Todas as fotos pela autora.

Fiz morcela com o meu próprio sangue

Nada como uma bela morcela - feita com meio litro do meu sangue - para complementar um jantar a dois.

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ago 8 2018, 11:27am

Todas as fotos pela autora.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard Holanda e contém imagens gráficas de sangue.

Quando contei a algumas pessoas que queria fazer morcela utilizando o meu próprio sangue, as suas narinas dilataram como se tivessem cheirado algo horrível. Literalmente, toda a gente com quem falei sobre o assunto disse: “Isso é nojento”.

Nojento? Para mim, nojento é quando porcos ou vacas são abatidos. O meu próprio sangue tem quase os mesmos nutrientes – ferro, vitaminas e minerais – que o sangue de porco que, geralmente, é usado para fazer a morcela de sangue e, desta forma, só me "magoa" a mim própria e a nenhum outro animal. Procurei durante cinco minutos até encontrar um site onde podia comprar os materiais médicos que iria precisar. Fiz scroll por listas de bisturis, serras de gesso ortopédico e roupas de cirurgiões.

Como queria ter a certeza de que tinha o tipo certo – e porque só conseguiria comprar agulhas em lotes de 100 – pedi seis caixas. Custaram oito euros cada. Na categoria de “materiais para transfusão,” encontrei bolsas de sangue para fazer doações. Depois de pagar, tudo o que podia fazer era esperar que o meu pedido chegasse.

No dia seguinte, o material que encomendei foi entregue à porta de casa e fiquei feliz como uma criança na manhã de Natal, a desempacotar as minhas 600 agulhas e bolsas de sangue. De repente, a minha sala de estar parecia uma sala de cirurgia.

Vi alguns vídeos no YouTube e entrei no site de encontros Inner Circle para pedir uns conselhos – já que alguns dos meus matches diziam ser médicos. Uns dias depois, perfurei uma veia na parte de dentro do cotovelo com uma agulha grossa ligada à bolsa de sangue. Enquanto o recipiente enchia devagar com meio litro do meu sangue (a mesma quantidade que é colhida para doar ao banco de sangue), pus-me a pensar: O que é que a minha mãe pensaria se me visse na sala a fazer isto? Ou meus professores do liceu?

Depois de encher a bolsa, o meu braço estava um pouco fraco e meio roxo. Será que o meu torniquete estava demasiado apertado, ou será que tirei demasiado sangue? Não tinha a certeza, mas estava na altura de tirar a agulha da veia. A falta de experiência resultou num jacto de sangue no tapete. Um pequeno preço a pagar por uma enorme bolsa de sangue.

Ouvi a minha campainha a tocar e abri a porta – era a minha amiga Fayette, que disse que me ia ajudar a cozinhar, porque sabe tudo o que é preciso saber para fazer uma morcela de sangue.

Preparei todos os ingredientes e eu e Fayette conversámos sobre as nossas vidas amorosas enquanto misturávamos lentilhas, extracto de tomate, shoyu e ervas em algo que viria a ser um suculento recheio ao estilo Suriname. E então, deliberadamente – mas com cuidado –, derramei a bolsa de sangue quase inteira na mistura.

Moldámos a massa em forma de morcela e colocámos no meu microondas-forno dos anos 90. Pela primeira vez, percebi as pessoas que dizem que cozinhar “te dá um sentimento de realização”.

Enquanto a morcela que fiz com o meu próprio sangue assava no forno, eu e Fayette limpámos a cozinha, que nessa altura mais parecia um matadouro. A morcela estava quase pronta, mas que tipo de festa seria esta sem a presença de convidados?

Surpreendentemente, várias pessoas estavam dispostas a provar a minha criação sanguinária. Vários colegas de trabalho, amigos e o meu roommate – cuja matéria fecal eu usei para fazer uma pílula de cocó há uns meses atrás – andavam a discutir por um lugar à mesa. Não tinha assim tantas morcelas, portanto decidi fazer apenas um jantar para dois e convidei um amigo.

Após retirar as morcelas do forno, preparei dois belos pratos. E, como toque final, derramei um pouco do sangue que restou em cada prato.

Acendi algumas velas e sentámo-nos. Estávamos prontos para comer. Cortámos um pedaço da morcela e, muito felizes, mastigámos como se fôssemos jurados de um qualquer reality show de culinária. A textura era muito boa e o picante estava perfeito. Infelizmente, exagerei um bocadinho na quantidade de shoyu e a morcela acabou por ficar meio salgada. Mas, não saiu nada mal.


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