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Drogas

O maior mercado mundial da deep web vai fechar. E agora?

Sob circunstâncias misteriosas, o Dream Market deverá fechar no final de Abril. "Game Over" para os grandes mercados de drogas da Internet?

Por Mike Power; Traduzido por Marina Schnoor, e Sérgio Felizardo
15 Abril 2019, 10:53am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

A 26 de Março último, centenas de milhares de pessoas de todo o Mundo entraram no site Dream Market da deep web e encontraram a seguinte mensagem:

Todas as compras e vendas no Dream (o maior, mais antigo e mais utilizado mercado da deep web) foram suspensas. A maioria dos vendedores e utilizadores conseguiram aceder ao site e retirar os seus fundos, mas, quando fechar de vez no fim de Abril, será o fim de centenas de milhares de negócios que geram milhões de euros todas as semanas.

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A acção deixou clientes, observadores e vendedores a pensarem se o encerramento do Dream pode marcar uma mudança na forma como a deep web está acostumada a comprar e a vender drogas. Há conversas sobre um novo site parceiro misterioso, mas muitos interrogam-se se não será apenas uma armadilha pensada pelas autoridades.

Um administrador do fórum do Dream, “Hugbunter”, revelou na deep web que o Dream Market está refém de um hacker que pede 400 mil dólares de resgate, mas que os responsáveis se recusam a pagar. O mesmo utilizador disse ainda que o hacker está a explorar uma falha de navegador que torna este tipo de ataque extenso simples e barato.


Vê o primeiro episódio de "Cyberwar"


O encerramento parcial do Dream não surge do nada. Aconteceu depois de uma série de ataques de hackers ao site, que o deixaram quase inacessível pela maior parte dos últimos dois meses. Conhecido como Distributed Denial of Service (DDOS), a situação envolve um ataque técnico de hackers maliciosos – ou agentes do governo – que bombardeiam as primeiras páginas com milhões de usuários falsos, reduzindo a velocidade do serviço para um congestionamento digital. Esses ataques foram feitos para manchar a reputação do site e torná-lo impossível de usar.

O FBI usou um truque semelhante em 2013 contra o Silk Road original, depois clonou-o, controlou e monitorizou o tráfego do seu servidor. O ataque e uma investigação extensa e corrupta resultaram na sentença de prisão perpétua do dono do Silk Road, Ross Ulbricht.

Observadores experientes da deep web sabem que qualquer tipo de pausa ou actividade estranha num mercado é, geralmente, presságio de uma operação policial. Mas, neste caso, não houve página inicial do FBI a exigir a cabeça do dono do site, como aconteceu com o Silk Road. O site não foi fechado imediatamente, mas está a ser desactivado. Se a polícia cibernética assumiu o controlo do site, parece que não tem pressa em fechá-lo completamente. A questão é: o que é que está realmente a acontecer?

Normalmente, quando os admins de um site fazem um anúncio como este do aviso de encerramento do Dream, a mensagem é verificada por uma “assinatura” criptografada através do software PGP. Isso prova que a mensagem foi escrita por quem diz que a escreveu. A nota de encerramento do Dream não tem qualquer assinatura – algo atípico, que sugere o envolvimento do braço da lei.

Isto fez muitos vendedores de drogas online concluírem que este encerramento parcial pode muito bem ser uma armadilha da polícia. Talvez o site original do Dream esteja agora sob controlo do FBI. Talvez a polícia tenha apreendido o servidor do Dream e esteja a rastrear todos os utilizadores e a entrada e saída das suas bitcoins do site. Mesmo com todo o anonimato, cada transação de bitcoin é registada num log público, indelével e impossível de mudar (o blockchain). Há até especulações de que a polícia pode ter invadido o Tor, o navegador anónimo usado para entrar na deep web.

Uma teoria popular entre os utilizadores de fóruns é que a DEA ou o FBI está no comando do Dream há meses, à procura de deslizes, a monitorizar grandes fluxos de bitcoin e a usar tecnologia para desmascarar utilizadores, compradores e operadores.

Em 2017, uma operação policial multinacional, denominada "Operação Baioneta 2.0", apreendeu o AlphaBay, um vasto mercado online, 10 vezes maior que o Silk Road. O dono, Alexandre Cazes, foi capturado e dias depois matou-se sob custódia da polícia na Tailândia. Centenas de milhares de utilizadores passaram imediatamente para um novo mercado, o Hansa. No entanto, polícias holandeses estavam só à espera para os emboscar. Há semanas que estavam no comando do Hansa, a recolher dados de utilizadores e a sequestrar o sistema de criptografia interno do site. Isso significou que toda a gente que usava o sistema de criptografia do Hansa para comunicar com os seus traficantes – enviando as suas moradas para envio postal de drogas – estava, na verdade, a assinar uma confissão para a Unidade de Crimes de Tecnologia da Holanda.

“Depois de muitos utilizadores terem sido prejudicados pela armadilha no Hansa, há um medo semelhante sobre a afirmação do Dream de que vai reabrir num novo site”, diz Patrick Shortis, investigador de criminologia da Universidade de Manchester e especialista em mercados da deep web e criptomoedas. E acrescenta: “Os utilizadores temem que o actual mercado ou o seu substituto possa estar comprometido pelas autoridades”.

O Dream é comandado há seis anos por um administrador discretíssimo, conhecido apenas como “Speedsteppers”. Ao contrário de Ulbricht, um especialista em tecnologia politizado, Speedsteppers não é um libertário apaixonado. Na verdade, é um inteligente especialista em media e chefe do tráfico de drogas digital. Speedsteppers comanda uma frota silenciosa. As suas motivações continuam a ser um mistério, para além da aquisição de bitcoins e dos ganhos através de uma comissão cobrada por cada venda.


Vê: "Como comprar drogas e armas na Deep Web"


Não há dúvidas de que o FBI e a DEA estão há anos a tentar derrubar o Dream. Shortis concorda que o encerramento do site não cheira bem. “Geralmente, criptomercados não são desactivados aos poucos”, explica. E justifica: “Normalmente, os admins fecham o site e fogem com os fundos dos utilizadores deixados no sistema de custódia centralizado – uma acção conhecida como 'exit-scam'”. Esta é, de longe, uma forma mais comum de fechar um mercado. E, mesmo que o criptomercado Agora tenha sido desactivado pelos admins em 2015, essa é uma acção muito longe da norma.

“O que torna isto ainda mais incomum é o Dream dizer que vai reabrir numa nova URL”, diz Shortis. E realça: “Se o Dream está a fechar porque a equipa se quer reformar, então isso faria sentido, mas fechar para reabrir com um novo nome vai, provavelmente, significar perder milhares de utilizadores que o site acumulou ao longo dos anos e começar do zero”.

O principal objectivo das autoridades que atacam mercados da deep web é destruir a confiança dos utilizadores. A teoria é que essas perturbações fazem os mercados parecerem fracos e afecta o estímulo dos utilizadores. “O encerramento de grandes mercados no passado causou perturbação, o ecossistema demora tempo a recuperar e há uma erosão da confiança dos utilizadores”, diz Teodora Groshkova, especialista em deep web do Observatório Europeu da Droga e Toxicodependência, sediado em Lisboa. E acrescenta: “A identificação e ataque a grandes fornecedores (além dos administradores do mercado) são necessários para evitar o simples deslocamento da actividade de um site para outro”.

Portanto, será este o fim dos mercados da deep web como um meio de comprar drogas de maneira conveniente, sem o risco de se ser observado pela lei? Não, diz Shortis. E justifica: “A comunidade é obstinada, colaborativa, conhece a tecnologia e já passou por isto muitas vezes. O comércio pode cair por um curto período durante este tipo de eventos, mas recupera rapidamente. Não acho que vá ser diferente desta vez”.

O tempo o dirá. O encerramento do Dream coincide com notícias do FBI relativas a uma série de prisões de traficantes da deep web na Operação SaboTor. Essa operação resultou em 61 prisões e o encerramento de 50 contas na deep web, mas ainda não sabemos se a operação está conectada com o Dream. E, claro, o jogo do gato e do rato entre traficantes online e a polícia está longe de acabar. Ainda há muitos outros mercados e sites de vendedores individuais na deep web, além de vendedores a trabalharem em aplicações como Wickr, Telegram, Instagram e Facebook, fora outros serviços padrão de entrega por telemóvel.

E, assim como acontece com o comércio old school de drogas nas ruas, fechar mercados negros faz muito pouco para diminuir a procura. O que provavelmente vai acontecer é uma enxurrada de actividade em fóruns enquanto os utilizadores tentam entrar em contacto com os seus vendedores favoritos offline ou noutro lugar. Comprar drogas pelo correio oferece demasiadas vantagens para que os consumidores de drogas simplesmente desistam.

Um mercado mais novo, o Wall Street, tem vindo a adicionar 100 mil utilizadores todos os dias na última semana e agora já tem mais de um milhão de clientes registados. O feedback dos utilizadores nas ofertas de drogas no Wall Street mostra que, por enquanto, os negócios continuam a decorrer normalmente. O site funciona há alguns anos e muitos dos maiores vendedores – alguns do Silk Road original – montaram ali as suas lojas. Sim, este site também pode ser uma armadilha, ou não.


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