A entrevista (possível) da VICE Brasil a Nan Goldin
'Nan Goldin um mês depois de apanhar', 1984. Foto: Nan Goldin
Entrevista

A entrevista (possível) da VICE Brasil a Nan Goldin

Apesar de ter abandonado a conversa visivelmente irritada, a fotógrafa norte-americana de 64 anos contou preciosidades sobre a sua actual rotina.
03 November 2017, 5:00pm

Este artigo foi originalmente na VICE Brasil.

A informação que recebemos antes de entrevistarmos a fotógrafa norte-americana Nan Goldin, 64 anos, é de que ela não está num dia bom. São Paulo também não. É hora de ponta, cai uma chuva miudinha fina e o céu está cinzento. A sua vinda ao Brasil dá-se a convite do Instituto Tomie Ohtake, onde deu uma palestra na terça-feira, 31 de Outubro.

Conhecida pela brutalidade das fotos que fez dos seus amigos e amores entre as décadas de 70 e 90 em Nova Iorque, de perto Nan aparenta ser ainda mais soturna. Depois de cancelar a entrevista à última hora, remarcar depois e atrasar-se, a conversa acontece, enfim, no último andar do hotel em que está hospedada. Chega vestida com um fato e sapatos escuros. Não faz qualquer contacto físico e raras são as vezes em que olha nos olhos. Parece extremamente incomodada com algo, mas não sabemos com o quê.


Vê também: "Agnès Varda e JR transformaram uma viagem por França num documentário"


Recentemente, Goldin disse a um jornal que nos últimos meses tem estado sóbria. As suas mãos tremem muito, a ponto de ser complexo acender o próprio cigarro. Diz-se desconfortável quando lhe perguntamos algo tentando contextualizar com a situação do Brasil. "Como se eu tivesse que fazer trabalhos de casa".

Foi com a série The Ballad of Sexual Dependency que Nan Goldin se estabeleceu na lista das fotógrafas mais importantes do Mundo. Drag queens, casais beijando-se, fazendo sexo e pessoas a injectar drogas em quartos de hotel são uma constante no seu trabalho mais conhecido. Sempre defendeu que eram todos seus amigos – e que muitos morreram de overdose ou de SIDA. "Não gosto de nostalgia", atira durante a conversa.

'Jimmy Paulette na bicicleta de David', Nova Iorque, 1991. Foto: Nan Goldin

Em 2011, teve uma exposição censurada pelo Oi Futuro, no Rio de Janeiro, sob a justificação de que as suas imagens de casais nus ou a consumir drogas com crianças por perto feriam o Estatuto da Criança e do Adolescente. A exibição acabou por ser transferida para o Museu de Arte Moderna e algumas das imagens mais polémicas foram retiradas pela própria artista.

Uma das suas fotos mais famosas é a aquela em ela própria aparece com o rosto destruído depois de ter apanhado de um homem com quem se relacionava [imagem principal deste artigo]. No livro que ostenta o nome da série, Nan conta que quase ficou cega. Até hoje, o auto-retrato é uma das suas armas mais poderosas – o mais recente é de 2013 [mais abaixo] –, assim como o escancarar da própria intimidade nas imagens que mostra ao Mundo. Por mais bonitas que sejam, soam sempre violentas.

No dia seguinte ao nosso encontro, parece menos arredia durante a palestra no Tomie Ohtake. Chega até a sorrir e a mencionar a conversa que tivemos. Diz também que, de todas as pessoas que fotografou para The Ballad, só três estão vivas. Nan é uma delas.

'Joey no Baile do Amor', Nova Iorque, 1991. Foto: Nan Goldin

Apesar de – visivelmente irritada – ter abandonado a entrevista com a VICE sem sequer dizer adeus, Nan Goldin contou-nos algumas preciosidades da sua actual rotina. Fumou dois cigarros durante a conversa. Quando nos deixou, a vista que restava eram as duas beatas de American Spirit com marca de batom, desmaiadas no cinzeiro e o seu copo de água com gás, gelo e limão deixado a meio.

VICE: Obrigada por falar connosco.
Nan Goldin: Estou a ter um dia péssimo.

Espero que não o tornemos pior.
Espero que não.

Então, como é estar, mais uma vez, no Brasil?
É bom. [O empregado de mesa entrega um cinzeiro a Nan, que acaba de acender um cigarro] Ele acabou de me dar um cinzeiro, ficou melhor. Mas ainda não sei, nunca fiquei cá tempo suficiente.

Conhece alguma coisa da fotografia brasileira?
Não conheço nada. Não tenho muito para dizer. Não fiz os meus trabalhos de casa sobre o Brasil.

Tira fotografias todos os dias?
Já não, mas voltei a fotografar. Tinha parado há muito tempo, por isso, voltei.

Tira fotos com telemóvel?
Sim, às vezes, mas tenho vergonha delas. São horríveis. As pessoas tiram fotos sem olharem para nada. Agora há muitos fotógrafos no Mundo. Tiro fotos com o telemóvel, mas voltei a usar a minha câmera. Não gosto de telemóveis.

'No meu corredor', 2013. Foto: Nan Goldin

Numa entrevista à VICE, o fotógrafo Araki Nobuyoshi disse que odeia responder a perguntas sobre a primeira vez em que pegou numa câmera. A que tipo de perguntas sobre fotografia odeia responder?
Prefiro falar sobre outras coisas do que sobre fotografia. E não disse nada sobre o Brasil nas primeiras perguntas… o que me deixa desconfortável, como se tivesse que fazer trabalhos de casa.

Não, era só curiosidade.
Há fotógrafos brasileiros bons?

Sim. Vamos falar consigo sobre um entretanto.
Gostei da pergunta [sobre o que odeia falar].

Ainda bem.
Mas, se eu não quiser responder a alguma coisa, aviso.

Ok. Sabemos que foi uma grande adepta da Leica. Ainda prefere câmeras analógicas às digitais?
Queria preferir, mas não.

Já não usa câmeras analógicas?
Às vezes. Tenho uma câmera digital nova que adoro. É uma 6x6, grande formato. Fala a minha língua, tal como a minha Leica antiga. É difícil fazer fotografia analógica hoje em dia. Já não há laboratórios. Antigamente, havia laboratórios abertos 24 horas. Toda aquela coisa de teres as tuas fotos em mãos rapidamente acabou. Por isso é que o telemóvel se tornou mais atraente. Esse é um dos motivos. Não há volta a dar.

Já disse uma vez que não ligava à técnica, equipamentos e prints.
E o quê? Qual foi a última palavra?

Prints.
Prints? Nunca disse prints. Ligo muito aos meus prints.

Então, peço desculpa.
Trabalhei arduamente nos meus prints para ter certeza que ficariam como eu queria. Amo os meus prints.

'Jimmy Paulette e Tabboo! a despirem-se', Nova Iorque, 1991. Foto: Nan Goldin

Chegou a trabalhar com prints.
Sim, nos anos 70. Não, nos 80. Mas, hoje apaixono-me por algumas câmeras, portanto, já não sou contra equipamentos.

Diz frequentemente que se importa com conteúdo honesto. A fotografia, hoje, parece muito competitiva, especialmente nas redes sociais. Toda a gente quer ter likes e seguidores no Instagram. É possível sobreviver como fotógrafo profissional no mercado em 2017?
Não faço a menor ideia do que acontece nas redes sociais. Chocam-me, tudo isso choca-me. E, já que não estou envolvida com redes sociais, não existo verdadeiramente no Mundo. Por outro lado, escapo de muitas coisas ridículas desta década. O século começou mal. Portanto, não preciso de lidar com isso diariamente, porque não estou nas redes sociais. O que aconteceu tão rapidamente com a humanidade?

Cinquenta por cento das pessoas não saem de casa, porque estão nas redes sociais. As pessoas trocam isso por relacionamentos reais. Não podes fazer-me essa pergunta, quer dizer, porque não é do meu conhecimento saber se é possível sobreviver como fotógrafo profissional hoje em dia. A minha vida é diferente. Sei que os meus amigos estão a penar para vender fotos a revistas. Eu vivo como artista, por isso, o meu trabalho é pago por galerias e museus. Mas também comecei a fazer trabalhos comerciais. Tenho feito muita moda, o que, na verdade, gosto. Tenho uma musa que uso para ensaios de moda. Insisto em fotografá-la. Ela não é modelo, mas é muito bonita. Convido-a para todos os ensaios.

Qual é o nome dela?
O nome dela é Chiel. É filha da minha melhor amiga. É muito bonita. Portanto, é assim que faço fotografia de moda, tornando-a totalmente pessoal. A minha última… um segundo. [Nesse momento, Nan chama o seu agente e pergunta se ele pode ir buscar uma revista ao quarto dela. Ele diz que sim. Ela vê duas pessoas novas na zona e pergunta quem são. O agente de Nan responde que são jornalistas. Quase dois minutos depois, regressa à mesa]

Talvez, em vez de fazerem esta entrevista, vocês deveriam ir à minha palestra amanhã.

Nós vamos.
Estás a ouvir-me? Não tenho a certeza se quero falar com vocês. Posso tentar um pouco, mas as perguntas não são relevantes para mim. Não têm nada a ver comigo.

Podemos ir para a próxima pergunta e, se não quiser responder, é só dizer. Pode ser?
Pode.

Olhando para o seu trabalho, vemos uma pessoa muito passional. Quantas vezes já se apaixonou?
Três.

Três?
Amo intensamente. Fico obcecada com as pessoas, depois fotografo-as. E, talvez, isso seja amor: fotografá-las. É aí que a minha paixão surge. Agora não tenho amantes. Tive há alguns anos, mas para mim não são necessários. Os amigos são.

Porquê?
Porquê? Não sei. Não são essenciais para mim.

'Gotscho a beijar Gilles', Paris, 1993. Foto: Nan Goldin

Há um sambista brasileiro que uma vez disse que a saudade anula a história, anula a vida de uma forma má.
Eu concordo.

Ele diz que não sente saudades.
Eu também não sou muito nostálgica. Fico feliz em ouvir-te dizer isso. Não gosto de nostalgia. Acho que ela não te permite sentir o que realmente sentiste. É como… É falso. Torna as coisas falsas na história. Por isso, toda essa nostalgia nos anos 80 pelos anos 50, nos anos 90 pelos anos 60 e neste século pelos anos 80 e 90 é inútil. Não significa nada. Na verdade não sabes nada sobre os anos 80 e 90. Pelo menos nos Estados Unidos foi uma época completamente diferente. Estamos a vestir roupas desse período e a tentar, de alguma forma, entrar em contacto com essa época. É inútil. É uma perda de tempo.

A VICE entrevistou um fotógrafo brasileiro muito importante, Luiz Braga, que disse que todos estão a tentar fazer o que Nan Goldin faz. Concorda? O que pensa quando se depara com fotos como as suas?
Em que ano foi a entrevista?

Em 2015.
Porque de tempos a tempos há algum fotógrafo que as pessoas ficam orgulhosas de copiar. Acontece por um período, mas não dura. Eu fui a "moda" durante um bom tempo, na verdade. Mas, poucas pessoas podem imitar o que estou a fazer, pois é baseado em sentimentos e não na aparência das coisas. Portanto, se não tens o segredo para isso, não estás a fazer o que eu estou a fazer. Estás a fazer o que estás a fazer. E tudo bem. Ninguém tem de fazer o que eu estou a fazer.

'Greer e Robert na cama', Nova Iorque, 1982. Foto: Nan Goldin

Todos os assuntos nos quais focaste as ruas lentes, como drag queens, questões de género, relacionamentos abusivos e o universo LGBT, estão hoje a ser debatidos mais do que nunca. Recentemente, no Brasil, tivemos um primeiro personagem transgénero numa novela.
Ah, óptimo.

Foi importante para o país. E as pessoas pareceram confusas, mas, ainda assim, debatiam o assunto.
As pessoas estavam confusas sobre o quê?

Sobre o que é uma pessoa transgénero. Porque o assunto deixou de ser sobre drag queens estereotipadas. É outro debate e as pessoas ficaram um pouco chocadas.
Explica-me.

Deixou de ser uma coisa engraçada ou...
Drags nunca foram engraçadas.

Sim, mas, no Brasil, pessoas LGBT são frequentemente caracterizadas de forma humorística.
Ok.

'Misty e Jimmy Paulette no táxi', Nova Iorque, 1991. Foto: Nan Goldin

Foi talvez a primeira vez em que o assunto foi abordado de forma séria, tentando entender o que são as pessoas transgéneros. E gostaríamos de saber como vê esse tipo de coisas.
Como eu vejo o quê?

Pessoas a falarem sobre isso agora.
Não sei. Não posso falar sobre isso, desculpa-me. [Descendo da cadeira] Nada do que disseste me entusiasmou nesta conversa.

Mas costumava fotografar essas pessoas.
Ainda fotografo.

Elas são importantes para a história...
A minha história não vai ser contada por revistas online. [Ela começa a caminhar para longe de nós.]

Nan, não faça isso, por favor.
Eu nem sequer gosto de coisas online. [Vai-se embora e chama o seu agente, que a acompanha até ao quarto].


Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.