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Kurt Cobain também era um artista plástico incrível

Exposição na Feira de Arte de Seattle oferece um vislumbre arrepiante das outras buscas artísticas do falecido vocalista do Nirvana.
23.8.17
Pintura de Kurt Cobain 'Crackbabies'
Kurt Cobain, "Crackbabies"

Ele é canonizado por sua música, mas Kurt Cobain também se interessava por artes plásticas muito antes de pegar uma guitarra. Em Mais Pesado que o Céu, o biógrafo Charles R. Cross reconta como o Cobain de seis anos se gabava de desenhar uma imagem perfeita do Mickey Mouse de cabeça. O trabalho era tão perfeito que seu avô Leland o acusou de copiar. "Não copiei", disse Cobain, e logo desenhou também o Pato Donald e o Pateta. Leland ficou impressionado.

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Pinturas inéditas de Cobain, seladas até agora nos arquivos da Propriedade Cobain, foram o evento principal da Feira de Arte de Seattle no começo do mês. Quase 100 galerias de dez países trouxeram seus trabalhos mais vendáveis para o grande mercado de arte do Noroeste Pacífico, mas as pinturas de Cobain não estavam à venda — elas fornecem uma nova perspectiva do líder do Nirvana como um músico que também se expressava em telas.

Na escola, Cobain recebia de professores de arte os elogios e apoio que não tinha em casa, trabalhando sua angústia em relação ao casamento fracassado dos pais com quadrinhos ilustrados em seus diários. "Ele estava sempre rabiscando", a colega de classe Nikki Clark disse a Cross. Ele preferia imagens proibidas, de violência e monstros a Satanás. Ele mostrou um desenho fotorrealista de uma vagina para o colega da sétima série Bill Burghardt, que respondeu "O que é isso?"

A arte visual de Cobain também permeou a ascensão do Nirvana, do primeiro adesivo da banda à pintura da capa de Incesticide — os dois em exposição na feira.

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Kurt Cobain, "Sem Título".

A United Talent Agency desenterrou a arte de Cobain quando começou a representar sua propriedade ano passado; o diretor de belas artes da agência, Josh Roth, teve acesso a centenas de objetos pessoais de Cobain num armazém em "algum lugar de LA". Uma série de suas descobertas estreou no Centro de Eventos Century Link em 3 de agosto, incluindo páginas de caderno contendo o primeiro rascunho de "Smells Like Teen Spirit", uma carta jurando devoção eterna a Courtney Love, e uma colaboração com William S. Burroughs, na qual Cobain contribuiu com quatro buracos de bala. Também há duas pinturas: uma figura humanoide anfíbia sobre um fundo amarelo chamada Fistula, e uma obra que milhões de fãs do Nirvana já conhecem e provavelmente têm em miniatura em casa: a pintura da capa do disco — e também chamada — Incesticide.

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Kurt Cobain, Incesticide.

Ver as pinturas pessoalmente no estande da UTA da Feira de Arte de Seattle foi mágico — um raro vislumbre de um canto da mente de Cobain que não foi analisado exaustivamente nos 23 anos desde sua morte. As pinceladas são precisas mas cruas, e as pinturas estão em exposição nas molduras de madeira originais de Cobain. Se alguém viajasse no tempo de março de 1994 para a feira em 2017, a pessoa poderia pensar que Cobain transformou sua paixão por desenho da infância em arte mundialmente famosa.

O trabalho de Cobain já tinha atraído atenção da Rolling Stones , blogs de cultura e meios de comunicação locais, mas o estande também apresenta obras de gente como Mike Kelley, Richard Prince, Elizabeth Peyton, Dennis Hopper e Dash Snow. "Queríamos mostrar artistas estabelecidos ao lado de Kurt", diz Roth. Ele afirma que uma exposição solo de Cobain está nos planos — mas para uma feira na cidade onde Cobain ganhou fama, ele achou que "seria interessante fazer algo com uma imagem maior". Através das obras de que fez a curadoria, Roth faz uma pergunta tentadora: E se Kurt Cobain estivesse vivo? E se, além de um gênio musical, ele tivesse se tornado um astro da arte?

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As 27 obras em exposição sugerem que ele estaria em boa companhia. Junto com Fistula e Inscesticide está um dos Garbage Drawings de Kelley, baseados nas pilhas de lixo que povoavam os quadrinhos Sad Sack do Sgto. George Baker. A infância e adolescência de Kelley têm paralelos com a de Cobain; ele cresceu na classe trabalhadora e começou sua carreira na cena musical de Detroit com a banda de noise Destroy All Monsters. Os dois artistas tinham uma abordagem irônica em seu trabalho, abraçando imperfeições e estéticas cruas, lutaram contra a depressão e tiraram suas vidas. "Ele é um artista faminto por excelência", Roth diz sobre Kelley.

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Kurt Cobain, Fistula.

Também em exposição no estande está uma pintura da retratista Elizabeth Peyton. Ao lado de lendas como Chuck Close, a graduada pela School of Visual Arts é conhecida por ajudar a reviver o retrato depois da dominância do expressionismo abstrato. Sua carreira decolou um pouco depois do suicídio de Cobain, quando ela pintou o falecido cantor e guitarrista para a Rolling Stone. Seu retrato de lábios vermelhos do controverso amante de Oscar Wilde Lord Alfred Douglas, Lord Alfred Douglas at Age 5, está algumas molduras depois de Fistula no estande do UTA. O retrato dela lembra sua imagem de Cobain pelo olhar hipnótico — enquanto também serve como lembrete que, se ele tivesse continuado a pintar pelos anos 90 e 2000, eles provavelmente seriam contemporâneos.

Roth compara o potencial do Nirvana com o estrelato do U2 e Bruce Springsteen, e imagina o que Cobain teria alcançado como músico com as décadas de experiência de Bono. Mas o homem que mais lembra Cobain para Roth e outro músico e artista plástico: Bob Dylan. "Ele é um ótimo exemplo do que Cobain poderia ter se tornado", acrescenta Roth. "Mas, infelizmente, nunca vamos saber."

De certa maneira, o estande de Roth na Feira de Arte de Seattle era pura gozo para os fãs do Nirvana — mas mais importante, ela desperta a imaginação, criando um mundo excitante onde é um prazer se perder. Saindo do estande, a ilusão de Kurt Cobain como astro da arte se quebra, deixando apenas pensamentos do que poderia ter sido. "Essa é a tragédia de uma vida que termina muito cedo", diz Roth. "Acho que ele só estava começando."

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