O teu telefone está a ouvir-te e não é paranóia

Investiguei o mistério das campanhas publicitárias que coincidem com as tuas conversas privadas.

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jun 9 2018, 12:00pm

Todas as imagens pelo autor.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Austrália.

Há alguns anos, aconteceu-me uma coisa estranha. Eu e um amigo estávamos num bar, com os nossos iPhones no bolso, a falar sobre as recentes viagens que tínhamos feito ao Japão e que pensávamos em voltar. No dia seguinte, ambos recebemos anúncios publicitários pop-up através do Facebook sobre voos para Tóquio. Achámos que era apenas uma coincidência bizarra, mas parece que toda a gente tem uma história sobre o telefone estar mesmo a ouvir o que a pessoa diz. Seria só paranóia, ou os nossos telemóveis estão mesmo a vigiar-nos?

Segundo Peter Henway - consultor sénior da empresa de cybersegurança Asterix, e ex-professor e investigador da Edith Cowan University -, a resposta curta é sim, mas talvez de uma forma não tão diabólica como possa parecer.

Para o teu telemóvel efectivamente prestar atenção e registar uma conversa, tem de haver um gatilho, como quando dizes “olá Siri” ou “OK Google”. Sem esses gatilhos, qualquer dado que forneças só é processado dentro do aparelho. Pode não ser causa para alarme, mas qualquer inscrição de terceiros que tenhas no telemóvel - como o Facebook, por exemplo - ainda tem acesso aos teus dados “sem gatilho”. E se eles vão usar esses dados ou não depende exclusivamente deles.

A sussurrar disparates para o meu smartphone

“De tempos a tempos, excertos de áudio vão parar aos servidores [de outras aplicações, como o Facebook], mas não sabemos oficialmente quais são os gatilhos para que isso aconteça”, explica Peter. E acrescenta: “Seja horário, localização ou uso de certas funções, é certo que as aplicações estão a aproveitar aquelas permissões de utilização de microfone e a usá-las periodicamente. Só que, esses dados são enviados em formato criptografado, portanto é muito difícil definir o gatilho exacto".

O especialista explica ainda que apps como a do Facebook e Instagram podem ter milhares de gatilhos. Uma conversa normal com um amigo sobre precisares de comprar calças poderia, ser o suficiente para os activar. Mas, a palavra-chave aqui é “poderia”, porque mesmo a tecnologia estando presente, empresas como o Facebook negam veementemente que estejam a ouvir as nossas conversas.

“Como o Google diz abertamente que o faz, acredito que outras empresas também o façam”, adianta Peter. E sublinha: “Não há razão para não o fazerem. Faz sentido de um ponto de vista de marketing e os seus acordos de uso e a lei permitem-no, portanto suponho que o estão mesmo a fazer, só não existe é uma forma de termos a certeza”.

Com isso em mente, decidi fazer uma experiência. Duas vezes por dia, ao longo de cinco dias, tentei dizer algumas frases que poderiam teoricamente ser usadas como gatilhos. Frases do tipo, “Estou pensando em tira outro curso” e “Preciso de camisas baratas para trabalhar”. Depois monitorizei atentamente as publicações patrocinadas no Facebook para ver se havia mudanças.

Nunca tinha visto este anúncio de "roupas de qualidade" no meu Facebook, até dizer ao meu telemóvel que precisava de camisas

As mudanças apareceram do dia para a noite. Do nada, comecei a receber informações sobre cursos que começavam a meio do ano em várias universidades e sobre como certas marcas estavam a oferecer roupas mais baratas. Uma conversa particular com um amigo sobre como eu estava a gastar o meu plano de dados muito rapidamente, levou a anúncios de planos de dados de 20 GB. E, apesar de algumas propostas até serem bastante boas, a experiência abriu-me os olhos.

Peter garante-me que, apesar de nenhum dado estar oficialmente a salvo de perpetuidade, em 2018 nenhuma companhia está a vender os teus dados directamente a empresas de publicidade. Mas, como sabemos muito bem, essas empresas não necessitam diretamente dos nossos dados para vermos os seus anúncios.

“Em vez de dizer 'aqui temos uma lista das pessoas que seguem a tua demografia', eles dizem 'Dás-me algum dinheiro e eu faço essa demografia ver o que tu quiseres'. Se soltassem por aí essa informação, eles perderiam acesso exclusivo a isso, portanto estão a tentar manter a coisa sob o maior sigilo possível”.

Peter diz ainda que, só porque as empresas de tecnologia valorizam os nossos dados, não quer dizer que os vão proteger de agências governamentais. Como a maioria das empresas de tecnologia têm sede nos EUA, a NSA e talvez a CIA podem ter acesso à tua informação, quer isso seja legal no teu país de origem ou não.


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Sim, o teu telemóvel está a ouvir-te e qualquer coisa que disseres perto dele pode ser usada contra ti. Mas, há algumas pessoas que deveriam estar mais preocupadas que outras. Se és jornalista, advogado ou tens algum papel profissional ou social que envolva informações importantes, o acesso aos teus dados pode não ir apenas parar às mãos das empresas de publicidade.

Todavia, mesmo que sejas uma pessoa comum, a levar uma vida normal e a conversar com um amigo sobre viajar ao Japão, é assustador imaginar que um bando de "publiciotários" sabe o assunto das tuas conversas íntimos - o que é ainda pior do que a péssima práctica do pessoal da publicidade de espiar o teu histórico de navegação.

“É uma extensão do que a publicidade costumava fazer com a televisão”, lembra Peter. E conclui: “Só que, em vez de informações sobre o público do horário nobre, agora eles seguem o rasto dos teus hábitos na Internet". Mas, apesar das palavras apocalípticas, Peter ainda consegue ver o lado positivo da situação: "Não é o ideal, mas não acho que isto represente uma ameaça imediata para a maioria das pessoas".


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