Desporto

Entrei para a academia de futebol do Real Madrid e foi uma bosta

Passávamos horas jogando bola, só comíamos fast food e nunca estudávamos. Parece o sonho de qualquer garoto, mas foi a coisa mais difícil da minha vida.
1.9.17
Todas as fotos cortesia Ignacio Martín

Matéria original da VICE Espanha .

Toda manhã às 8 horas, meus colegas de time e eu corríamos pro banheiro armados com chapinhas de cabelo e potes de cera ou gel. Os baixinhos brigavam com os altos por um lugar nos espelhos. Todo mundo respeitava a hierarquia das fileiras, mas nosso regime de beleza individual era mais importante.

Nunca vou esquecer o dia em que entrei no vestiário da La Fábrica (conhecida oficialmente como Academia Jovem Real Madrid) e fui atingido pelo cheiro forte de queratina queimada e cocôs matinais – sem falar no reggaeton bombando do radinho portátil de alguém no volume máximo. Éramos moleques tentando imitar nosso ídolos metrossexuais – como se isso pudesse nos trazer mais perto do sucesso deles. Alguns garotos ali ganhavam mais dinheiro que os pais, e todo mundo estava trabalhando para um objetivo perto do inalcançável. Assinar com a academia jovem do Real era uma honra, sem dúvida, mas acabou se mostrando uma das experiências mais difíceis da minha vida.

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Antes de me juntar ao time da Fábrica, eu morava com meus pais em Tenerife, nas Ilhas Canárias, e jogava no time local, o U.D. Orotava. Um dia, um olheiro me convidou para jogar algumas partidas com a academia do AC Milan – que tinha uma filial em Ávila, Espanha. Lá, olheiros do Real Madrid se interessaram por mim. Não muito depois, eu e meus pais nos vimos numa reunião num dos escritórios do Ciudad Real Madrid, onde me ofereceram um contrato. Para a temporada de 2008 a 2009 eles cobririam todas as minhas despesas – o voo de Tenerife a Madri, a mudança, a mensalidade da escola, as taxas de dormitório e me dariam uma bolsa de 200 euros por mês. E eu assinei. Eu era um garoto de 15 anos e estava prestes a jogar por uma das melhores academias de futebol da Espanha e do mundo. O futuro não poderia parecer mais promissor naquele momento.

Enquanto eu morava no dormitório, há milhares de quilômetros dos meus pais, alguns colegas ficavam em apartamentos no centro de Madri com os pais deles. O clube queria tanto assinar com esses garotos que tinha pago pela mudança dos pais deles também. Esses caras já tinham sido notados por grandes marcas esportivas e assinado contratos de patrocínio. Meus amigos e eu morríamos de inveja quando esses caras folheavam os catálogos dos patrocinadores, escolhendo qualquer roupa ou calçado que quisessem. Ouvi uma história dos garotos mais velhos sobre um jogador que tinha comprado um Audi novinho sem nem ter tirado carteira de motorista.

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Os dias na academia seguiam a mesma rotina. Acordávamos e íamos tomar café, que consistia de biscoitos, sanduíches embalados, suco de laranja, bolo e um pedaço de fruta. Uma hora depois a gente partia para a escola, onde tínhamos aula até as 17h – parando para o almoço às 14h. Depois da escola, voltávamos rapidamente para o dormitório para comer os biscoitos e tomar o milkshake que os supervisores deixavam nas nossas camas antes de pegar o ônibus para o treino, onde a gente ficava até às 22 horas.

Pensando agora, acho que a gente não tinha o tipo de nutrição necessária para o que era esperado de nós – e ninguém monitorava como e o que a gente comia. A viagem de ônibus do dormitório até o treino levava 45 minutos, e lembro que algumas vezes eu rezava para ter tempo suficiente para comprar alguma coisa para comer nas máquinas automáticas ou da cantina do campo. Mas, quando a gente tinha tempo para comer, era outro dilema: comer muito e correr o risco de vomitar durante o treino ou não comer nada e correr o risco de não aguentar até o final.

O serviço de alimentação não-oficial da Fábrica era um pequeno restaurante local chamado Giardino. Toda noite, um grupo de garotos se juntava na entrada do dormitório esperando o entregador trazer waffles cobertos de chocolate e cachorros-quentes cheios de molho barbecue. A gente sabia que não era saudável, mas éramos moleques de 15 anos.

Fora passar fome durante o treino, o fato da nossa dieta não ser monitorada parecia ter um impacto na minha performance. Comer mal pode te tornar mais propenso a se machucar e afeta seu sistema imunológico, o que dificulta se recuperar das lesões. Quando estava na academia, fui diagnosticado com músculo distendido na panturrilha, tendinite, tornozelo torcido e acúmulo de fluído nas juntas – cheguei a me machuquei mais de cinco vezes numa temporada. E mesmo que os diagnósticos dos médicos da academia estivessem sempre certos, acho que os caras estavam mais focados em nos mandar de volta para o campo o mais rápido possível – tratar nossas lesões em vez de descobrir a causa delas.

Os treinos eram puxados e qualquer passe errado, movimento inesperado ou execução ruim de um exercício garantia uma comida de toco muito pública dos treinadores. Na Fábrica, não estávamos competindo só contra os outros times, mas também contra os colegas.

Cada dormitório tinha 15 quartos, cada um ocupado por três jogadores adolescentes. Toda aquela testosterona, sexualidade reprimida e ego resultavam numa mistura altamente inflamável. Garotos pode ser cruéis e sabem perfeitamente como atacar os outros onde dói mais. Não vou dizer o que aconteceu quando descobrimos que um colega tinha mijado na cama, mas você consegue imaginar.

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Dois amigos gostavam de se trancar no quarto deles e lutar. Eles sempre convidavam alguém para assistir, para ser o juiz ou separar a briga se a coisa ficasse muito feia. Isso aconteceu algumas vezes quando eu estava na academia – e não prejudicava em nada a amizade deles.

Pessoalmente, eu tentava lidar com a pressão cantando músicas motivacionais para mim mesmo na viagem de 45 minutos até o treino. Além disso, eu vivia repetindo para mim mesmo que eu tinha uma vontade de ferro – que era isso que eu realmente queria.

Uma vez meu irmão me perguntou por que fiquei na academia se era um sofrimento tão grande para mim. A verdade é que, quando saí de Tenerife para jogar no Real Madrid, a ilha inteira me apoio e invejou ao mesmo tempo. Eu não queria decepcionar minha família – muito menos meu pai – admitindo que me sentia miserável na Fábrica. Quando garoto, nunca aprendi a reconhecer meus sentimentos e expressá-los; essa chance na academia era o que eu deveria querer e reclamar seria ingratidão.

Em retrospecto, acho que o que mais me incomodava na academia era a educação que recebíamos – principalmente a falta dela. Todo dia depois da escola íamos direto para o treino e voltávamos pro dormitório por volta das 22 horas para jantar. O tempo entre o jantar e a hora de dormir era o único momento que tínhamos para estudar, o que era muito difícil depois de horas de exercícios extenuantes – especialmente quando isso é uma responsabilidade só sua e você tem 15 anos. Na manhã seguinte, voltávamos para a escola, sábados e domingos eram dia de jogo.

No ano passado, assistindo a semifinal da Liga dos Campeões entre Real Madrid e Manchester City, vi que um dos meus antigos colegas de classe estava no time titular. Seus gestos e expressões não tinham mudado nada. Fiquei muito feliz em ver que um cara tão talentoso e merecedor tinha conseguido entrar para o time, mas o que você não vê em campo é que ele repetiu de ano duas vezes seguidas enquanto estava na academia.

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Quanto melhor era o jogador, menos ele era pressionado a estudar. E os garotos achavam ótimo, porque estavam fazendo o que amavam e o que achavam que fariam pelo resto da vida. O que era verdade para meu colega – ainda consigo vê-lo sentando no fundão da classe no segundo ano, sem prestar a mínima atenção. A gente tirava sarro dele porque ele tinha barba – o que a gente não percebia era que ele era o único com pelo facial porque era dois anos mais velho que a gente.

Anos depois, quando fui estudar nos EUA, notei como o sistema era diferente para os alunos com bolsa esportiva: se suas notas não são boas, você não pode jogar até melhorá-las. Esse tipo de abordagem instalava uma ética de estudo diferente nos jovens atletas – e melhor, na minha opinião.

Meu ano na academia produziu vários jogadores de sucesso, como Lucaz Vázquez, Álvaro Morata, Denis Cheryshev, Dani Carvajal, Jesé Rodríguez, Diego Llorente e Enrique Castaño. E muitos outros, que podem não estar brilhando na Liga Europeia ou outras divisões internacionais, ainda jogam futebol profissionalmente em times da segunda ou terceira divisão. Mas se é relativamente raro que os pupilos da academia acabem jogando nas grandes ligas, é aceitável que seus estudantes não sejam encorajados a focar nos estudos? Os que conseguem são usados como justificativa para o método atual de treinamento; mas o que acontece com os que não conseguem?

Claro, só posso falar por mim. Quando a temporada acabou, me disseram que eu não era bom o suficiente para continuar no programa. Me senti livre. Dois dias depois de receber a notícia, arrumei minhas malas, as coloquei no carro do meu tipo e saímos da capital.

Em casa fui recebido de braços abertos – parece que parte da pressão que eu sentia era injustificada. Quando as pessoas em casa me perguntaram se eu ainda torcia pelo Real Madrid, garanti que sim. Mas voltando a jogar em casa, notei que meu tempo na academia tinha mudado drasticamente minha ideia de futebol. Vi que o futebol de verdade – o tipo que eu tanto amo – é jogado nas ruas, por times formados pelos meus amigos.

Felizmente, o programa jovem do Real Madrid me ajudou a conseguir uma bolsa de futebol numa universidade americana. Depois que me formei, fiz um MA em Direitos Humanos na Holanda, e este mês começo um curso de direito na UCL.

Como eu disse, treinar na Academia Jovem do Real Madrid foi a coisa mais difícil que já fiz. A academia me ensinou algumas lições de vida difíceis, o que facilitou lidar com os desafios no futuro. A questão, para mim, é se é certo um garoto de 15 anos ter que aprender essas lições. Se a adolescência é a hora ideal de descobrir que você é só um produto no mercado de que todo mundo quer tirar um pedaço.