estar a mudar. Não tenho a certeza, mas vejo a forma como a vida contemporânea se alimenta das expectativas de que não deverias sentir-te mal. Só não vejo o que é que esse mundo te fornece além de desconforto. Acho muito desconfortável ser humano.

Uma coisa que digo sempre aos meus pacientes: ao leres a grande literatura do Mundo, se voltares, tipo, às tragédias gregas, as pessoas não estavam bem. E a vida nessa época sempre foi assolada por guerra, pobreza e doença. As mulheres morriam constantemente durante o parto.

Muitos desses aspectos materiais da vida foram resolvidos e, ainda assim, o desconforto continua. Acho isso interessante. Com a medicina moderna, podemos esperar viver muito mais, mas não podemos esperar muito mais que isso.

Quais são alguns dos principais obstáculos que encontras com os teus pacientes? O que é que se atravessa no caminho entre eles e o existirem de forma "OK"?
Há uma carta incrível de Freud para a princesa Marie Bonaparte. Ele falava sobre a depressão dela e dizia “Acho que o problema com os deprimidos é que eles, simplesmente, têm expectativas muito altas para a vida. Acham que a vida deveria ter mais significado do que tem”. Para Freud, questionar o sentido da vida, basicamente, já é ser neurótico. Uma das coisas que descobri com os pacientes é essa necessidade de encontrar significado e muito do que um psicanalista pode fazer é trabalhar para parar essa máquina que está constantemente a processar informação e a pensar que há alguma coisa que tens de entender, resolver, para fazer sentido e te poderes sentir melhor. Também acho que é por isso que as apps de meditação fazem tanto dinheiro. Porque, param-te o cérebro.

No teu livro, chamas à nossa “ansiedade colectiva” de a nossa “nova religião”. Uma palavra-chave do título, “conversão”, é, ao fim e ao cabo, uma palavra religiosa. Conversão implica um antes e um depois. O paciente antes da análise e depois da análise; os budistas são não-iluminados e depois iluminados; os cristãos estão perdidos e depois encontram-se. De certa maneira, a terapia, como a religião, às vezes promete salvação, certo?
Não quero prometer salvação. Estava interessada no facto de que a conversão na psiquiatria significa uma mudança energética radical. Lendo autores como William James, começas a ficar muito interessado em experiências de conversão religiosa; ele diz que alguma coisa tem que ser tão radical que faça com que onde estavas antes e onde estás depois sejam marcados de maneira diferente.

E a psicanálise andava a dizer a mesma coisa, que alguma mudança tem que acontecer para fazer uma diferença estrutural para a pessoa. Psicanálise significa essa literatura. Não é só tipo “Ah, agora entendo”. Significa, literalmente, que algo muda no nosso corpo. William James estava a dizer a mesma coisa sobre experiências religiosas, que algo material aconteceu àquelas pessoas. Às vezes isso acontece lentamente. Às vezes é como ser atingido por um raio. E ele estava interessado na diferença entre esses fenómenos.

Bem, uma diferença entre mudança gradual e um raio é que um raio parece mais divertido. E fácil. Num mundo que alimenta constantemente o nosso desejo de gratificação instantânea, achas que ainda temos paciência para a mudança gradual?
Depende do paciente. Quer dizer, há pacientes para quem é um raio atrás do outro. E há pacientes que passam três anos à espera que isso aconteça e, eventualmente, acontece, mas andaste na lama durante um longo tempo.

Também digo que isso depende da ansiedade. Os pacientes que são mais frustrados são aqueles que têm uma ansiedade alta. É muito difícil analisar a ansiedade. Quer dizer, o que é que estás a analisar? Tens que pressionar a pessoa para fazer algo na sua vida que obriga a ansiedade a tornar-se outra coisa, que é uma das coisas mais difíceis de fazer como analista, porque não é falar, não é analisar, não é jogar com sonhos. É, literalmente, pressionar a pessoa a fazer outra coisa em vez de ficar ansiosa. Quando penso nisso, que a ansiedade está em alta no mundo, fico muito, muito nervosa.

Queres dizer... ansiosa?
Sim. Também funciona.

Podemos estar a abordar território Zen koan, mas esperar a mudança como um raio não é o principal impedimento para experimentar esse momento?
Não é a coisa mais neurótica desejar o desejo? Quão fundo no desejo estás, no momento que desejas ter o desejo?


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No teu livro, dizes que precisamos de voltar a examinar a psicanálise, num mundo onde “sintomas viralizaram, como bactérias resistentes a antibióticos”. Isso deixou-me curioso. Como é que as informações médicas disponíveis na Internet afectaram o teu trabalho?
Às vezes os pacientes chegam com todas essas ideias do que acham que está errado neles e isso não vem de dentro. Vem da Internet. Às vezes ficam danados comigo quando lhes digo “De onde tiraste essa ideia?”. E às vezes acabam por ter uma ideia reafirmada.

Também dizes no livro que temos de reexaminar a psicanálise num mundo onde “a contradição do anseio por fama instantânea acontece numa geração que fica em casa mais tempo que nunca, viciada numa vida virtual”. Como é que a Internet, no geral, mudou a nossa habilidade de existir de forma "OK"?
No Japão, 40 por cento das pessoas dizem ter nojo de sexo. Nos EUA, supostamente houve um declínio de 15 por cento na actividade sexual. As pessoas já não querem foder. Os adolescentes no ensino secundário não andam a trocar mensagens picantes. Preocupo-me com o facto de as pessoas já não quererem chegar perto dos corpos umas das outras. Há uma coisa de lutares contra o teu corpo, contra os nossos corpos, os corpos das outras pessoas e o quão horrível os corpos das outras pessoas são, que ajuda a lidar com a sexualidade na vida. E, se não estamos a fazer isso, não sei o que vai acontecer.

Para mim, não é que a intimidade já não esteja a acontecer, mas sim que está a acontecer no reino digital. Pode parecer tonto, mas acho que esta é uma questão pós-moderna séria do nosso tempo: é realmente assim tão diferente fazer sexo no mundo real e fazer sexo pelo telemóvel?
Há uma diferença. Não estás a controlar a pessoa como quando ela está à tua frente. Também não estás a ter o controlo do teu corpo como quando ele está em contacto com outro corpo. Portanto, acho que o mundo virtual te dá uma sensação de falso controlo e omnipotência, que te ajuda a filtrar a ansiedade. Mas, talvez eu seja, tipo, só antiquada. Não quero ser antiquada.

Como é alguém consegue existir de forma "OK"?
Não sei se há uma resposta.


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