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Identidade

Estudo revela que 40 por cento das mulheres portuguesas inquiridas nunca se masturbou

Vivemos num mundo que apagou o clitóris dos livros de medicina e em que a masturbação feminina é tabu. Chegou a hora de dizer CHEGA!

Por Madalena Maltez
01 Abril 2019, 5:32pm

Foto por Charles 🇵🇭 on Unsplash.

Hoje é dia das mentiras e oxalá que isto fosse tanga, mas não é: a Flame Love Shop levou a cabo um inquérito a 200 mulheres portuguesas, todas de idades diferentes e descobriu que 40 por cento delas nunca se tinha masturbado. “A masturbação feminina continua a ser um tabu por vários motivos, entre os quais a repressão sexual, a religião ou até o medo e o preconceito”, diz Irina Marques, especialista em Sexologia Educacional e directora da sex shop, em comunicado enviado à VICE.

É difícil chegar a um valor único, mas dizem vários estudos que entre 50 a 75 por cento das mulheres não conseguem chegar ao orgasmo através apenas da penetração – ou seja, sem a ajuda de mãos, línguas ou brinquedos sexuais a estimularem o clitóris – e, até as que conseguem, não conseguem todas as vezes que fazem sexo. Para além disso, de acordo com as mesmas investigações, 10 por cento das mulheres não conseguem, simplesmente, chegar ao orgasmo de maneira nenhuma.


Vê: "A história do vibrador"


Todos sabemos que, historicamente, as mulheres sempre importaram menos – consequentemente, também o nosso prazer na cama não era uma preocupação para eles – e, em 1904, apareceu Freud com a teoria de que o orgasmo clitoriano era algo adolescente e, quando já tivesse marido, a mulher devia deixar-se disso e passar a ter apenas orgasmos vaginais. Hoje, sabe-se que tal não é possível para a maioria de nós (há, inclusive, um estudo de 2014 que diz que o orgasmo vaginal não passa de um mito) e que, para além disso, as duas fontes estão coladas, sendo irrelevante de que nervo vem a onda de prazer. Mas, Freud marcou a história e, provavelmente como consequência desta sua teoria, em 1947 a anatomia do clítoris foi retirada dos livros de medicina por Charles Mayo Gross. Como se não existisse.

O clítoris, órgão de aproximadamente 12 centímetros, único órgão do corpo humano cuja única e exclusiva função é dar prazer, foi apagado da história da medicina até ser redescoberto em 1998 pela urologista australiana Helen O’Connel – sim, até há 21 anos não sabíamos como era nem como funcionava o clitóris. Fomos à Lua, inventámos a Internet, tudo isto antes de descobrirmos a anatomia do clítoris, a única fonte do prazer feminino. Enfim...

Vivemos num mundo que apagou dos livros o nosso prazer, mas durante anos e anos temo-nos culpado a nós próprias. Como ninguém nos ensina, nem é aceite socialmente que uma mulher fale de masturbação ou de problemas sexuais, achamos que somos nós que estamos mal, que é o nosso corpo que está estragado, porque nos filmes o sexo é só fogo de artifício e na vida real... não tanto assim. Mas, não é o teu corpo que está estragado – são os homens que não te sabem fazer vir, porque também a eles ninguém lhes ensinou e porque a cultura do porno é a pior coisa que aconteceu ao sexo heterossexual. Não há nada de errado com o teu corpo, só tens que descobrir o que funciona para ti e ensiná-lo aos teus parceiros. E, para isso, tens que partir para a aventura sozinha, em modo Dora a exploradora dos teus próprios genitais - sem masturbação não chegas lá.


Vê o primeiro episódio de "Slutever"


Ser mulher é um mar de injustiças, eu sei. Os homens não sabem onde é o nosso clitóris, porque a educação sexual é quase inexistente, nós não o conhecemos porque há um enorme tabu à volta da masturbação feminina; sofremos uma enorme pressão social sobre como deve ser o nosso corpo e, mal nos despimos, somos atacadas pelas nossas inseguranças, focamo-nos na banha da barriga e em tentar imitar uma actriz porno e deixamos para segundo plano o nosso próprio prazer. E, por causa da nossa natureza maternal e reprodutória, de cuidadoras com um cérebro desenhado para pensar em mil coisas ao mesmo tempo, quando estamos quase, mesmo quase a conseguir vir-nos... Lembramo-nos de que a sopa ficou fora do frigorífico e pronto, senhoras e senhoras, lá se foi o orgasmo para não mais voltar.

Por tudo isto é que a masturbação é tão importante para a saúde mental das mulheres. Se não fosse ela, seriam muitas menos as mulheres a terem alguma vez chegado ao clímax de prazer. Por isso, amigas, que se fodam os preconceitos, as más línguas, a cultura do porno, o que diz a Igreja e, principalmente, que se foda o Freud - o corpo é teu, a vagina é tua e, se não fores tu a tratar dela, ninguém mais vai tratar. Por todos os longos minutos que já passaste de joelhos a fazer broches, por todas as incontáveis vezes que fizeste sexo sem ir às estrelas, por todas as ejaculações precoces que já aguentaste, por todas as dores musculares e pílulas do dia seguinte desperdiçadas em homens que não sabiam fazer minetes, chegou a hora de reivindicares os teus direitos ao orgasmo, porque de uma coisa não tenhas dúvidas: uma vida sem orgasmos não é uma vida que queiras viver. Mereces melhor.

Fuma um charro – a marijuana duplica as probabilidades de as mulheres chegarem ao orgasmo -, bebe um copo de vinho, deita-te debaixo de uma manta, abre as pernas e relaxa. Ah, e a Flame Love Shop fez um pequeno guia para te ajudar a descobrires-te:

1. Estimulação directa. Com um dedo, faz levemente movimentos de cima para baixo e rotativos.

2. Estimulação indirecta. Passa os dedos sobre a vulva, massajando levemente. Podes fazê-lo até sobre a roupa.

3. Estimulação com penetração de dedo. Este é um movimento sincrónico em que, ao mesmo tempo que estimulas o clitóris de forma circular, introduzes um outro dedo na vagina. Utiliza as duas mãos neste processo.

4. Após a estimulação com penetração dos dois dedos, concentra-te na parte de cima da vulva. Massaja o clitóris com a palma da mão, enquanto os dois dedos estão dentro da vagina, e manipula o ponto G.

5. Estimulação com recurso a objectos. Pode ser a almofada ou um brinquedo sexual apropriado.

Os homens falam de punhetas e sexo todos os dias da vida deles e tu também podes fazê-lo. Conhecer o teu corpo e comunicar aquilo de que gostas e não gostas vai trazer-te mais confiança sexual e melhorar enormemente a tua vida entre os lençóis, tanto sozinha como acompanhada. Ou então, não fales sobre o assunto, mas masturba-te na mesma.


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