Entrevista: Nan Goldin
'Nan Goldin um mês depois de apanhar', 1984. Foto: Nan Goldin
Entrevista

Entrevista: Nan Goldin

Apesar de ter abandonado a conversa visivelmente irritada, a fotógrafa norte-americana de 64 anos contou preciosidades sobre sua rotina atual. "Fico obcecada com as pessoas."

A informação que recebemos antes de entrevistar a fotógrafa norte-americana Nan Goldin, 64, é que ela não está num dia bom. São Paulo também não. É horário de rush, cai uma garoa fina e o céu está cinza. Sua vinda ao Brasil foi a convite do Instituto Tomie Ohtake, no qual ela palestrou na última terça (31).

Conhecida pela brutalidade das fotos que fez de seus amigos e amores entre as décadas de 70 e 90 em Nova York, Nan aparenta ser ainda mais soturna de perto. Depois de cancelar de última hora a entrevista, remarcá-la e atrasar, o papo enfim acontece no topo do hotel em que está hospedada. Ela chega vestindo um terninho e sapatos escuros. Não faz contato físico algum e raras são as vezes em que olha nos olhos. Parece extremamente incomodada com algo, mas não sabemos com o quê. Contou, recentemente, para um jornal, que está sóbria nos últimos meses. Suas mãos tremem muito, a ponto de ser complexo acender o próprio cigarro. Diz ficar desconfortável quando perguntamos algo tentando contextualizar com a situação do Brasil. "Como se eu tivesse que fazer lição de casa."

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Foi com a série The Ballad of Sexual Dependency que Nan Goldin adentrou o rol das fotógrafas mais importantes do mundo. Drag queens, casais se beijando, transando e pessoas injetando drogas em quartos de hotel são uma constante em seu trabalho mais conhecido. Ela sempre defendeu que eram todos seus amigos – e que muitos morreram de overdose ou de AIDS. "Eu não gosto de nostalgia", enseja, durante a conversa.

'Jimmy Paulette na bicicleta de David', Nova York, 1991. Foto: Nan Goldin

Em 2011, teve uma exposição censurada pelo Oi Futuro, no Rio de Janeiro, sob a justificativa de que suas imagens de casais nus ou usando drogas com crianças por perto feriam o Estatuto da Criança e do Adolescente. A exibição acabou sendo transferida para o Museu da Arte Moderna, e algumas das imagens mais polêmicas foram retiradas pela própria artista.

Uma de suas fotos mais famosas é a que ela mesma aparece com o rosto destruído depois de ter apanhado de um homem com que se relacionava [no topo da matéria]. No livro que leva o nome da série, Nan conta que quase ficou cega. Até hoje, o autorretrato é uma de suas armas poderosas – o mais recente é de 2013 [mais abaixo] –, assim como o escancaro da própria intimidade nas imagens que mostrou ao mundo. Por mais bonitas que sejam, soam sempre violentas.

No dia seguinte ao nosso encontro, ela parece menos arredia durante a palestra no Tomie Ohtake. Chega até a sorrir e mencionar o papo que tivemos. Fala também que, de todas as pessoas que fotografou para o The Ballad, só três estão vivas. Nan é uma delas.

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'Joey no Baile do Amor', Nova York, 1991. Foto: Nan Goldin

Apesar de – visivelmente irritada – ter abandonado a entrevista com a VICE sem nem dizer tchau, Nan Goldin contou algumas preciosidades de sua rotina atualmente. Fumou dois cigarros durante nossa conversa. Quando nos deixou, a vista que restava eram as duas bitucas de American Spirit com marca de batom desmaiadas no cinzeiro e seu copo de água com gás, gelo e limão pela metade.

VICE: Obrigada por falar com a gente.
Nan Goldin: Estou tendo um dia péssimo.

Espero que a gente não deixe ele pior.
Espero que não.

Então, como é estar no Brasil mais uma vez?
É bom. [O garçom entrega um cinzeiro para Nan, que acaba de acender um cigarro] Ele acabou de me dar um cinzeiro, ficou melhor. Mas ainda não sei, nunca fiquei aqui tempo o suficiente.

Você conhece alguma coisa de fotografia brasileira?
Não conheço nada. Não tenho muito pra dizer. Não fiz minha lição de casa sobre o Brasil.

Você faz fotos todos os dias?
Não mais, mas voltei a fotografar. Faz tempo que parei, então, voltei.

Você faz fotos com celular?
Sim, às vezes, mas tenho vergonha delas. São horríveis. As pessoas fazem fotos sem olhar pra nada. Tem muito fotógrafo no mundo agora. Faço fotos com o celular, mas voltei a usar minha câmera. Não gosto de celular.

'No meu corredor', 2013. Foto: Nan Goldin

Durante uma entrevista pra VICE, o fotógrafo Araki Nobuyoshi disse que odeia responder perguntas sobre a primeira vez em que pegou uma câmera nas mãos. Que tipo de pergunta sobre fotografia você odeia responder?
Prefiro falar sobre outras coisas do que sobre fotografia. E não falei nada sobre o Brasil nas primeiras perguntas… o que me deixa desconfortável, como se eu tivesse que fazer lição de casa.

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Não, era só curiosidade.
Tem fotógrafos brasileiros bons?

"Fico obcecada com as pessoas, aí as fotografo. E, talvez, isso seja amor: fotografá-las"

Sim. Vamos falar sobre um com você logo menos.
Eu gostei da pergunta [sobre o que ela odeia falar].

Valeu.
Mas, se eu não quiser responder alguma coisa, aviso.

Ok. Sabemos que você foi uma grande adepta da Leica. Ainda prefere câmeras analógicas do que digitais?
Queria preferir, mas não.

Você não usa mais câmeras analógicas?
Às vezes. Tenho uma câmera digital nova que adoro. É uma 6x6, grande formato. Ela fala minha língua, assim como a minha Leica antiga. É difícil fazer foto analógica hoje. Não existem mais laboratórios. Antes, tinha laboratório 24 horas. Toda aquela coisa de ter as suas fotos em mãos rapidamente acabou. Por isso que o celular se tornou mais atraente. Esse é um dos motivos. Não tem volta.

Você já disse que não ligava para técnica, equipamentos e prints.
E o quê? Qual foi a última palavra?

Prints.
Prints? Eu nunca disse prints. Eu ligo muito para os meus prints. Então, desculpe.
Trabalhei duro nos meus prints pra ter certeza que eles ficariam como eu queria. E eu amo meus prints.

'Jimmy Paulette e Tabboo! se despindo', Nova York, 1991. Foto: Nan Goldin

Você chegou a trabalhar com prints.
Sim, nos anos 70. Não, nos 80. Mas hoje me apaixono por algumas câmeras, então, não sou mais contra equipamentos. Você sempre diz que se importa com conteúdo honesto. A fotografia hoje parece muito competitiva, especialmente nas redes sociais. Todo mundo quer ter likes e seguidores no Instagram. Dá pra sobreviver como fotógrafo profissional no mercado em 2017?
Eu não faço a menor ideia do que acontece nas redes sociais. Elas me chocam, tudo isso me choca. E, já que não estou envolvida com redes sociais, não existo de verdade no mundo. Por outro lado, escapo de muitas coisas ridículas dessa década. O século começou mal. Então, não preciso lidar com isso diariamente porque não estou nas redes sociais. O que aconteceu tão rápido com a humanidade? Cinquenta por cento das pessoas não saem de casa porque estão nas redes sociais. As pessoas trocam isso por relacionamentos reais. Você não pode me perguntar, quero dizer, porque não é do meu conhecimento saber se é possível sobreviver como um fotógrafo profissional hoje em dia. Minha vida é diferente. Sei que meus amigos estão penando pra vender fotos para revistas. Eu vivo como artista, então, meu trabalho é pago por galerias e museus. Mas também comecei a fazer trabalhos comerciais. Tenho feito muita moda, o que, na verdade, eu gosto. Tenho uma musa que uso para ensaios de moda. Insisto em fotografá-la. Ela não é modelo, mas é muito bonita. A convido para todos os ensaios.

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"Eu não gosto de nostalgia. Acho que ela não te permite sentir o que você realmente sentiu. É como… É falso"

Qual é o nome dela?
O nome dela é Chiel. Ela é filha da minha melhor amiga. Ela é muito bonita. Então, é assim que faço fotografia de moda, tornando-a totalmente pessoal. A minha última… um segundo. [Nesse momento, Nan chama seu agente e pergunta se ele pode buscar uma revista no quarto dela. Ele diz que sim. Ela vê duas pessoas novas na área e pergunta quem são. O agente de Nan responde que são jornalistas. Quase dois minutos depois, ela retorna para a mesa.]

Talvez, em vez de fazer essa entrevista, vocês deveriam ir na minha palestra amanhã.

Nós vamos.
Você tá me ouvindo? Não tenho certeza se quero falar com vocês. Posso tentar um pouco, mas as perguntas não são relevantes pra mim. Não tem nada a ver comigo.

Podemos ir para a próxima pergunta e, se você não quiser responder, é só falar. Pode ser?
Pode. Olhando pro seu trabalho, vemos uma pessoa muito passional. Quantas vezes você já se apaixonou?
Três.

Três?
Amo intensamente. Fico obcecada com as pessoas, aí as fotografo. E, talvez, isso seja amor: fotografá-las. É aí que minha paixão vem. Não tenho amantes agora. Tive há alguns anos, mas eles não são necessários pra mim. Amigos são.

Por quê?
Por quê? Eu não sei. Eles não são essenciais para mim.

'Gotscho beijando Gilles', Paris, 1993. Foto: Nan Goldin

Tem um sambista brasileiro que falou uma vez que a saudade anula a história, anula a vida de uma forma ruim.
Eu concordo.

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Ele fala que ele não sente saudade.
Eu também não sou muito nostálgica. Fico feliz em ouvir você falar isso. Eu não gosto de nostalgia. Acho que ela não te permite sentir o que você realmente sentiu. É como… É falso. Torna as coisas falsas na história. Então, toda essa nostalgia nos anos 80 pelos anos 50, nos anos 90 pelos anos 60 e neste século pelos anos 80 e 90 é inútil. Não significa nada. Você realmente não sabe sobre os anos 80 e 90. Pelo menos nos Estados Unidos foi uma época completamente diferente. Estamos vestindo roupas desse período e tentando, de alguma forma, entrar em contato com essa época. É inútil. É uma perda de tempo.

A VICE entrevistou um fotógrafo brasileiro muito importante, Luiz Braga, que disse que todos estão tentando fazer o que a Nan Goldin faz. Você concorda? O que você pensa quando você se depara com fotos como as suas?
Em que ano foi a entrevista?

Em 2016.
Porque de tempos em tempos tem algum fotógrafo que as pessoas ficam orgulhosas de copiar. Acontece por um período, mas não dura. Eu fui a "moda" por um bom tempo, na verdade. Mas poucas pessoas podem imitar o que estou fazendo, pois é baseado em sentimentos e não na aparência das coisas. Então, se você não tem o segredo pra isso, você não está fazendo o que eu estou fazendo. Você está fazendo o que você está fazendo. E tudo bem. Ninguém precisa fazer o que eu estou fazendo.

'Greer e Robert na cama', Nova York, 1982. Foto: Nan Goldin

Todos os assuntos nos quais você focou suas lentes, como drag queens, gênero, relacionamentos abusivos e o universo LGBT, estão sendo debatidos mais do que nunca atualmente. Recentemente, no Brasil, tivemos um primeiro personagem transgênero numa novela.
Ah, ótimo.

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Foi importante para o país. E as pessoas pareceram confusas, mas, ainda assim, estavam debatendo sobre o assunto.
As pessoas estavam confusas sobre o quê?

"Poucas pessoas podem imitar o que estou fazendo, pois é baseado em sentimentos e não na aparência das coisas"

Sobre o que é uma pessoa transgênero. Porque o assunto não era mais sobre drag queens estereotipadas. É outro debate, e as pessoas ficaram um pouco chocadas.
Me explique.

Não era algo engraçado ou…
Drags nunca foram engraçadas.

Sim, mas, no Brasil, pessoas LGBT sempre são caracterizadas de forma humorística.
Okay.

'Misty e Jimmy Paulette no táxi', Nova York, 1991. Foto: Nan Goldin

Foi meio que a primeira vez que o assunto foi abordado de forma séria, tentando entender o que são as pessoas transgêneros. E gostaríamos de saber como você enxerga esse tipo de coisa.
Como eu enxergo o quê?

Pessoas falando sobre isso agora.
Eu não sei. Eu não posso falar, me desculpe. [Descendo da cadeira] Nada que você falou me entusiasmou nessa conversa.

Mas você costumava fotografar essas pessoas.
Eu ainda fotografo.

Elas são importantes pra história…
Minha história não vai ser contada por revistas online. [Ela começa a caminhar para longe de nós.]

Nan, não faz isso, por favor.
Eu nem ao menos gosto de coisas online. [Ela vai embora e chama seu agente, que a acompanha até o quarto].

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