Dinheiro, competição e machismo perpetuam a cultura de assédio sexual na música
Noisey

Dinheiro, competição e machismo perpetuam a cultura de assédio sexual na música

A violência de gênero está na base da indústria musical. Dados e histórias de mais de vinte mulheres nos EUA mostram como a cultura e as condições de trabalho criam o cenário perfeito para abusos.
MG
ilustração por Meaghan Garvey
SO
Traduzido por Sarah Oliveira
21.3.18

Matéria originalmente publicada no Noisey US.

Atenção: este artigo contém descrições de assédio sexual e agressão.

Claire trabalhava há pouco tempo em uma gravadora quando foi a um show com um colega sênior. Ela não queria beber, afirma, mas o colega insistiu — assim como tinha repetidamente a convidado para sair até ela concordar em ir ao show. Claire (que não quis divulgar seu nome verdadeiro), uma funcionária nova, considerou que ofendê-lo ou se mostrar desinteressada podia comprometer sua posição na empresa.

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Claire não se lembra do quanto bebeu naquela noite, nem sabe por que ele a levou para casa de carro em vez de os dois irem se encontrar com outros colegas, como planejado. Ela se lembra de seu rosto pressionado contra a janela do carro quando ele tentou beijá-la. Claire disse que não e o empurrou. Porém, mais uma vez, ele insistiu.

Cansada e enjoada, ela pediu para usar o banheiro pensando em fugir. Lá dentro, Claire diz que ele a agrediu. Depois, ela entrou em pânico e se apavorou — não apenas com o colega, mas como o incidente podia afetar a carreira dela.

"Eu não queria ser a mulher do 'abuso sexual'", Claire disse. "Pensei que ninguém ia querer me contratar porque não iam entender e achar que eu estava exagerando em uma situação que era comum na indústria musical."

Histórias como a de Claire estão agora sendo reexaminadas sob a luz dos movimentos #MeToo (Eu também) e #TimesUp (O tempo acabou), que afetaram centenas de ambientes de trabalho, incluindo a VICE. Há mais de dois anos, venho conversando com mais de vinte mulheres que trabalham na indústria musical sobre suas experiências com assédio sexual e comportamentos inadequados ao longo de suas carreiras. São artistas, assessoras, assistentes e executivas, tanto de grandes gravadoras quando do mundo da música independente, de diversos gêneros musicais. Algumas tornaram as acusações públicas, outras falaram comigo anonimamente, alegando que tinham medo de retaliação ou de se prejudicarem no trabalho (outras se negaram a falar porque tinham contratos de confidencialidade). Juntos, os relatos delas indicam o quanto o problema está profundamente encravado, não somente devido às culturas dos ambientes de trabalho e às atitudes, mas também pelas condições de trabalho sobre as quais essa indústria é construída.

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Aquelas que falaram comigo descreveram como é trabalhar em um "clube do Bolinha" em que contratos são assinados em mesas de bar, de madrugada, e em festas nos bastidores. Elas contaram histórias de homens poderosos que se aproveitaram dos cargos que ocupam e explicaram os riscos inerentes a fazer denúncias contra eles. Elas detalharam uma indústria cercada por pressões financeiras e competição árdua, que cada vez mais se sustenta no trabalho de freelancers vulneráveis a brechas nas leis trabalhistas. O problema dos comportamentos inadequados no mundo da música não está somente em um desses fatores sozinho. É um cenário perfeito que abre o caminho para o abuso sexual continuar a não ser combatido. Fechá-lo vai exigir avaliar a própria natureza da música e da indústria e as culturas que a cercam.

"Eu não queria ser a mulher do 'abuso sexual'", Claire disse. "Pensei que ninguém ia querer me contratar porque não iam entender e achar que eu estava exagerando em uma situação que era comum na indústria musical."

Por toda a história da música pop, vítimas de comportamento sexual inadequado e abuso, entre elas muitas garotas e mulheres jovens, não são vistas por fãs, executivos e a mídia. Suas histórias são desconsideradas, até canonizadas como o comportamento de um astro do rock. Quando David Bowie morreu, em 2016, ele foi louvado por ser "um símbolo da liberdade sexual" e denunciado como um "estuprador legalizado" , por ter feito sexo com fãs menores de idade.

Mesmo na era pós-#MeToo, fãs e profissionais da indústria continuam a apoiar e a levantar as carreiras de homens acusados de assédio, agressão e abuso. Duas semanas depois do surgimento do escândalo envolvendo Harvey Weinstein, o selo Caroline, subsidiário da Capitol Music Group, assinou um contrato de US$ 6 milhões com o rapper XXXTentacion, que foi acusado criminalmente por supostamente atacar e estrangular a namorada, que estava grávida, em 2016. Quando contatado pela Noisey no fim do ano passado, a assessoria de XXXTentation confirmou o contrato mas disse que não podia divulgar o valor. Ele se declarou inocente em dezembro e ainda espera julgamento; seu segundo disco, ?, com participações de Joey Bada$$ e Travis Barker, foi lançado no último dia 16. Outro rapper, 6ix9ine, continuou a subir nas paradas mesmo depois de o site Jezebel confirmar, em dezembro, que ele se declarou culpado por fazer sexo com uma menor de idade. A audiência para sentenciá-lo foi adiada diversas vezes e agora está marcada para 10 de abril. Enquanto isso, seu disco chegou à posição número 4 no Top 200 da Billboard neste mês. No ano passado, um juiz decidiu que o DJ de rádio David Mueller tinha apalpado Taylor Swift em 2013. Em janeiro, ele ganhou um novo emprego em uma estação de música country no Mississippi, cujo diretor disse que "tendia a acreditar" em Mueller, não em Swift.

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O mundo da música continua a projetar a expectativa de que mulheres são valorizadas principalmente como objetos, não como seres humanos. Clipes de músicas de sucesso apresentam mulheres como pouco mais do que acessórios para as estrelas do sexo masculino, e aparições de artistas femininas permanecem sendo um alvo desproporcional de artigos e críticas. Nos bastidores, especialmente quando se trata dos nomes de peso que realmente controlam a indústria, a música ainda é essencialmente um "clube do Bolinha", também.

Toda mulher com quem falei descreveu como é trabalhar em um ambiente controlado por homens em algum momento da carreira.

"Você tem que ser um deles", disse Claire. "Já tive um chefe que me disse para aprender a jogar golfe e assistir 'Família Soprano' porque era o que os homens na indústria faziam. Ele não estava errado. Os homens são maioria, e eu tinha que conseguir lidar com eles."

Poucos dados consolidados sobre a diferença de gêneros na indústria da música nos EUA estão disponíveis, mas informações do Census Bureau apontam o desequilíbrio: dentro da indústria de gravadoras, por exemplo, que inclui selos e editoras, as mulheres são 28% da força de trabalho — que tende ainda mais para o lado masculino nos cargos mais elevados. Relatórios recentes do Reino Unido e da Austrália registram que as mulheres permanecem subrepresentadas nestas funções. De acordo com uma pesquisa de 2016 da UK Music Diversity Taskforce, elas ocupam 30% de posições executivas sênior e 40% das posições de administração sênior, apesar de ocuparem mais da metade dos cargos de entrada.

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Dos 20 executivos na direção da Recording Industry Association of America, quatro são mulheres. A lista 2017 Billboard Power 100 List, que mostra as pessoas mais influentes da indústria musical, inclui somente oito mulheres. A revista continua a publicar uma lista anual separada que destaca mulheres poderosas, apesar de não existir uma diferente para homens. E um novo relatório da Annenberg Inclusion Initiative, da Universidade do Sul da Califórnia, mostrou que, de 2013 a 2018, apenas 9,3% dos indicados ao Grammy eram mulheres.

"Você tem que ser um deles", disse Claire. "Já tive um chefe que me disse para aprender a jogar golfe e assistir 'Família Soprano' porque era o que os homens desse meio faziam. Ele não estava errado. Os homens são maioria, e eu tinha que conseguir lidar

Todos esses números têm implicações reais para as mulheres na música. Um relatório de 2016 da força-tarefa da US Equal Employment Opportunity Comission (EEOC), identificou vários fatores de risco para o assédio no ambiente de trabalho, que incluem falta de diversidade e disparidades significativas de poder. Outros estudos descobriram que há mais possibilidade de tanto mulheres quanto homens serem alvos em ambientes dominados por homens que enfatizem papéis tradicionais por gênero.

Mulheres que estejam começando em uma indústria como a da música, dominada por homens, podem ficar à mercê de homens para avançar na carreira, uma situação da qual alguns deles se aproveitam.

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"Na música, frequentemente você trabalha próximo de um produtor, empresário ou alguém que tem muito controle sobre carreiras, então não existe a opção de se afastar dessas pessoas ou de não resistir aos avanços deles", diz Ginger Clark, professora de Psciologia da Rossier School of Education da USC, que se especializou em questões femininas e traumas como abuso sexual. "Isso cria o ambiente perfeito para esse tipo de coisa acontecer."

Ilustração por Meaghan Garvey

Ter uma carreira na música, por natureza, requer uma mistura de negócios e prazer, marcada por um estilo de vida altamente exigente, em que dias no escritório dão lugar a noites de idas a shows, eventos de trabalho e conversas em bares.

"A brincadeira da manhã era: 'Nossa, tô muito de ressaca. Fiquei até não sei que horas com um artista ou um cliente'", diz uma ex-assistente de licenciamento de música em uma gravadora independente. "É assim que se avança, que se cria laços, bebendo até duas da manhã. Essa é a hora em que se fecham contratos. Se você é a caretona que volta para casa às dez, quando o show termina, e não vai para os bastidores curtir, você não entra na 'panelinha'". A funcionária, que pediu para não ser identificada porque ainda trabalha no meio e não queria se prejudicar, diz que sofreu agressão sexual de um colega em uma dessas noites.

A indistinção entre trabalho e diversão pode criar oportunidades para comportamentos impróprios — o consumo de álcool, em particular, é um componente muito estudado e discutido em muitos casos de agressão sexual, e outro fator de risco citado no relatório da EEOC sobre agressão — mas é difícil mudar uma cultura do dia para a noite.

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"Você vem da faculdade, onde se socializa bebendo, e traz isso para o seu ambiente de trabalho", diz a ex-assistente de licenciamento. "No meio musical, isso não termina depois de uma certa idade. É uma ilha de garotos perdidos onde todo mundo tem a mesma idade para sempre."

No começo de sua carreira como olheira de A&R (Artistas e Repertório), Eve, que pediu para ser identificada por um pseudônimo para não prejudicar sua carreira, diz que foi "adotada" por um executivo poderoso de uma grande empresa onde ela esperava trabalhar um dia. Eve conta que eles costumavam jantar no hotel onde ele se hospedava, seguiam para o terraço e depois para o quarto dele. Ela afirma que encontros em quartos de hotel são comuns no mundo de A&R, mas que no fim de uma dessas noites, o executivo, que era casado, disse que tinha vontade de beijá-la.

"Eu fiquei parada, pensando, 'Se não me mexer, ninguém vai me ver'", Eve recorda. Sem saber como responder, ela diz que reagiu ao comentário como um elogio e se retirou. "Dali por diante, eu sabia que essa dinâmica fazia parte do relacionamento".

O mentor de Eve continuou a mandar mensagens em tom de paquera para ela e convidá-la para ficarem sozinhos em hotéis. Apesar de a relação deles nunca ter chegado à intimidade física, ela diz que teve que tolerar as demonstrações de atração dele, retribuindo o flerte e lidando com seus comentários e comportamentos impróprios por medo de perder o conhecimento e as oportunidades que ele podia lhe dar.

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"Existia uma sensação inata de que se eu dissesse que estava ofendida, ou definisse um limite, ele nunca mais me ligaria e desapareceria no éter da 'panelinha' e eu jamais teria a mesma chance", ela diz. "Ele tinha muito poder para mudar a minha vida profissional. Eu não sei se chegaria onde cheguei se não soubesse o que ele me ensinou."

Mas depois de vários meses, Eve sentiu que a dinâmica tinha se tornado complicada demais. Quando ela ligou para ele para confrontá-lo sobre o desconforto que sentia e a natureza da relação dos dois, ele ficou reticente e não quis conversar. Eles pararam de se falar pouco depois.

"No meio musical, isso não termina depois de uma certa idade. É uma ilha de garotos perdidos onde todo mundo tem a mesma idade para sempre."

A maioria das mulheres que conversaram comigo descreveram a sensação de ter que suportar o assédio para manterem seus empregos ou avançar na carreira. Todas as que disseram ter denunciado comportamentos inadequados por meio de canais formais ou informais revelaram que o ato teve pouco efeito.

"Esses homens criaram um mito de que são os únicos que podem fazer certo tipo de trabalho", disse Dorothy Carvello, uma veterana da indústria. "Se um homem dirige uma empresa, por exemplo, e gerou um lucro grande, a diretoria pensa: 'Esse cara dá bons resultados. E daí se ele faz certas coisas? Sai mais barato mantê-lo, a longo prazo. Nós precisamos dele. Quem mais vai fazer o que ele faz?'."

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Carvello diz que foi contratada em 1987, aos 24 anos, como secretária do cofundador da Atlantic Records, Ahmet Ertegun. Depois de ajudar a fechar o contrato da banda de heavy metal Skid Row, ela conta que se tornou a primeira mulher no departamento de A&R da gravadora, no ano seguinte. Em uma coluna que assinou no ano passado para a revista Variety, Carvello afirmou que Ertegun a agrediu sexualmente em 1988 e que reclamou do incidente de maneira informal para dois executivos sênior. Eles lhe disseram que ela "era livre para se demitir". A Warner Music, que controla a Atlantic, se recusou a comentar a acusação, mas me enviou uma matéria publicada recentemente na Billboard falando da política e dos planos de recursos humanos da empresa. Carvello planeja compartilhar sua história em um livro a ser publicado em setembro deste ano pela Chicago Review Press, Anything For a Hit: An A&R Woman's Story of Surviving the Music Industry.

Segundo a força-tarefa da EEOC, os chamados "superastros" da agressão podem tentar as empresas a ignorar comportamentos impróprios porque estas acreditam que perder um funcionário — como um executivo poderoso ou um artista de renome — seria custoso demais. Os empregadores, afirma o relatório, "podem apostar que a probabilidade ou o custo de uma queixa de mau comportamento é relativamente baixa e superada pela produtividade do 'superastro'."

Essa aposta pode parecer ainda mais sedutora em um meio que passou por uma quantidade extraordinária de caos nos últimos 20 anos. Seguindo uma série de fusões que remontam a 1988, o grupo "Big Six", as grandes gravadoras que controlavam a indústria — Warner Music Group, EMI, PolyGram, Sony Music, MCA e BMG — hoje são o "Big Three": Sony BMG, Universal Music Group e Warner Music Group. Entre 1999 e 2009, o lucro total das vendas de álbuns nos Estados Unidos caiu 50%, o que forçou as empresas a diversificar suas fontes, como serviços de streaming e contratos de licenciamento musical, enquanto passavam pelo crescimento simultâneo do negócio de eventos ao vivo, que agora responde por mais da metade do lucro geral da indústria. Com a ajuda do streaming e de outros serviços digitais, a indústria das gravadoras se recuperou, lucrando, ao todo, US$ 7,7 bilhões em 2016 — valor mais alto desde 2009 — mas ainda pouco maior do que 1/3 do pico de 1999, de US$ 21 bilhões, número ajustado pela inflação.

"Quando o seu negócio são relacionamentos, há muitas áreas cinzentas", diz uma ex-assessora de uma gravadora. "Nós sabemos o que é óbvio, mas e o que não é óbvio? Quando uma paquera vira assédio? Não existe mapa para isso."

Em um ambiente hipercompetitivo e financeiramente precário, denunciar pode ser visto pelas vítimas como um risco muito alto.

"[No meio musical], o que vale é ter contatos e reputação. É assim que você se mantém no negócio", diz a ex-assistente de licenciamento. Testemunha de demissões às vésperas de fusões e da recessão, ela complementou: "Você pode ter emprego em um dia, e no próximo não ter. É difícil achar outro quando se é demitida, porque o mundo da música é um ovo."

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Enquanto a indústria se consolidou — as grandes gravadoras detêm cerca de 69% dos US$ 15,7 bilhões do mercado global de gravadoras — o negócio da música em geral também é claramente fragmentado, uma constelação descentralizada de artistas, gravadoras, editoras, empresários e promoters, que se acumulam em uma rede crescente de relacionamentos. Não existe um órgão regulamentador que defina padrões ou códigos de conduta. As mulheres que eu entrevistei disseram que a falta de uma autoridade centralizadora pode tornar difícil saber para onde ir quando ocorre assédio no ambiente de trabalho.

"Quando o seu negócio são relacionamentos, há muitas áreas cinzentas", diz uma ex-assessora de uma gravadora que não quis se identificar por motivos pessoais. "Nós sabemos o que é óbvio, mas e o que não é óbvio? Quando uma paquera vira assédio? Não existe mapa para isso."

Nos EUA, existem leis federais contra assédio no ambiente de trabalho, sob o Título VII da Lei de Direitos Civis de 1964, que proíbe discriminação empregatícia baseada em sexo, raça e outros fatores, mas uma pessoa normalmente só está protegida se é considerada funcionário, não contratado ou parceiro, na ocasião em que ocorra qualquer suposta discriminação. Muitos homens e mulheres no meio musical não se encaixam nessa categoria.

Além disso, muitos dos relacionamentos comuns na indústria musical — como aqueles entre agentes e empresários, ou jornalistas e assessores — não necessariamente entram no critério federal de relações entre "funcionário e empregador", deixando uma lacuna na cobertura para freelancers e integrantes de equipes (algumas legislações estaduais, como a da Califórnia, onde se concentra muito da indústria musical, instituíram proteções adicionais).

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"Se não existe relacionamento entre empregador e funcionário entre um trabalhador e o assessor, ou o trabalhador e o artista para quem o assessor trabalha, ou se a pessoa é freelancer em uma publicação, não fica claro se eles têm algum recurso", diz Corbett Anderson, assistente jurídico do EEOC.

Funcionários independentes (autônomos e freelancers) fazem parte da indústria da música há muito tempo — o termo "economia de shows" foi criado por músicos —, mas o espaço deles na força de trabalho vem crescendo consideravelmente. De 2007 a 2017, o número de funções para autônomos ou freelancers entre grupos musicais, artistas e funcionários relacionados cresceu 112%, enquanto os empregos para funcionários assalariados diminuíram 11%, de acordo com dados governamentais compilados para o Noisey pela Emsi, uma firma de análise do mercado de trabalho. No mesmo período, vagas para freelancers no setor da indústria musical, que inclui gravadoras, editoras e estúdios, aumentaram 30%, enquanto vagas para funcionários fixos diminuíram 22%.

"A indústria musical, como o resto da economia, viu um crescimento rápido de trabalhadores por contrato e de freelancers nas décadas recentes", afirma Alan Kreuger, economista formado em Princeton e cofundador da Music Industry Research Association. "[Em primeiro lugar,] as gravadoras sofrem uma pressão competitiva intensa para reduzir custos devido à pirataria descontrolada e ao efeito do compartilhamento de arquivos nos lucros; em segundo, a tecnologia facilitou a terceirização e o trabalho remoto em parte dos empregos na música".

Das mulheres que eu entrevistei, aquelas que sofreram assédio como freelancers ou terceirizados que conheceram ao longo de suas carreiras falaram sobre não saber onde procurar ajuda, ou se tinham a opção de buscá-la.

"Existe muita confusão sobre limites e a quem eles se aplicam. Se eu sair com um assessor ou empresário [para uma reunião em um bar] e ele me assediar sexualmente, com quem eu devo falar?" – Rebecca Haithcoat

Isso inclui repórteres freelancer que têm a tarefa de cobrir a indústria. Os contratos para repórteres freelancer podem oferecer a empresa que os contrata serviços de recursos humanos, mas jornalistas musicais com quem falei dizem que nem sempre está claro que tipo de apoio está disponível se elas sofrerem assédio ou com quem falar se trabalharem para várias empresas ao mesmo tempo. E se uma repórter trabalha em um local sem ter contrato — para falar com uma fonte do meio, fazer contatos ou enquanto faz a pesquisa necessária para conseguir uma história —, é provável que ela tenha que se virar sozinha.

"Existe muita confusão sobre limites e a quem eles se aplicam" diz Rebecca Haithcoat, uma jornalista musical freelancer, que já contribuiu para a Noisey. "Se eu sair com um assessor ou empresário [para uma reunião em um bar] e ele me assediar sexualmente, com quem eu devo falar?"

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Outras dizem que a natureza instável de trabalhar como freelancer faz com que o ato de denunciar seja arriscado demais, particularmente entre jovens que precisam desse tipo de trabalho para entrar nesse meio.

Kate, ex-redatora musical que agora trabalha em A&R e pediu para usar um pseudônimo, diz que a natureza precária do trabalho como freelancer fez com que ela tivesse medo de falar quando um músico conhecido a pressionou a fazer sexo antes de uma entrevista. Ela tinha 21 anos na época. Kate diz que pediu para ir ao banheiro e foi embora. Apesar de em algum momento ter contado o ocorrido ao assessor do festival que a convidou para o evento, ela nunca o revelou para seu editor.

"Essa era minha fonte de renda principal e a razão pela qual eu conhecia pessoas e conseguia trabalhos. Eu não queria que as pessoas me achassem difícil. Você pode se sentir isolada com muita facilidade. Eu tinha medo [de o músico] se vingar de mim ou diminuir em público tudo que eu dissesse para salvar a própria carreira."

Mesmo funcionárias em tempo integral podem relutar em fazer denúncias, apesar de isso não ser comum só na indústria da música. De acordo com estudos citados no relatório de 2016 do EEOC, pelo menos uma em cada quatro mulheres dizem que sofreram assédio sexual no ambiente de trabalho, mas apenas cerca de 30% delas falou com um supervisor, gerente ou representante sindical. Um número menor — entre 6 e 13% — apresentou denúncia formal.

Ilustração por Meaghan Garvey

A maioria dos grandes negócios e organizações no meio musical, incluindo o grupo Big Three, têm políticas sobre assédio sexual em vigor, mas questiona-se o quanto elas são aplicadas. Em 2016, por exemplo, o processo de uma funcionária contra a Sony Music Holdings Inc. por assédio sexual afirmava que "a falha da companhia em lidar com a reclamação de assédio da requerente é consistente com a abordagem apática de recursos humanos em geral". O caso foi resolvido fora do tribunal em fevereiro de 2017.

Funcionárias da indústria musical me disseram que algumas empresas menores e gravadoras para as quais trabalharam não tinham políticas ou recursos específicos para abordar comportamentos sexuais inadequados. As proteções da seção VII só se estendem a empresas com 15 funcionários ou mais, e não exigem que estas tenham uma política sobre assédio sexual (embora alguns estados tenham suas próprias políticas).

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É claro que, em caso de agressão sexual, houve crime, independentemente da política da empresa ou do status do funcionário. Mesmo assim, mulheres não costumam prestar queixa criminal: entre 2005 e 2010, 64% das vítimas de estupro e agressão sexual nos Estados Unidos não procuraram a polícia, de acordo com o Departamento de Justiça, e mais de um terço dessas mulheres mencionaram como motivo principal para isso o medo de retaliação ou que acreditavam que a polícia não podia ou não iria ajudá-las.

Várias mulheres que falaram comigo disseram acreditar que tomar uma atitude colocaria suas carreiras em risco. Outras dizem que se recusaram a denunciar comportamentos inadequados porque tinham medo de perder oportunidades ou de entrarem numa "lista negra".

"Quando você decide denunciar, acha que o RH vai tomar conta de você. Eu aprendi que, na verdade, eles só querem evitar processos", diz Claire. "Ele era o tipo de cara encrenqueiro. Eu era mulher e jovem. Eles pensaram: 'Ela não vai nos processar'."

Claire, a mulher que diz que foi agredida por um colega sênior em uma gravadora que não existe mais, me contou que, no início, se recusou a denunciar o incidente porque tinha medo de isso afetar sua reputação. Por fim, quando ela procurou o RH, recebeu questionamentos e ceticismo em vez de apoio.

"Eu pensei: 'Por que estão me questionando?'", conta. "Eles diziam que as nossas histórias não batiam e que não podiam fazer nada a respeito porque não tinham provas". Mesmo depois de uma terceira pessoa corroborar a história de Claire, ela diz que o RH descartou sua história por não ser confiável. O colega de Claire continuou na empresa, apesar de exigirem dele que passasse por um treinamento contra assédio sexual.

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"Eu me lembro de pensar: 'Nem sei o que posso fazer para eles acreditarem em mim'. A certa altura, fiquei tão chateada que falei que não sabia se queria trabalhar lá, e eles disseram: 'Sim, seria melhor'."

Claire diz que a experiência de denunciar foi quase tão traumática quanto a agressão em si. Quando você decide denunciar, acha que o RH vai tomar conta de você. Eu aprendi que, na verdade, eles só querem evitar processos". Ele era o tipo de cara encrenqueiro. Eu era mulher e jovem. Eles pensaram: 'Ela não vai nos processar'."

Eles tinham razão. Claire permaneceu na empresa por mais um ano, até ela fechar. Claire diz que a cultura tóxica do meio musical e o sigilo em certo momento a fizeram abandonar a indústria de vez, algo que aconteceu com outras mulheres com quem eu conversei.

Histórias como a de Claire continuaram a aparecer na indústria musical e provavelmente continuarão a brotar. Denunciar pode ser um primeiro passo crítico para introduzir mudanças, como evidenciado pelo surgimento global do movimento #MeToo e do plano de ação antiassédio apresentado neste mês por mais de 300 mulheres que trabalham na indústria do entretenimento.

Especialistas dizem que quanto maiores e mais frequentes se tornarem essas conversas, é mais provável que elas moldem novos comportamentos.

"Em um nível psicológico, o protesto coletivo — seja online ou na vida real — muda formas de pensar arraigadas profundamente nas pessoas", diz Karen North, psicóloga e diretora do programa Annenberg Digital Social Media, da Universidade do Sul da Califórnia.

"Ao se engajar com uma representação de uma opinião nas mídias sociais, mesmo que apenas 'curtindo' ou compartilhando, você está dando um pequeno passo a frente para se convencer de que você pensa da mesma maneira, ou que sente de maneira mais forte do que achava inicialmente."

Mas depois de décadas de atenção intermitente e alegações que surgiram só para serem esquecidas, a comoção pública traz uma verdade desconfortável para a indústria: quem está no controle precisa fazer mais.

"O ativismo de base é ótimo, mas se as pessoas que têm o poder nas mãos não se importam, ou não te levam a sério, ou não te escutam, então as formas como o sexismo é mantido não mudam", diz Shawna Potter, vocalista da banda punk feminista War on Women e cofundadora da Safer Scenes, que distribuiu informações sobre táticas de intervenção de espectadores na edição do ano passado do Vans Warped Tour para ajudar a combater assédio em casas de show e eventos. A turnê também é uma parceria com a instituição sem fins lucrativos A Voice for the Innocent, que fornece a vítimas de assédio sexual uma plataforma para compartilhamento de histórias com recursos locais de apoio.

A Warped Tour foi envolvida em sua própria polêmica sobre comportamento sexual inadequado, embora o fundador Kevin Lyman negue que isso tenha contribuído para o anúncio do ano passado de que o evento encerrará as atividades em 2018. "Nós tratamos as coisas da melhor maneira que conseguimos, como uma turnê que não faz parte da vida dessas bandas o tempo inteiro. Elas se juntam a nós oito semanas por ano" Lyman disse para o Noisey, falando dos desafios de confrontar um problema tão culturalmente difundido quanto o abuso sexual.

"O ativismo de base é ótimo, mas se as pessoas que têm o poder nas mãos não se importam, ou não te levam a sério, ou não te escutam, então as formas como o sexismo é mantido não mudam." — Shawna Potter

A Warped Tour, ao lado do Riot Fest, de Chicago, e dos colaboradores do Coachella Do LaB, estão entre as organizações e festivais tomando medidas para lutar contra comportamentos sexuais inadequados, unindo-se com grupos de redução de danos como Safer Scenes, Between Friends e Rape Victim Advocates. Juntos, eles trabalham para fornecer a fãs, artistas e funcionários aconselhamento, workshops sobre intervenção de espectadores e códigos de conduta.

"É preciso ter políticas claras desde o início, para que todos possam contar com elas, e também é necessário ter um canal para denúncias de casos de agressão baseada em gênero e violência que não relacionada à pessoa no comando", afirma Potter. "Se alguém reclama, você precisa já ter passos claros [sobre] o que fazer em seguida. Eles vão ser diferentes em locais diferentes, mas significa que serão seguidos e levados a sério."

Prevenir o assédio sexual e as agressões também faz bem para os negócios: perda de produtividade, ausências e uma maior probabilidade de volume de negócios estão entre os custos econômicos citados em uma meta-análise de 2007 sobre dados de estudos sobre assédio sexual no ambiente de trabalho. O relatório estima que o assédio sexual custa às empresas US$ 22.500 por ano em produtividade perdida para cada funcionário afetado, não levando em consideração os honorários de advogados ou pagamento de acordos.

Em longo prazo, combater o abuso sexual e agressões na indústria da música exige prevenir que eles aconteçam, em primeiro lugar. Isso significa tornar uma prioridade de negócios ambientes de trabalho que sejam saudáveis e respeitosos, por meio de liderança forte, diversidade elevada, e maior senso de responsabilidade. Acima de tudo, exige promover culturas no local de trabalho que apoiem as pessoas, não apenas o dinheiro, que define a indústria musical norte-americana.

Andrea Domanick é editora da Noisey na Costa Leste dos EUA. Siga-a no Twitter .

Se você foi testemunha ou já sofreu com comportamentos inadequados na música e quer compartilhar sua história, mande um e-mail confidencial para ela. O endereço é andrea.domanick@vice.com.