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Drogas

Porque é que há tantos jovens britânicos a fumar crack?

O ano passado marcou um aumento de 30 por cento no que diz respeito a pessoas abaixo dos 25 anos que, no Reino Unido, procuram tratamento para a dependência da droga.

Por Emily Goddard; Traduzido por Madalena Maltez
15 Março 2018, 1:09pm

Foto: Alec Macdonald / Alamy Stock Photo.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

“Sinto o sabor do amoníaco”, diz Suzie, quando consegue recuperar o fôlego suficiente para formar frases entre ataques de tosse. “Não te sei dizer como é o sabor exactamente, mas sei que é do amoníaco onde o crack foi lavado. É como se estivesse agora a deixar o meu corpo”, explica.

A mulher de 24 anos usou crack intermitentemente nos últimos 10, mas parou há uns dias. Decidiu tentar ficar limpa mais uma vez e espera que desta seja para sempre. Um internamento recente fê-la perceber os efeitos devastadores e provavelmente irreversíveis da droga na sua saúde – física e mental. Agora, enfrenta um diagnóstico de doença pulmonar obstrutiva crónica – ou “pulmão de cracker”, como é conhecida coloquialmente. E, se não parar de fumar a droga, o seu nível de saturação de oxigénio no sangue – que já cai frequentemente para níveis perigosos de 88 por cento – vai continuar a cair a pique. Eventualmente, vai depender de uma botija de oxigénio para viver.


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E fumar crack – o que Suzie fazia com um cachimbo improvisado a partir de uma bombinha de asma vazia furada com uma agulha – também já lhe não dá a “moca” que dava dantes. O problema é isso não faz com que seja mais fácil largar o vício. “Agora fico paranóica”, conta. E acrescenta: “É o vício, a rotina. Isso é o mais difícil. O crack domina a tua vida".

Suzie faz parte de um grupo crescente de consumidores em Inglaterra que esperam conseguir largar o crack, substância três vezes mais viciante que cocaína em pó. O número de pessoas que procuram ajuda para acabar com a dependência da droga subiu 23 por cento no último ano, de 2.980 para 3.657, segundo números do Sistema Nacional de Monitorização de Tratamento para Drogas. É um crescimento considerável, até porque o aumento tinha sido de apenas três por cento no ano anterior.

Este aumento de pessoas que se apresentam para tratamento devido a problemas com crack, especificamente, é ainda mais chocante quando se tem em conta o quadro geral, já que surge depois de uma queda de três por cento no número global de indivíduos a receberem ajuda para problemas com álcool e outras drogas – a maior queda registada nos últimos seis anos.

Os consumidores têm idades bastante variáveis, mas talvez a coisa mais alarmante seja o pico de 30 por cento entre pessoas com menos de 25 anos, a primeira subida nesta faixa etária na última década. Igualmente, o número geral de jovens adultos a procurarem ajuda para dependências de outros tipos de drogas e álcool caiu 45 por cento desde 2005/06.

Sem surpresa, estes números vivem lado a lado com dados que mostram que, hoje, cada vez mais pessoas usam crack quando comparado com os últimos anos. A última estimativa coloca o número de utilizadores em Inglaterra em 182.828, que se traduz num aumento de 10 por cento entre 2011/12 e 2014/15. E cada vez mais pessoas estão também a injectar a droga – um aumento de 18 ao longo de uma década. As apreensões de crack pela polícia também estão ao nível mais alto desde 2008, depois de um aumento de 16 por cento num ano, de 4.718 apreensões para 5.484.

Este regresso do crack é alimentado por vários factores, mas o mais crucial é que a droga está a ficar mais pura e mais barata. A DrugWise diz que os níveis de pureza do crack estão num ponto “sem precedentes”, com uma média de 74 por cento – mas informadores sugerem que, por vezes, pode chegar a 90 por cento. Esse grau de pureza também contribui para um aumento de 16 por cento em mortes relacionadas com cocaína (pó e pedra não são diferenciados nos dados do Gabinetes Nacional de Estatísticas) em Inglaterra e no País de Gales nos últimos 12 meses. Para além disso, o preço do crack também caiu 13 por cento desde 2007; com um papelote de 0,2 gramas a ser vendido entre 17 e 23 euros em algumas áreas.

Dolly, 42 anos, que fumou o seu primeiro cachimbo – “numa lata de Coca-Cola” – depois de um concerto dos Oasis na G-Mex, em Manchester, em 1997, e acabou a consumir durante 11 anos seguidos, trabalha agora na área de tratamento de toxicodependências. Gastava até 790 euros por dia na droga e salienta o facto de o preço da pedra não se ter alterado durante décadas, até mais recentemente. “Tendo em conta a inflação, o crack é a única droga que continuou com o mesmo preço desde os anos 90”, diz. E acrescenta: “O preço das outras drogas flutua, mas o crack nunca flutuou. Era sempre o mesmo preço, independentemente da qualidade".

Os traficantes hoje também fazem descontos a quem compra crack e cocaína em maiores quantidades. “Consegues três pedras por 28 euros, seis por 56 euros, 12 por 113 euros”, sublinha Suzie. E recorda: “Quanto mais compras, mais desconto tens. Podes escolher e misturar heroína e crack. Eu costumava comprar duas pedras de crack e um papelote de heroína, ou quatro e dois se tivesse 56 euros”.

Mudanças geográficas nas redes de distribuição de drogas estão também a alimentar o crescimento da popularidade do crack. O fenómeno das chamadas “linhas dos condados”, em particular, abriu novas rotas de abastecimento, com gangs urbanos a ramificarem-se para operarem – geralmente com recurso a miúdos entre os 15 e 17 anos – em áreas costeiras e rurais do país.

A constituição física do crack torna a droga perfeita para estas redes dos condados a transportarem facilmente por grandes distâncias. “É um produto muito estável”, diz Ian Hamilton, que investiga o consumo de substâncias na área da saúde mental na Universidade de York. “E as apreensões indicam que estão a ser encontradas quantidades menores. Suspeito que os traficantes estão a partir a droga em partes mais pequenas para depois a enviarem para o interior”.

Suzanne Sharkey, membro da comissão LEAP UK (Law Enforcement Against Prohibition) e ex-polícia infiltrada, teme que o padrão de tráfico vá continuar a alimentar a ascensão do crack. “Há crianças a levarem crack de alta qualidade para cidades pequenas e a competição está a começar a aquecer”, revela. E acrescenta: “Não vai demorar muito para que um grupo diga aos consumidores 'Tu ganhas uma pedra grátis se me trouxeres outro cliente'. Os mercados encontram sempre forma de se incentivarem. Não sabemos inteiramente que influência as rotas dos condados terão no mercado, mas não me parece nada de bom e precisamos de pensar em opções. Há um receio cada vez maior de que o uso de crack possa continuar a subir nos condados”.

Enquanto as redes de tráfico avançam com as suas operações, o sector do tratamento está a fazer o mesmo para ajudar o número, cada vez maior, de pessoas que se querem curar do vício e dos efeitos secundários complexos do consumo de crack. Há investigações em curso e um estudo descobriu que a canábis – substância que Suzie achou útil para diminuir a vontade de usar crack – pode oferecer uma potencial ajuda na redução do consumo; Hamilton, porém, diz que a erva ainda é uma solução “complicada”.

Ainda não há um tratamento médico e psicológico específico. A benzodiazepina é a principal opção dos médicos, mas "benzos" têm os seus próprios riscos, especialmente tendo em conta os cortes nos serviços de saúde. “Os psiquiatras dedicados às toxicodependências foram dizimados – são demasiado caros para os serviços de tratamento lhes darem emprego por estes dias”, explica Hamilton. E salienta: “Por isso, o que se passa é que são enfermeiros quem prescreve o tratamento. E, simplificando, muitas vezes não estão ao mesmo nível que os médicos. Enfermeiros tendem a seguir o BNF – o guia britânico de prescrição – no limite. Mas isso não ajuda muito no caso de consumidores de crack e de cocaína”.

Pedras de crack. Foto: DEA.

Hamilton também se mostra preocupado com o número de consumidores de crack que se encontram numa espécie de limbro entre diferentes serviços e sem uma solução apropriada para os seus problemas. Crack e cocaína podem causar vários problemas psiquiátricos, com paranóia registada em 84 por cento dos utilizadores de cocaína e o crack associado a sintomas mais frequentes e intensos. Dolly e Suzie descreveram sinais de psicose, ansiedade e sintomas de transtorno de stress pós-traumático induzidos pelo seu consumo de drogas.

O problema é que os consumidores, segundo Hamilton, acabam entre tratamentos com outras drogas e serviços de saúde mental. “Isso tem parcialmente a ver com diferenças de conhecimento, mas é uma situação particularmente perversa”, explica. E adianta: “Os serviços não recebem financiamento suficiente e faltam recursos. Para resolver o problema era preciso trabalhar em conjunto. Como as coisas funcionam neste momento, se alguém é encaminhado para ti numa unidade de saúde mental e está a tomar medicamentos, tu reencaminhas a pessoa de volta para a equipa de tratamento de drogas. Esta, por sua vez, sente que a pessoa problemas de saúde mental e manda-a de volta para a equipa de saúde mental. Precisamos de um serviço integrado”.

Mas Dolly, que ainda convive diariamente com os impactos físicos e psicológicos de ter despedaçado o seu sistema, aos poucos, durante tanto tempo, diz que há esperança e que as pessoas podem recuperar-se do vício do crack. “Sinto-me abençoada por ter sobrevivido, porque a dada altura pareceu-me que não seria suposto”, diz. E conclui: “Fui consumidora de crack durante 11 anos e, se consegui sair, qualquer um consegue. Somos mais fortes do que um bocado de um produto químico”.


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