Este adolescente traduziu versos da Bíblia e do Corão para ADN e injectou-o em si próprio

Poderá a bioengenharia tornar-se a nova grande tendência adolescente?

Por Daniel Oberhaus; Traduzido por Madalena Maltez
|
11 Janeiro 2019, 10:09am

Imagem: Shutterstock; Composição: Motherboard

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

Um estudante francês do ensino secundário terá, alegadamente, usado bioengenharia para criar ADN baseado em versos da Bíblia e do Corão, que depois injectou nas próprias pernas. Adrien Locatelli, de 16 anos, de Grenoble, França, publicou um pequeno ensaio no servidor Open Science Framework, no qual garante ter produzido fios de ADN que correspondem a versos bíblicos e do Corão. Locatelli diz que, depois, injectou o ADN que continha os versos da Bíblia na perna esquerda e o ADN com os versos do Corão na perna direita.

"Fiz esta experiência exclusivamente como um símbolo de paz entre as duas religiões e a ciência", explica Locatelli à Motherboard por e-mail. E acrescenta: "É um acto simbólico". As proteínas criadas por Locatelli são, basicamente, pequenos fios de ADN, que é feito de nucleotídeos que só podem ser combinados de maneiras específicas. Estudos anteriores mostram que nucleotídeos artificiais podem ser usados para guardar dados, como o código de uma carteira de Bitcoin, mas até agora nunca tinham sido mesmo injectados em pessoas.


Vê o primeiro episódio de "Motherboard"


Locatelli diz ter juntado vários caracteres do alfabeto hebraico aos nucleotídeos para produzir um fio de ADN que corresponda aos primeiros versos do Livro do Génesis da Bíblia. No ensaio que publicou, revela ter usado uma técnica similar para traduzir o Corão e as letras árabes para código genético. O adolescente diz ainda ter usado uma técnica conhecida como "recombinant adeno-associated virus" (rAAV) para escrever a Bíblia em código genético de vírus. O ADN que continha o verso do Corão foi injectado como proteína, sem o vector viral. No artigo, Locatelli não entrou em detalhes sobre como clonou o gene como vector viral.

Segundo os recibos a que a Motherboard teve acesso, Locatelli gastou mais de mil e 300 dólares [cerca de mil 130 euros] em E.coli e vírus AAV2 da Vector Builder. Locatelli assegura também que não tinha nenhuma experiência anterior em bioengenharia. "Acabei de fazer um estágio de uma semana no Instituto de Biociências Avançadas em Grenoble", diz Locatelli. E acrescenta: "O meu pai é padeiro e a minha mãe contabilista. O meu pai concorda [com a experiência], mas à minha mãe não contei".

No artigo que escreveu, Locatelli explica que a injecção viral lhe causou uma pequena inflamação na perna esquerda, que durou cerca de um dia, mas que a injecção de proteína não causou nenhum efeito notável. A experiência de Locatelli, no entanto, caiu mal a muitos bioengenheiros. Sri Kosuri, bioquímico na UCLA e pioneiro da utilização de ADN como armazenamento de dados, escreveu num tweet que tinha sido alertado para a brincadeira de Locatelli quando o Google Scholar "infelizmente" lhe enviou um alerta pelo seu nome ter sido mencionado no artigo de Locatelli.

"2018 nunca mais acaba", escreveu Kosuri num outro tweet. "Fazer qualquer experiência com humanos ou com animais, acarreta certos riscos", explica Kosuri à Motherboard por e-mail. E realça: "Também é necessário considerar o lado ético da experiência".

Locatelli, no entanto, mantém-se fiel à sua decisão. "Acho que quando as pessoas não percebem alguma coisa, têm medo", salienta. E conclui: "A bioengenharia é algo maravilhoso. Não fiz nada de perigoso. Se fosse assim tão perigoso, não poderia ter comprado estes produtos na Internet. Não vamos banir as facas só porque nos podemos cortar".


Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.