Todas as vezes que pessoas negras se infiltraram no Ku Klux Klan

Talvez já tenhas visto uns sketches humorísticos sobre o tema, mas os casos da vida real são ainda mais alucinantes.

Por Vee Wright; Traduzido por Madalena Maltez
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set 6 2018, 12:44pm

Esquerda: foto cortesia Comedy Central. Direita: foto cortesia David Lee/Focus Features.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Um membro negro do Ku Klux Klan? Coisa de comédia, claro. Em modo Cleavon Little de Balbúrdia no Oeste, ou Clayton Bigsby de Dave Chappelle. No entanto, o cartão de membro que Ron Stallworth me mostra, assinada por um Grand Wizard Duke em 1979, é uma prova e não uma piada. “Ninguém acreditaria em mim se este cartão tivesse sido destruído, ou se o meu certificado de membro tivesse desaparecido”, diz o policia reformado do Colorado, nos EUA, que é o tema do filme de Spike Lee, BlacKkKlansman - O Infiltrado [que estreia hoje, quinta-feira, 6 de Setembro, em Portugal].

Nas digressões promocionais, Lee tem dito que, primeiro, achou que a história tinha alguma coisa de sketch de Chappelle quando o seu colega realizador Jordan Peele lhe fez o pitch. A adaptação é baseada no livro de Stallworth de 2014, Black Klansman: Race, Hate, and the Undercover Investigation of a Lifetime, que apresenta os arquivos que Stallworth diz ter guardado, mesmo contrariando ordens directas. Ao ver que a história era verdadeira, Lee embarcou no projecto.

Stallworth, interpretado por John David Washington, conseguiu entrar no KKK local por telefone. Um colega detective, branco (Adam Driver no filme), fazia-se passar por ele quando os membros do Klan lhe pediam para se encontrarem pessoalmente. A investigação de nove meses não valeu nenhuma detenção, mas revelou que vários "Klansmen" eram membros activos do exército. Alguns, que trabalhavam em posições importantes do Comando de Defesa Aeroespacial Norte-Americano, foram transferidos.


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Como na maioria dos filmes baseados em eventos da vida real, BlacKkKlansman toma liberdades e algumas desnecessárias. Uma tareia que Stallworth apanha de policias brancos que não o reconhecem como agente disfarçado é ficção, assim como um dos "Klansmen" a descobrir que ele é um policia. Outra invenção (atenção: spoiler) é um atentado à bomba no auge do filme. E enquanto o filme e o livro tratam o Klan principalmente como um bando de idiotas, na vida real o grupo é extremamente perigoso.

Ainda assim, houve tentativas de infiltrados com sucesso muito antes de Stallworth. Nos anos 1920, Walter White conseguiu extrair informações cruciais de simpatizantes e associados do KKK. O secretário-executivo de pele clara, loiro e olhos azuis da NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor) conseguia mover-se facilmente entre os mundos negro e branco. Apesar de conseguir passar em qualquer teste a olho nu, White identificava-se como uma pessoa não-branca. White investigou vários linchamentos e revoltas de cariz racial, que partilhou com advogados da NAACP e recebeu muita publicidade enquanto lutava por uma lei federal anti-linchamento, que até hoje não foi aprovada.

Nos anos 1970, o jornalista de investigação branco Jerry Thompson também entrou disfarçado no grupo, num caso que relatou numa série no Nashville Tennessean e num livro subsequente, My Life in the Klan. Entre as suas descobertas estava um plano de uma revolta anti-comunista armada da facção "Império Invisível", que as autoridades conseguiram frustrar depois de uma dica do editor de Thompson.

Um indivíduo amplamente celebrado por atrapalhar o Klan, apesar de sugestões de que exagerou o seu papel, é William “Stetson” Kennedy. Um tipo de sangue azul, cuja família incluía pessoas que assinaram a Declaração de Independência e o criador do chapéu Stetson, Kennedy ajudou a redigir um resumo que levou à revogação da Carta Corporativa Nacional do KKK na Geórgia, em 1947.


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Mas, é um homem negro – que não Stallworth – o responsável pelo caso mais ousado e de maior sucesso. Músico de boogie-woogie, Daryl Davis tocou com gente como Chuck Berry e Jerry Lee Lewis. De pele morena, teve encontros individuais e em grupo com membros do Klan. Ia como ele próprio. Com isso, sem surpresa, também se envolveu em algumas sessões de pancadaria.

Os seus sucessos superam os seus fracassos. Através de um discurso civilizado, lógico e com uma saudável dose de Jesus, Davis convenceu membros, incluindo alguns Grand Wizards, a voltarem-se contra as suas próprias visões perversas. Ele diz mesmo que foi responsável, directa e indiretamente, por mais de 200 pessoas terem abandonado o KKK. Várias obras, incluindo um livro, Klan-destine Relationships: A Black Man's Odyssey in the Ku Klux Klan, e o documentário da PBS, Accidental Courtesy: Daryl Davis, Race & America, são baseados nessas experiências.

Como Stallworth, Davis tem a pele em risco, mas a diferença é que a pele de Davis é a dele mesmo. Ao contrário de outros infiltrados, ele não entrou na organização do KKK, mas infiltrou-se nos corações e nas mentes dos seus membros.


Uma versão deste artigo foi originalmente publicada pelo Marshall Project, uma organização de notícias sem fins lucrativos, que cobre o sistema de justiça criminal dos EUA. Assina a newsletter, ou segue o Marshall Project no Facebook ou Twitter.

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