Deus Capital
Ilustração por Sama
Opinião

Deus Capital

"Os bravos que lutam nas ruas com força desigual contra o poderoso aparato da repressão, têm todo o meu apreço. Muito mais nocivos à sociedade, são aqueles que integram a cúpula do G20".
10.7.17

O que esperar de uma reunião de líderes das principais economias do Mundo e potências emergentes, que inclui na lista de participantes Donald Trump, Vladimir Putin, Recep Erdogan, Xi Jinping entre outros notórios inimigos da civilização? Até o "rato com asas" Michel Temer, está entre os presentes… É certo que deve ter penetrado na festa, passando por debaixo das saias de Angela Merkel!

Não tem importância… E nem é preciso ser-se muito bem informado para se saber que desta Camarilla boa coisa não sairá… Ainda bem que, muita gente de Hamburgo, sede da reunião deste ano de 2017, e de outras partes da Europa e do Mundo, estão a organizar-se em protestos, para não permitir que esta gentalha conspire em paz contra a Democracia, que embora seja uma senhora imperfeita, ainda é a mais bela Deusa do panteão sócio-político e económico.

"Cadáveres estilizados deambulam sem rumo certo pelas ruas do centro de Hamburgo, sem esperança, mas pacificamente".

A oligarquia neoliberal queria o quê? Continuar a sacrificar vidas humanas e não só, em nome do voraz e insaciável Deus Capital sem encontrar resistência? Os bravos que lutam nas ruas com força desigual contra o poderoso aparato da repressão, têm todo o meu apreço. Muito mais nocivos à sociedade, são aqueles que integram a cúpula do G20.

A cimeira inicia-se sob a crítica de um primeiro protesto teatral, bem ensaiado, onde testemunhamos pessoas numa zombie walk, a representar a nossa condição impotente diante da política predatória neo-liberal contemporânea, imposta pelos países e grupos económicos. Cadáveres estilizados deambulam sem rumo certo pelas ruas do centro de Hamburgo, sem esperança, mas pacificamente. Aliás, pacificamente é da forma que eles, os representantes do poder do Estado e das corporações gostam: "Olha, ninguém se magoou!", "Que mensagem!", "Adoro quando ficam com as mamas ao léu, é tão poderoso!" Provavelmente, a mesma cena será adaptada para algum anúncio comercial nas próximas semanas… E ainda dirão, "Que genial!", "Que publicidade corajosa!" "Que original!".

Mas, o que acontece no caso de um protesto mais directo? Um que ocupe um espaço onde a malta não arrede pé, para relembrar o Mundo inteiro que os vê, que esta posição simbólica vai além da metáfora e expõe a emergência da actual situação de precarização de todos e de tudo que não é ainda privatizável?!

O que ocorre quando se tenta chamar a atenção global para uma acção efectiva, sobre a política do meio ambiente, por exemplo? Ou, o que acontece quando se denuncia as ininterruptas tentativas do poder privado de sabotar o Estado Social, através de favores comprados nos bastidores da política? E quando se cobra uma posição das autoridades sobre os refugiados? Ou, o que fazer com as massas de desempregados ou sub-empregados de ontem, de hoje e de amanhã, que se acumulam como hordas ao redor do Planeta?

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Eles não são zombies, pelo menos não ainda… Ainda precisam de comer, trabalhar, pagar rendas, educar filhos, envelhecer com dignidade… E, obviamente, continuam a consumir e a pagar impostos, além de aumentarem cada vez mais suas dívidas individuais, já que muitos encaixam-se na hedionda definição de auto-empreendedores, pequenos peixes em cardumes que nadam eficientemente na direcção da boca da insaciável baleia capitalista…

Para todas estas questões, a resposta oferecida pelo poder de um Estado, cada vez mais subserviente ao poder privado é porrada, muita porrada nos insurgentes que ousam blasfemar o nome do Deus Capital! "Preservem as montras!", "Não queimem os carros!", bradam os cidadãos de bem, sentados confortavelmente nos seus sofás em frente aos ecrãs, sem se darem conta que assistem em alta definição ao fim do Mundo como o conheceram…

É bom que gostem de dinheiro, porque viverão, matarão e morrerão por ele! O património material transcendeu a sua condição original de representação de valor e transmutou-se no único valor em si. É mais do que um símbolo de status, é a manifestação física do Deus Capital à sua imagem e semelhança. Ele está contido nas grandes e nas pequenas coisas também, quando estas são caras. Entendam como "coisas", tudo aquilo que possui valor monetário, inclusive gente.

Mas, de pouco valor, ou dispensáveis, são os indivíduos desprovidos de bens materiais, que podem oferecer pouco mais do que o próprio corpo e experiência como força de trabalho. E as pessoas que possuem património imaterial, como educação, senso crítico, formação e apreço pela liberdade, estas são mesmo potencialmente perigosas! Sob esta nova ordem mundial, que sacraliza o dinheiro e desmoraliza tudo o que não pode ser rentabilizado, mulheres e homens insatisfeitos e com sede de justiça, que praticam a desobediência civil, só atrapalham a ordem e o progresso desta nova religião. "Cremos, nós, os verdadeiros fiéis, que em breve, o Deus Capital os substituirá a todos por uma raça mais obediente, eficiente e mais clara". Nós, humanos, precisamos parar de nos identificar com o opressor.


Sama nasceu numa montanha em Minas Gerais, mas cresceu em lugares perigosos como São Paulo e Rio de Janeiro… É o irmão mais novo de uma matilha de 8 canalhas… Não acredita muito na sorte, mas sobreviveu ao crime, ao exército e à família. Tem formação em teatro e jornalismo, mas prefere fazer cinema e BD.

No seu trabalho é notório o interesse por política e sacanagem. É autor dos livros: "A Balada de Johnny Furacão", "A Entrevista", "Xmas Thing", entre outros… É ainda o criador do " Motel Sama", uma obra de teor erótico noir, que se desdobra em séries, filmes, etc… que realiza com a sua cúmplice, Luísa Sequeira. De há uns anos para cá tem vivido em Lilliput, na Europa como refugiado intelectual…